Eleição presidencial selará destino de Moraes e Mendonça

A eleição presidencial de outubro ganhou uma consequência que vai muito além do Planalto. O resultado das urnas se desdobrará também no desfecho da crise que se abateu nesta semana sobre o Supremo Tribunal Federal (STF). Nos corredores do Congresso, a sensação é a de que a granada lançada pelo ministro André Mendonça, ao abrir o sigilo das mensagens entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, não vai cair no esquecimento. Alguém dentro da Corte terminará pagando a conta.
A dúvida é quem. Moraes, Mendonça ou outro personagem arrastado para o centro da crise. A resposta depende, em boa medida, de quem estiver sentado na cadeira de presidente da República a partir de janeiro.
Nas condições atuais, o próximo chefe do Executivo poderá indicar quatro ministros do Supremo: um para a vaga ainda aberta de Luís Roberto Barroso e outros três para os lugares de Luiz Fux, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes, que atingem a aposentadoria compulsória até o fim de 2030. Se Lula (PT) vencer, a aposta dominante em Brasília é numa tentativa de composição com a maioria hoje mais próxima de Moraes, Gilmar, Cristiano Zanin e Flávio Dino.
Esse grupo trabalhou contra Jorge Messias na disputa pela vaga de Barroso, apesar do alinhamento com Lula. A resistência tinha várias razões, mas pesava sobretudo a proximidade do advogado-geral da União com André Mendonça, quando as relações internas da Corte já começavam a se envenenar.
O pecado capital de Mendonça
No Planalto e no Congresso, consolidou-se a percepção de que Mendonça passou a atuar explicitamente para favorecer Flávio Bolsonaro (PL) e de que vazamentos sobre o caso Lulinha tenham partido de seu gabinete. Gera ainda irritação o que chamam de diferença de ritmo entre as investigações. Para os governistas, os inquéritos envolvendo o filho do presidente parecem correr mais depressa que a apuração sobre o financiamento do filme Dark Horse, ambos sob a tutela do ministro.
Mesmo que todas as decisões de Mendonça tenham motivação estritamente republicana, ele cometeu um pecado capital. No Supremo, expor um colega como ocorreu com Moraes nesta semana é interpretado como ruptura de um código interno. As mensagens são altamente comprometedoras para o principal algoz de Jair Bolsonaro. Mas Mendonça só sairá fortalecido dessa batalha se Flávio for o próximo presidente. Se Lula vencer, seu isolamento na Corte tende a ser quase absoluto.
Já há sinais de que a artilharia não virá apenas de um lado. Mostra disso são as notícias sobre o encontro de Mendonça com Vorcaro e a história de que um advogado ligado ao banqueiro levou o ministro a uma alfaiataria para fazer um terno. Nada disso, por si só, prova irregularidade. Mas mostra disposição para iluminar também as zonas cinzentas de quem abriu a caixa de Pandora. Em Brasília, quando uma trincheira começa a cavar o passado da outra, raramente falta pá.
Não há mocinhos em Brasília
Um experiente observador resumiu o ambiente com uma imagem de faroeste: em Brasília, disse ele, não há mocinhos, apenas bandidos. É exagero, claro, mas traduz o clima atual. Um Mendonça isolado e politicamente enfraquecido se tornaria alvo natural de escrutínio, inclusive sobre episódios que, em tempos normais, talvez não sobrevivessem a uma conversa de corredor.
Nesse cenário, fontes no Congresso já duvidam de uma nova tentativa de Lula de emplacar Messias. Afirmam que o presidente sabe que poderia sofrer outra derrota no Senado e teria agora um motivo adicional para procurar outro nome: evitar a entrada no Supremo de alguém visto como aliado de Mendonça.
Com Flávio Bolsonaro no Planalto, o jogo se inverteria. Lula dificilmente conseguiria preencher a vaga de Barroso, muito menos com um nome de sua inteira confiança. Na melhor das hipóteses, teria de negociar com Davi Alcolumbre e o centrão uma indicação de compromisso, justamente o que se recusou a fazer ao preterir Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para indicar Messias. Se derrotado, curvar-se a Alcolumbre ao menos reduziria o espaço para que Flávio chegue a quatro escolhas. Ainda assim, ao fim de 2030, a correlação de forças no Supremo poderia estar profundamente alterada.
Nesse desenho, o risco de isolamento passaria para Moraes. Dino, inimigo declarado do bolsonarismo e protagonista de uma cruzada contra as emendas parlamentares, também entraria na mira. Dias Toffoli, enrolado com Vorcaro no caso do resort Tayayá, e Zanin, advogado de Lula na Lava Jato, completariam o quarteto mais exposto.
O dilema de Alcolumbre
Haveria ainda uma variável decisiva, que é a eleição para o Senado. A Casa terá dois terços das cadeiras renovadas, e a nova composição definirá a força real de qualquer ofensiva contra ministros do Supremo.
Rogério Marinho (PL-RN), hoje coordenador da campanha de Flávio, é visto como nome natural do bolsonarismo para comandar o Senado a partir de 2027. Alcolumbre, próximo de Moraes, teria de escolher entre enfrentar essa onda ou virar bolsonarista de carteirinha, ao menos até a eleição para a Mesa do Senado.
Nesta quarta-feira (3/9), com Brasília em chamas, o presidente do Senado preferiu defender Moraes e lembrar à oposição os R$ 130 milhões pedidos por Flávio a Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, colocou em banho-maria a votação em plenário da PEC que põe fim à jornada 6×1, enquanto não está claro para onde o vento da eleição vai soprar.
Lula, enquanto isso, tende a manter distância pública de Moraes. O PT já adotou a linha de que toda suspeita deve ser investigada, e não há expectativa de que o presidente saia espontaneamente em defesa do ministro.
A neutralidade pública, porém, não muda a lógica de sobrevivência hoje vigente em Brasília. Mais do que nunca, nesta eleição, Moraes é Lula e Mendonça é Bolsonaro. Alcolumbre estará com quem vencer.