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Como a crise do Ueno Bank afeta os brasileiros que se mudaram para o Paraguai

JOTA·
Como a crise do Ueno Bank afeta os brasileiros que se mudaram para o Paraguai

Brasileiros que se mudaram para o Paraguai, abriram empresas ou transferiram dinheiro para o país estão entre os afetados pela crise do Ueno Bank. A dimensão do impacto está relacionada à presença que a instituição conquistou no cotidiano paraguaio. Em três anos de operação como banco, o Ueno se tornou uma das instituições mais populares do país e chegou a alcançar perto de 40% da população em número de contas.

A expansão foi impulsionada pelos serviços digitais e pela facilidade para abrir contas, em um mercado bancário menos digitalizado que o brasileiro e com acesso mais restrito ao crédito. “O Ueno foi o primeiro banco mais disruptivo. O Paraguai não é um país que é extremamente bancarizado e digitalizado como o Brasil”, explica Suellen Raizer, fundadora da Frontexa, consultoria especializada em internacionalização empresarial com foco no Paraguai. “Muita gente começou a abrir conta porque era simples, tinha um aplicativo e os outros bancos não ofereciam isso”, afirma.

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Nos últimos anos, o Paraguai ganhou espaço entre empresários e investidores brasileiros atraídos por condições tributárias mais favoráveis, custos operacionais menores e oportunidades nos setores imobiliário, comercial e industrial. No primeiro semestre de 2026, o país concedeu 22.628 residências a cidadãos brasileiros, segundo a Direção Nacional de Migrações do Paraguai. O número se aproxima do total registrado durante todo o ano de 2025, quando foram concedidas 23.526 autorizações. Os brasileiros lideram com folga a lista de estrangeiros que obtiveram residência no país.

Os balanços disponíveis do Ueno não detalham quantos clientes estrangeiros mantinham recursos na instituição nem identificam o volume de depósitos pertencentes a brasileiros. O documento mais recente do banco, referente a março de 2026, contudo, mostra um aumento posição financeira comprada em reais

No primeiro trimestre de 2026, o valor equivalia a aproximadamente US$ 1,06 milhão, mais que o dobro dos US$ 497,9 mil registrados em dezembro de 2025. O dado indica uma ampliação da exposição contábil do banco à moeda brasileira, mas não permite identificar a origem dos recursos, seus titulares ou a finalidade das operações.

A posição comprada significa que a instituição tinha mais valores a receber do que obrigações a pagar em reais. Na prática, isso indica que o banco passou a manter um volume maior de recursos na moeda brasileira, seja por operações de câmbio ou por ativos denominados em reais. O crescimento não é explicado apenas pela valorização da moeda. No período, o real avançou cerca de 6% em relação ao dólar, enquanto a posição do Ueno mais que dobrou.

Especialistas ouvidos pela reportagem apontam como hipótese que o aumento esteja relacionado à maior circulação de brasileiros no Paraguai. “A explicação mais provável é a demanda de câmbio e pagamentos ligada a brasileiros, tanto pela presença crescente de pessoas e empresas brasileiras no Paraguai quanto pelas operações de fronteira”, afirma Benito Conde, advogado na área Direito Bancário e sócio do Montezuma e Conde Advogados.

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O impacto mais imediato da crise com potencial de afetar o comércio entre Brasil e Paraguai está na interrupção dos pagamentos e das transferências na fronteira. A circulação de brasileiros, paraguaios e empresas dos dois países na cidades fronteiriças com o Brasil, como Ciudad del Este, Pedro Juan Caballero e Salto del Guairá, depende de pagamentos rápidos, transferências e operações de câmbio. Há relatos de estabelecimentos em Ciudad del Este que passaram a exigir pagamentos em dinheiro vivo, diante das dificuldades de processamento eletrônico.

“A fronteira vive de pagamentos rápidos, cartão e transferências, e um banco com quase 3 milhões de clientes simplesmente parou”, diz Conde. A interrupção de uma instituição com a capilaridade do Ueno atinge também fornecedores e estabelecimentos que mantinham relações comerciais com correntistas do banco.

Mas ainda não é possível mensurar os efeitos reais da crise. “A intensidade dependerá da exposição das empresas ao banco, da rapidez da resolução e da continuidade dos serviços financeiros”, afirma Vanderson Aquino, presidente da instituição de pagamento Mêntore e especialista em gestão financeira, controladoria e auditoria.

“O ponto central será impedir que a dificuldade de uma instituição se transforme em falta de capital de giro para empresas viáveis”, completa.

Brasileiros têm direito à garantia dos depósitos

O Fundo de Garantia de Depósitos (FGD) do Paraguai, equivalente ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) brasileiro, cobre até 228,3 milhões de guaranis por pessoa e por instituição financeira. O valor corresponde a 75 salários mínimos paraguaios e equivale a aproximadamente R$ 200 mil.

A cobertura não é ilimitada. O teto considera o conjunto dos depósitos de cada titular na instituição. Um cliente que tenha diferentes contas no Ueno não multiplica o valor protegido. Se o saldo ultrapassar o limite, o excedente não está automaticamente garantido. Sua recuperação dependerá dos procedimentos de resolução e dos recursos disponíveis para o pagamento dos credores.

Os brasileiros com contas no Paraguai têm a mesma proteção dos paraguaios. A garantia está ligada à existência da conta, não à nacionalidade nem à condição migratória do titular.

“A garantia paraguaia não faz distinção por nacionalidade. O Fundo de Garantia de Depósitos protege pessoas físicas e jurídicas, residentes e não residentes, em qualquer moeda, seja em depósitos à vista ou a prazo”, explica o advogado Benito Conde.

Além disso, a nacionalidade brasileira não transfere uma conta mantida no Paraguai para o regime de proteção do Brasil. “É importante destacar que brasileiros residentes no Brasil que tenham conta no Ueno estão protegidos pelo Fundo de Garantia de Depósitos paraguaio, e não pelo Fundo Garantidor de Créditos brasileiro”, afirma a advogada Fernanda Rúbia especialista em Direito Empresarial, com atuação nas áreas de Direito do Consumidor, contratos e relações empresariais.

Os correntistas não precisam solicitar individualmente o ressarcimento neste primeiro momento. O Banco Central paraguaio informou que os depósitos serão transferidos para uma conta do titular em outra instituição financeira do país.

Quem não tiver conta em outro banco ou financeira terá uma aberta em seu nome para receber os recursos. As contas excepcionais podem ser abertas com os dados fornecidos pelo FGD, sem exigência da documentação mínima normalmente requerida pelas instituições.

Para brasileiros que vivem no país ou mantêm contas no Paraguai, o procedimento prevê a mesma forma de pagamento aplicada aos demais depositantes. O Banco Central, porém, não detalhou como será o atendimento aos clientes que residem no Brasil, especialmente para aqueles que não possuem conta em outra instituição paraguaia.

Master à paraguaia?

O caso do Ueno apresenta semelhanças com a crise do Banco Master, liquidado pelo Banco Central brasileiro em novembro de 2025. As duas instituições tiveram expansão acelerada, relações com agentes públicos e questionamentos sobre a gestão de riscos e a atuação dos órgãos de fiscalização.

O volume de recursos públicos no Ueno aumentou desde que Santiago Peña assumiu a Presidência do Paraguai, em 2023. O volume chegou a US$ 869 milhões no fim de junho, o equivalente a 29% dos depósitos do banco,  com recursos de órgãos como o Instituto de Previdência Social (IPS).

Peña, enfrenta um processo de impeachment no Congresso após ter anunciado sua renúncia, foi investidor da holding do Ueno até março de 2025. Ele também nomeou para a presidência do Banco Central paraguaio Carlos Carvallo, que havia deixado um cargo de direção no próprio banco para assumir a autoridade monetária.

No Brasil, Daniel Vorcaro, controlador do Master, é suspeito de comandar uma fraude de R$ 12 bilhões, que inclui R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito fraudulentas negociadas com o Banco de Brasília (BRB). O caso foi para o Supremo Tribunal Federal (STF) em dezembro de 2025, por decisão de Dias Toffoli, a pedido da defesa de Vorcaro, depois que um deputado federal com foro privilegiado foi citado. Toffoli deixou depois a relatoria, após um relatório da Polícia Federal questionar sua relação com o banqueiro. Também são investigadas relações entre Vorcaro e outros ministros do Supremo, como Alexandre de Moraes e Kassio Nunes Marques, e ministros do governo Lula.

Mas os caminhos dos dois bancos à crise foram diferentes. O Master cresceu vendendo CDBs com rentabilidade muito acima do mercado por plataformas de investimento, com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como “selo de segurança”, e aplicou o dinheiro captado em ativos de baixa liquidez e difícil avaliação. Já Ueno cresceu pela abertura massiva de contas digitais e pela presença no dia a dia da população. Cerca de 2,9 milhões de clientes em aproximadamente três anos, num país de 6,4 milhões de habitantes. Os reguladores também chegaram a diagnósticos distintos.

No Ueno, ajustes nas demonstrações financeiras levaram o índice de solvência a menos da metade do mínimo exigido, segundo o Banco Central paraguaio. No Master, o Banco Central brasileiro apontou grave crise de liquidez e violações às normas do sistema financeiro.

Também há uma diferença de escala em relação ao tamanho das instituições e seus sistemas bancários. O Master, considerado um banco “da terceira divisão” representava cerca de 0,57% dos ativos e 0,55% das captações do sistema financeiro brasileiro. O Ueno, por sua vez, concentrava aproximadamente 9% dos depósitos e quase 10% dos empréstimos do sistema paraguaio. 

“Proporcionalmente, o Ueno pesava mais de 15 vezes o que o Master pesava aqui. Se o Master tivesse o tamanho do Ueno, estaríamos falando de uma crise capaz de atingir a economia inteira, e não apenas investidores de CDB. É isso que explica por que, no Brasil, o caso Master não gerou risco sistêmico, enquanto no Paraguai o caso virou uma crise nacional”, explica Benedito Conde.