Morre Márcio Chaer, fundador do Conjur e pioneiro do jornalismo jurídico brasileiro

O jornalista Márcio Chaer, fundador do site Conjur, morreu neste sábado (3/10), em São Paulo, ao sofrer um infarto depois de correr atrás de um ladrão que roubou o celular de uma pessoa que estava no mesmo carro que ele, na Avenida Pedro Vicente, perto da estação Armênia do Metrô.
Chaer fundou o Conjur em 1997, dois anos depois de a internet passar a ser aberta para o público geral. “Márcio Chaer foi um pioneiro na cobertura jornalística do mundo jurídico. O Direito e o jornalismo perdem um profissional combativo, que lutava pelo direito de defesa”, disse Felipe Seligman, sócio-fundador e CEO do JOTA, que foi criado em 2014.
O decano do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, afirma que na época da fundação do Conjur, o Judiciário brasileiro ainda era solene e distante, e pouco do que se decidia nos tribunais chegava ao público. “Márcio ajudou a mudar isso. Construiu uma plataforma que democratizou o acesso à informação especializada de qualidade. Eram textos gratuitos, de amplo acesso. Deu voz a muitos estudiosos do Direito e subsídios para o trabalho de todos os profissionais da área. Não há um advogado, um juiz ou um promotor no país que não tenha frequentado esse site [Conjur] e percorrido o universo de informações que ali vicejava”, escreveu no X. “Mais do que um profissional que eu admirava e acompanhava, perdi um querido amigo. Seu caráter íntegro e sua generosidade permanecerão na lembrança de todos que com ele conviveram”, escreveu o ministro do STF.
O professor Lênio Streck, amigo e colunista histórico do Conjur, disse que “desde 2012 andava com Márcio. Ele me ofereceu a coluna que batizei de Senso Incomum. Já são mais de 1.300 textos. Parceiro, amigo de frequentar a casa; amigo dos amigos. O mais irônico: um humanista como ele morrer nessas circunstâncias, vítima da violência cotidiana. O Conjur é um marco no jornalismo jurídico. Nos grandes acontecimentos dos últimos anos, que envolvem a República, Márcio estava fazendo a cobertura. Tomava posição. E eu o ouvia. Meu amigo. Que falta fará. E que falta fará para mim”.
Chaer também desempenhou um papel importante ao preparar centenas de profissionais do Direito a como lidar com a imprensa. Além de dirigir o Conjur, Chaer também era diretor da Original 123, assessoria de imprensa jurídica fundada por ele em 1992.
Antes de empreender, atuou como editor, chefe de reportagem e repórter especial em veículos como Veja, Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil e Jornal da Tarde. Também colaborou com as revistas IstoÉ, Exame e Playboy.
Homenagens a Márcio Chaer
A morte do jornalista foi lamentada pelo presidente da República e por integrantes do meio jurídico e da imprensa.
Lula disse ter recebido com imensa tristeza “o trágico falecimento do jornalista Márcio Chaer, fundador da revista Conjur. “Defensor inegociável do Estado Democrático de Direito, Chaer pautou sua atuação jornalística na coragem e no sentimento de justiça. No auge da Lava Jato, não hesitou em abrir espaço para críticas aos abusos e violações então cometidas”, afirmou.
O presidente do STF, Edson Fachin, disse que “Márcio Chaer deixa um importante legado ao jornalismo especializado na cobertura do Poder Judiciário. Profissional apaixonado pelo que fazia, construiu ao longo da vida um caminho marcado pela dedicação à informação de qualidade e ao fortalecimento das instituições republicanas”.
“O Tribunal Superior Eleitoral lamenta a partida do jornalista Márcio Chaer, que valorizou e profissionalizou a cobertura jornalística do Poder Judiciário. Ele ajudou a mostrar à sociedade o valor das decisões e julgamentos da Justiça brasileira. Em nome da Justiça Eleitoral, desejo conforto aos amigos e familiares e afirmo que Márcio Chaer deixou sua marca no Judiciário brasileiro”, disse o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Atual presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), o ministro Luis Felipe Salomão afirmou que a atuação de Chaer “revolucionou a cobertura do Poder Judiciário. Um pouco de todos que defendem e respeitam a Justiça brasileira vai com ele. Que a família e os amigos se sintam confortados, pois Chaer foi um grande guerreiro. O exemplo de seriedade e comprometimento de Márcio Chaer com o jornalismo e com o Judiciário permanecerão para sempre na história do país”
O ministro do STF Cristiano Zanin também prestou homenagens. Disse que não era possível falar sobre a história do Judiciário brasileiro sem mencionar Chaer. “Chaer empunhava, como poucos, a defesa do Estado de Direito Democrático no Brasil. Seu legado permanecerá vivo”, disse.
O ministro Alexandre de Moraes, do STF, afirmou que “em tempos de tanta desinformação, milícias digitais e discurso de ódio, Marcio Chaer representava o melhor do jornalismo, com inteligência, seriedade, competência e independência. Tornou-se o maior e melhor jornalista especializado no Poder Judiciário brasileiro, sempre defendendo de maneira intransigente o Estado Democrático de Direito. Meus sentimentos a seus familiares e amigos, na certeza de que Marcio Chaer combateu o bom combate”.
Dias Toffoli afirmou que Chaer “foi um homem de bem, um amigo das instituições jurídicas brasileiras, um defensor da democracia e da dignidade das liberdades constitucionais da comunicação”.
O advogado-geral da União, Jorge Messias, afirmou em nota que Chaer foi um “jornalista dedicado e importante difusor da cultura jurídica nacional” e que “deixa uma contribuição inestimável e uma marca especial em todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo e acompanhar seu trabalho. Neste momento de dor, manifesto minha solidariedade aos familiares, e demais amigos, desejando-lhes força e serenidade.
O presidente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados Brasil, Beto Simonetti, disse que o Brasil perdeu uma “voz relevante” com a morte do jornalista e homenageou sua trajetória.
“Márcio Chaer deixa uma contribuição inestimável à advocacia brasileira. Foi um profissional que compreendeu como poucos a importância da Justiça, da advocacia e das instituições para a democracia e ajudou a qualificar esse debate ao longo de décadas. Sua trajetória à frente do ConJur marcou o mundo jurídico. Perco um amigo querido, e o Brasil perde uma voz relevante e respeitada”, afirmou.
“ Uma tragédia, uma tristeza, partiu um grande jornalista, uma figura muito importante, um grande amigo, sem palavras para descrever esse sentimento”, afirmou Pierpaolo Bottini, professor de Direito Penal da USP.