Como a politização contribuiu para o protagonismo das polícias na política?

A Polícia Federal tornou-se protagonista da eleição presidencial de 2026. Nos últimos meses, investigações da instituição produziram os principais fatos políticos nacionais, atingindo os dois polos relevantes da disputa.
As apurações do caso Master atingiram Flávio Bolsonaro (PL) primeiro e, em seguida, explodiram no colo de Alexandre de Moraes. A investigação das fraudes do INSS abriu novos inquéritos envolvendo Lulinha, filho do presidente Lula (PT), lobistas e assessores diretos. Em todos os casos, os valores denunciados são milionários. Não é possível antecipar responsabilidades criminais, mas as consequências políticas foram imediatas. Até aqui, a ala governista tem saído mais ferida.
Lula e seus ministros não controlam a PF. Jair Bolsonaro tampouco conseguiu controlá-la quando presidente. Isso não significa que suas forças políticas – e não apenas elas – deixem de atuar dentro da instituição policial mais qualificada do país. Bolsonaro demitiu Sergio Moro em meio a uma tentativa explícita de interferir em setores da PF. As denúncias mais recentes envolvendo Moraes, antigo adversário, hoje na ala governista, também tratam de possível ingerência política em determinados inquéritos e operações.
Ninguém controla a instituição inteira. Mas fica cada vez mais claro que as principais forças políticas nacionais dispõem nela de interlocutores, aliados e capacidade de influência.
O fenômeno da politização policial no Brasil contemporâneo merece uma breve contextualização. Desde 2018, venho argumentando que uma das transformações políticas mais importantes do país é a crescente autonomização política das polícias frente aos mecanismos internos e externos de controle.
A PF, por mais qualificada que seja, não está fora desse movimento. Sua profissionalização e capacidade técnica convivem com disputas corporativas, ideológicas e políticas. Instituições policiais são compostas por grupos que disputam comandos, recursos, competências, prestígio e concepções sobre o que a própria polícia deve ser. Até aí, nada surpreendente. O problema começa quando esses grupos passam a representar interesses políticos externos, comprometendo a seleção ou o direcionamento das operações.
Há também uma base material poderosa para esse processo de autonomização política de setores das polícias. Em 2025, os três níveis de governo gastaram R$ 163,1 bilhões diretamente em segurança pública. Só os estados, responsáveis pelas maiores corporações policiais, gastaram R$ 131,2 bilhões. Na última década, os gastos municipais com segurança cresceram 72,7%, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Somam-se os recursos da segurança privada, frequentemente controlada pelos mesmos atores policiais, além dos enormes valores movimentados por diferentes formas de corrupção policial.
Esses recursos apropriados pelas polícias são coetâneos à expansão da politização policial e da extrema-direita brasileira. Sua expressão eleitoral também é visível. Em 2026, 1.224 candidatos vêm das forças de segurança ou das Forças Armadas, o que representa 5,9% do total. Essas candidaturas se concentram sobretudo à direita e à extrema-direita, e o PL é o partido com o maior número delas. Apesar de serem menos candidatos do que em 2022, auge da expansão bolsonarista, continuam acima dos níveis anteriores a Bolsonaro.
Como correlação não é sinal de causalidade, precisamos de mais. Há alguns anos, tenho estudado como as bases materiais e ideológicas do novo regime de poder que hoje detém a hegemonia político-cultural no Brasil, de feições totalitárias, se construíram nas forças de segurança.
Policiais já não reivindicam apenas melhores salários ou condições de trabalho. Reivindicam autonomia para definir aspectos centrais da política (como e contra quem o Estado deve agir, quais controles deve flexibilizar etc.) e da vida social: religião, educação, vida familiar e costumes.
Se é evidente que as polícias devem ter autonomia técnica, também é inegável que as instituições policiais devem estar submetidas à lei e aos controles institucionais. Que preveem, inclusive, que funcionários públicos não devem se expressar profissionalmente junto a movimentos políticos, seja do governo ou da oposição.
A PF oferece hoje uma demonstração particularmente sofisticada desse processo. Na instituição não há a hegemonia explícita da extrema direita que encontramos em outras corporações, sobretudo nas polícias militares.
Durante anos, suas investigações colocaram Bolsonaro e seu entorno nas cordas. Agora, voltaram-se ao campo que se articulou contra o ex-presidente: Lulinha tornou-se alvo de novos inquéritos; informações extraídas pela PF do celular de Daniel Vorcaro atingem Moraes.
Dessa forma, o que poderia parecer sinal de imparcialidade institucional mostra-se também guerra política interna: alas da instituição atuam associadas a forças políticas externas, em pleno conflito pré-eleitoral.
A velha imagem republicana supunha uma cadeia relativamente clara: governos eleitos dirigem o Estado, o sistema de justiça controla a legalidade e as polícias executam suas funções sob controle civil.
Essa descrição corresponde cada vez menos à realidade brasileira. As polícias adquiriram recursos, legitimidade, informação, armas e capacidade de ação política própria. Possuem aliados em governos, parlamentos e tribunais, mas já não pertencem integralmente a nenhum deles. A eleição de 2026 aprofunda esse deslocamento.
Nesse contexto, a questão já não é mais saber de que lado estão a PF ou outras instituições policiais, mas perceber que elas próprias se tornaram atores políticos influentes.