Lula faz ‘campanha perfeita’ no 2º turno, mas pode ter sido tarde demais

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chega vivo à votação do segundo turno da eleição presidencial, neste domingo (25/10), depois de uma surpreendente reação nas últimas três semanas de campanha. Após o susto com o resultado do primeiro turno, o petista conseguiu recuperar terreno, mobilizar a militância e reduzir a distância para Flávio Bolsonaro (PL). Fez praticamente tudo o que precisava para tentar uma virada. A questão é se começou a fazê-lo tarde demais. O JOTA faz uma cobertura ao vivo do andamento do segundo turno neste domingo; acompanhe!
Em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, uma diferença de 1,87 ponto percentual. A margem de cerca de 2,2 milhões de votos é a menor entre os dois primeiros colocados em uma eleição presidencial de primeiro turno desde a redemocratização. A vantagem do senador diminuiu nas últimas semanas, e alguns levantamentos apontam empate técnico. Mas, para vencer, Lula precisa contrariar também um tabu. Desde 1989, nenhum candidato conseguiu virar a eleição entre os dois turnos.
A reação de Lula começou nas ruas, de maneira relativamente espontânea, nos dias seguintes à votação. O abatimento que tomou conta da cúpula petista foi superado por uma mobilização orgânica de eleitores, puxada sobretudo por jovens identificados com a esquerda, mas não necessariamente integrantes da militância do PT. Manifestações gigantescas em diversas capitais devolveram ânimo à campanha e ajudaram a criar uma atmosfera que não existia até então.
Exército de 10 milhões
Nas redes sociais, a mudança foi ainda mais surpreendente. Sob o comando do deputado federal André Janones (Rede-MG), o Exército do Lula se transformou em um fenômeno de mobilização digital sem precedentes para a esquerda brasileira. O canal de WhatsApp ultrapassou os 10 milhões de seguidores na sexta-feira (23/10), contra cerca de 2,1 milhões da Tropa do Flávio. A diferença simboliza uma vitória importante para o campo petista em um terreno historicamente dominado pelo bolsonarismo.
O crescimento explosivo do canal levou a sucessivas disputas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na reta final, Lula passou a participar diretamente da iniciativa, inclusive em uma transmissão ao vivo com Janones e artistas. A campanha também mudou a linguagem nas redes, ampliando o uso de vídeos do presidente em formato de selfie e de mensagens mais diretas, na tentativa de aproximar o petista de um público com o qual vinha tendo dificuldades de dialogar.
A mobilização digital foi acompanhada por um intenso trabalho de rua. Militantes e lideranças locais de partidos de esquerda intensificaram ações nas periferias das grandes cidades e em pequenos municípios do Nordeste, com panfletagem e conversas de porta em porta. A aposta é que esse esforço ajude a reduzir a abstenção entre os eleitores de Lula, um dos fatores considerados decisivos para suas chances de vitória.
Máquina pública em ação
O governo também acionou praticamente todos os instrumentos disponíveis para tentar melhorar o ambiente eleitoral. Depois de reajustar o Bolsa Família e anunciar uma nova edição do Desenrola antes do primeiro turno, Lula ampliou o pacote de medidas econômicas e sociais. Reduziu tributos sobre combustíveis, anunciou novos subsídios, prometeu estender o Pé-de-Meia aos universitários e apostou na aprovação da emenda constitucional que acabou com a escala de trabalho 6×1, uma bandeira histórica da esquerda.
O presidente também sancionou o Prospera MEI, com perdão de dívidas tributárias e ampliação de benefícios para microempreendedores, e encaminhou ao Congresso uma proposta de emenda constitucional para financiar a gratuidade do transporte coletivo nos fins de semana e feriados. Foi uma sucessão de iniciativas eleitoreiras destinadas a produzir efeitos concretos sobre a vida dos cidadãos, sobretudo os de menor renda. Mas também um reconhecimento tardio de que a campanha precisava falar mais de problemas cotidianos.
Recuperação e obstáculos
A recuperação apareceu nas pesquisas. No Datafolha divulgado na quinta-feira (22/10), a aprovação pessoal de Lula chegou a 49%, superando numericamente a desaprovação, de 48%, pela primeira vez desde julho. A rejeição a Flávio também ultrapassou a do presidente tanto no Datafolha quanto na Quaest. O empate de 50% a 50% nos votos válidos registrado pelo Datafolha na quinta-feira reforçou, no entorno do petista, a esperança de uma virada.
Mas há obstáculos que três semanas de campanha dificilmente seriam capazes de remover. Ao contrário de 2022, quando Simone Tebet embarcou na campanha, Lula chega ao segundo turno sem conquistar o apoio formal dos principais candidatos derrotados no primeiro turno e sem uma aliança nacional com partidos do centrão. Flávio Bolsonaro, por sua vez, atraiu Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Augusto Cury, além de legendas como União Brasil, PP e Republicanos. O senador também conseguiu preservar a vantagem em parte importante do eleitorado de centro-direita.
A campanha petista tampouco conseguiu neutralizar completamente o desgaste provocado pelas investigações contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, no escândalo das fraudes do INSS. Na semana anterior à votação, a empresária Roberta Luchsinger, investigada no mesmo caso, voltou ao noticiário ao conceder uma entrevista à CNN em que fez acusações contra Lula e seu filho e manifestou a intenção de firmar um acordo de delação premiada, embora dissesse que não cometeu crime. O episódio deu nova munição à campanha de Flávio Bolsonaro.
Erros remontam a 2023
O maior problema de Lula, porém, pode estar nos erros cometidos desde o início do terceiro mandato, em 2023. O presidente não conseguiu — e muitas vezes nem sequer tentou — estabelecer um diálogo consistente com segmentos que se aproximaram da direita, como os evangélicos e parte da classe C. Aferrou-se aos indicadores positivos da economia e demorou a reconhecer o peso do endividamento das famílias e do custo de vida sobre a percepção dos eleitores. A melhora de números macroeconômicos não se converteu automaticamente em satisfação popular.
Houve também equívocos graves de avaliação política. Lula parece ter acreditado que a tentativa de golpe de Estado que culminou no 8 de janeiro de 2023 seria considerada imperdoável por uma parcela muito maior da sociedade. Apostou ainda que sua trajetória política, comparada à de Flávio Bolsonaro, seria suficiente para garantir a vitória. Subestimou a força do sentimento de mudança e a capacidade do filho de Jair Bolsonaro de se apresentar como alternativa ao governo, mesmo carregando o sobrenome e o legado político do pai.
Como resultado, a virada de Lula depende agora de uma combinação delicada de fatores: ampliar a vantagem no Nordeste, reduzir a distância para Flávio no Sudeste, conquistar uma boa parcela de eleitores que não votaram em nenhum dos dois no primeiro turno e levar às urnas apoiadores que se abstiveram há três semanas.
A reação da campanha mostra que o petista ainda tem força política e capacidade de mobilização. Se não for suficiente, porém, a derrota terá raízes muito anteriores ao primeiro turno. Lula terá descoberto, em sua muito provavelmente última campanha presidencial, que uma vitória nas urnas começa muito antes do período eleitoral.