Constitucional

Lula mantém Exército de Janones mobilizado para ajudá-lo a governar

JOTA·
Lula mantém Exército de Janones mobilizado para ajudá-lo a governar

O presidente Lula vem dando sinais claros de que pretende transformar o exército digital arregimentado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) em um instrumento permanente de mobilização política no seu quarto mandato.

O canal de WhatsApp, que ajudou a impulsionar sua campanha de reeleição, deverá ganhar uma nova missão nos próximos quatro anos. Em vez de disputar votos, será acionado para defender pautas do governo, fazer contraponto aos adversários e mobilizar a opinião pública em momentos de confronto com o Congresso. A aposta ganha relevância diante de um Legislativo mais conservador e menos favorável ao Planalto.

No discurso da vitória, Lula demonstrou ter aprendido não apenas o poder das redes sociais, mas também as vantagens de falar diretamente com a população, “sem intermediários”. Depois de agradecer ao seu “general” André Janones e revelar que ganhou um celular do governador Rafael Fonteles, prometeu ampliar a participação popular nas decisões e dar muito mais espaço à comunicação digital.

Lula já começou a usar o canal de WhatsApp comandado por Janones depois da eleição e tem uma nova live marcada com o deputado para esta quinta-feira (5/11), às 19h. Também está em discussão no governo a criação de uma estrutura específica para a comunicação digital, que poderia chegar a um ministério. O formato ainda não foi definido, mas a direção da mudança está clara. O presidente quer incorporar ao exercício do poder uma ferramenta cuja força política descobriu na campanha.

O primeiro teste veio na terça-feira (3/11), durante a audiência pública no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a medida provisória que proíbe as bets. Lula enviou um áudio ao Exército defendendo o fechamento das empresas de apostas e a participação da sociedade no debate. Janones mobilizou os seguidores, impulsionou hashtags e questionou a composição da audiência. O deputado chegou a criticar o STF por manter fechados os comentários da transmissão, mas recuou ao saber que essa é uma prática habitual do tribunal. O episódio mostrou tanto o potencial de mobilização quanto os riscos de uma atuação baseada em respostas rápidas.

Quer receber reportagens do JOTA com mais frequência? Clique aqui e selecione o JOTA como fonte de informação no Google Notícias

Exército contra a 6×1

Lula tem razões para manter essa militância ativa. Com uma bancada bolsonarista fortalecida e um Congresso mais hostil, o governo precisará buscar apoio fora do Parlamento para tentar aprovar parte de sua agenda. A mobilização digital pode ajudar a aumentar a pressão sobre deputados e senadores em votações de interesse do Planalto.

A discussão sobre o fim da escala de trabalho 6×1, impulsionada pela pressão popular ainda durante a campanha, é vista no entorno do presidente como exemplo desse potencial. O Exército também será usado pela confirmação da MP que proibiu as bets no país, algo que também depende do Congresso para se tornar definitivo.

Nesse cenário, Janones pode ganhar ainda mais relevância. O novo Congresso terá uma presença expressiva de parlamentares que fizeram das redes sociais sua principal plataforma política, tanto à esquerda quanto à direita, em um Congresso predominantemente conservador. São deputados que conhecem o poder da mobilização digital e frequentemente transformam disputas legislativas em campanhas nas plataformas, como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP).

Janones terá a seu favor uma estrutura de comunicação capaz de alcançar milhões de pessoas e organizar ações coordenadas em poucas horas. E o reforço de jovens fenômenos digitais da esquerda como Ana Elisa (PT-MG), Thiago dos Reis (PT-SP) e Ana Júlia Ribeiro (PT-PR) para fazer o embate na Câmara.

Fenômeno digital

O Exército de Lula reaproximou o presidente dos jovens, especialmente nos ambientes digitais em que a esquerda vinha enfrentando dificuldades para se fazer ouvir. A mobilização deste público ganhou força na reta final da campanha e foi um dos principais fatores da vitória do presidente.

Criado antes do segundo turno com cerca de 50 mil seguidores, o Exército do Lula ultrapassou 10 milhões em aproximadamente três semanas. Janones comandou uma operação quase ininterrupta de distribuição de conteúdos, orientação de comentários e impulsionamento de hashtags. Foi o maior fenômeno de mobilização digital da campanha, que agora serve de inspiração para a esquerda em todo o mundo.

Apesar das especulações sobre sua presença na Esplanada, Janones afirmou que não aceitará um ministério e permanecerá na Câmara dos Deputados. Sua intenção é continuar à frente do Exército, preservando a liberdade de atuação que considera incompatível com as obrigações de um cargo no Executivo. A divisão de tarefas pode interessar a Lula. Enquanto a Secom reorganiza sua comunicação institucional, Janones mantém uma estrutura política de mobilização que não depende diretamente da máquina do Planalto.

O desafio será preservar essa força depois da eleição. Uma coisa é reunir milhões de pessoas durante três semanas em torno de um objetivo claro e urgente, como derrotar Flávio Bolsonaro (PL). Outra é manter o mesmo engajamento por quatro anos, em debates muitas vezes técnicos, menos mobilizadores e sujeitos às contradições de quem governa. Há também o risco de que a lógica permanente do confronto entre em choque com a necessidade de Lula negociar, fazer concessões e construir maiorias.

Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas