Empresas usam interoperabilidade em relatórios ESG em busca de resposta integral

Os frameworks (normas) ESG orientam as corporações a mensurar, gerir e divulgar seus dados sobre sustentabilidade, reduzindo as ambiguidades. Essas estruturas podem ser comparadas a bússolas, suportes ou estruturas que disponibilizam tópicos fundamentais envolvendo os fatores ESG nas organizações, por meio do emprego de metodologia, divulgação e acompanhamento.
A maioria dessas normas é voluntária, como o GRI (Global Reporting Initiative), TCFD (Força-Tarefa sobre Divulgação Financeira Relacionada ao Clima), ISSB (Conselho Internacional de Normas de Sustentabilidade), Projeto de Divulgação de Carbono (CDP) e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, entre outras propostas.
Alguns dados são curiosos. Segundo a GRI (Global Reporting Initiative), por exemplo, a partir de sua pesquisa global¹, o Brasil é o quinto país com mais adoções dos padrões GRI para relatórios ESG entre 132 jurisdições analisadas, tendo como base os relatórios produzidos por quase 15 mil empresas com receitas acima de US$ 250 milhões.
O relatório confirma um dado fundamental: a maioria das grandes empresas, especialmente as transnacionais, não utilizam apenas um framework para elaborar seus relatórios de sustentabilidade; mas combinam diferentes normas para atingir uma resposta mais holística, capaz de alcançar seus diferentes stakeholders e conquistar uma interoperabilidade fundamental.
A proposta de interoperabilidade, que permite harmonizar diferentes frameworks, vem se multiplicando no mercado. Um dos exemplos foi a interoperabilidade entre o questionário do CDP e das Normas Europeias de Relato de Sustentabilidade (ESRS). A junção permite que as empresas consigam cumprir com menor carga de reporte a Diretiva de Relato de Sustentabilidade Corporativa (CSRD) da União Europeia e dar mais visibilidade aos resultados ESG em todos os seus pilares.
A tendência da interoperabilidade também está registrada no blog da Harvard Law School.² Em pesquisa, aplicada pela ISS-Corporate (que consultou 30% de grandes empresas, 41% de empresas médias e 29% de micro e pequenas em todos os setores), principalmente nos Estados Unidos e Europa, o resultado apontou que 90% dos respondentes indicavam a adoção de mais de um framework ESG e 79% empregavam três ou mais normas diferenciadas para elaborar seus relatórios.
O estudo da Harvard enfatiza que reunir informações provenientes de diversos frameworks pode gerar complexidade e riscos, mas ajuda a manter um repositório padronizado de dados, tornando os índices de sustentabilidade mais comparáveis. Em vez de tratar cada framework como um conjunto rígido de regras, as empresas podem encará-los como instrumentos que promovem trocas internas.
Essa aparente fragmentação não significa que os diferentes frameworks sejam necessariamente incompatíveis. O Better Alignment Project, desenvolvido pelo Corporate Reporting Dialogue e apresentado no World Economic Forum em 2019³, realizou um mapeamento técnico entre CDP, CDSB, GRI, IIRC e SASB, a partir das recomendações da TCFD.
No recorte específico das divulgações relacionadas ao clima, 80% das 50 métricas exemplificativas da TCFD estavam totalmente ou razoavelmente contempladas pelos indicadores do CDP, GRI e SASB. Em 70% dessas métricas, o estudo não identificou diferenças substantivas entre os indicadores utilizados pelos três referenciais. O dado revela que o emprego de diferentes frameworks não decorre apenas de divergências metodológicas; há também um espaço relevante de sobreposição e complementaridade entre eles.
A coexistência de frameworks distintos pelas empresas produz efeitos vantajosos, como adotar uma visão mais holística dos pilares ESG, indo além do cumprimento de exigências técnicas de reportes. Há nesse cadinho outros impactos que devem ser mensurados. O primeiro diz respeito ao fato de que uma mesma informação de base de dados (por exemplo, emissões de gases de efeito estufa) pode ser reorganizada e apresentada segundo unidades de materialidade e formatos distintos.
Essa perspectiva do uso de múltiplos frameworks parte de um entendimento crítico: os critérios ESG não surgem no vazio. Eles refletem determinantes econômicos, ambientais e sociais que moldam a forma como as empresas impactam o mundo e são cobradas por isso. Reconhecer esse contexto ajuda a romper com a lógica puramente normativa, pela qual a empresa apenas “preenche requisitos”, abrindo espaço para um movimento contínuo de reflexão e aprendizagem.
Dos mais complexos aos mais simplificados, os frameworks ESG reúnem um conjunto de conhecimentos estruturados, científicos e normativos; enquanto as equipes das companhias mobilizam conhecimentos práticos, técnicos e intuitivos. Quando esses saberes se articulam — sem conflito — a empresa passa a interpretar as estruturas dos relatórios de forma mais efetiva, podendo refletir a realidade e criar processos estimuladores de inovações.
Vale enfatizar que os frameworks ESG não estão voltados apenas a grandes companhias, tanto que a GRI pretende capacitar no Brasil, inicialmente, ao menos 100 PMEs brasileiras, com meta de alcançar 150, para que passem a coletar, organizar e reportar informações ambientais, sociais e de governança. A iniciativa, financiada com apoio da Secretaria de Estado de Assuntos Econômicos da Suíça (SECO), marca o retorno do Brasil como prioridade estratégica da organização.
O programa da GRI para PMEs brasileiras combina financiamento internacional, cooperação entre elos de diferentes cadeias produtivas e tecnologia aplicada à conformidade regulatória — indicando um caminho promissor para que o Brasil transforme sua já reconhecida maturidade em relato de sustentabilidade em um ativo distribuído por toda a sua estrutura empresarial.
Não se questiona mais do porquê usar apenas um framework para elaborar relatórios ESG, mesmo nos casos em que a conformidade regulatória não é obrigatória. A transparência dos dados inseridos nos relatórios é sempre bem vista pelos stakeholders (partes interessadas) e pelo mercado. E com a interoperabilidade, a corporação adquire mais credibilidade, pode captar mais investimentos e aumentar sua resiliência empresarial.
Dentro da academia, crescem os estudos sobre a interoperabilidade de frameworks ESG, como o publicado pela “Nature”4 este ano, apontando que o procedimento embute um enfoque multidimensional e consolida dois caminhos corporativos: a conformidade e a inovação, uma vez que “demonstraram que essas capacidades são construídas com um continuum entre abordagens orientadas para a conformidade e abordagens impulsionadas pela inovação. Os padrões de desenvolvimento raramente são lineares ou predeterminados; em vez disso, as organizações tendem a seguir um caminho determinado pelo ambiente institucional, pela disponibilidade de recursos e pelos marcos regulatórios”.
Ao incorporar mais de um modelo normatizador, a empresa está propondo um movimento para harmonizar suas experiências em ESG, tornando-se mais transparente aos seus stakeholders (partes interessadas) e atuando na evolução de sua sustentabilidade, porque não se restringe a promover um exercício de conformidade, mas a construir uma destacada vantagem estratégica.
[1] globalreporting.org/news/news-center/gri-is-top-choice-for-sustainability-reporting-worldwide www.globalreporting.org/news/news-center/gri-is-top-choice-for-sustainability-reporting-worldwide
[2] https://corpgov.law.harvard.edu/2025/06/03/streamlining-sustainability-reporting-survey-reveals-top-priorities-for-corporates/
[3] https://www.weforum.org/stories/business/how-to-simplify-corporate-reporting/
[4] https://www.nature.com/articles/s41599-026-07231-x