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Quase 90 milhões de deslocados vivem em países altamente expostos à crise climática, alerta ACNUR

JOTA·
Quase 90 milhões de deslocados vivem em países altamente expostos à crise climática, alerta ACNUR

Quase 90 milhões de pessoas deslocadas à força — três em cada quatro no mundo — vivem em países com exposição alta ou extrema a riscos relacionados às mudanças climáticas, como secas severas, inundações e calor extremo. Na última década, desastres associados ao clima provocaram mais de 255 milhões de deslocamentos internos, o equivalente a cerca de 70 mil por dia. Os números estão no relatório Sem Escapatória III, divulgado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), que pede ações urgentes para proteger refugiados e outras deslocados pelo agravamento dos impactos climáticos.

Publicado antes da COP31, que começa na próxima semana em Antalya, na Turquia, o documento alerta que o financiamento climático não está chegando a muitas das comunidades mais vulneráveis. Países frágeis e afetados por conflitos recebem apenas cerca de 10% dos recursos globais destinados ao clima, embora abriguem grandes populações deslocadas e enfrentem riscos elevados.

A realização da conferência na Turquia, um dos países que mais acolhem refugiados no mundo, é considerada pelo ACNUR uma oportunidade para inserir de forma mais consistente o deslocamento forçado e as necessidades das comunidades anfitriãs na agenda climática global. Este deve ser um dos temas mencionados mo discurso do presidente Lula, que participa da cúpula de líderes na semana que vem.

Para o ACNUR, a COP31 deve transformar compromissos em investimentos concretos capazes de oferecer proteção duradoura, resiliência e um futuro mais seguro às pessoas forçadas a fugir.

“As pessoas refugiadas enfrentam uma dupla injustiça. Forçadas a fugir de conflitos que não causaram, agora estão na linha de frente de uma crise climática para a qual contribuíram muito pouco”, afirmou Antón Leis García, Alto Comissário Adjunto de Operações do ACNUR.

Retornos também estão ameaçados pelos riscos climáticos

A exposição aos eventos extremos compromete não apenas a segurança de quem está deslocado, mas também a possibilidade de retorno e reconstrução da vida nos países de origem.

“As pessoas refugiadas estão na linha de frente da crise climática, mas também fazem parte da solução”, afirmou Antón Leis García, Alto Comissário Adjunto de Operações do ACNUR.

Durante o primeiro semestre de 2026, mais de dois terços das pessoas refugiadas que retornaram para casa voltaram a países altamente vulneráveis a riscos climáticos.

Para o ACNUR, essa condição aumenta as preocupações sobre a sustentabilidade dos retornos.

Na Síria, onde quase 4 milhões de pessoas deslocadas retornaram recentemente, o declínio das águas subterrâneas e os impactos climáticos ameaçam a recuperação. Em maio de 2026, inundações ao longo do rio Eufrates danificaram casas e provocaram novos deslocamentos de milhares de pessoas.

O relatório também chama atenção para a possibilidade de novos deslocamentos na África Oriental. Inundações graves associadas a um El Niño de grande intensidade podem deslocar entre 770 mil e 3 milhões de pessoas na Somália, no Quênia, no Sudão do Sul e em Uganda até o fim de 2026, a depender da evolução das condições.

A região já enfrentou episódios severos de inundação. Em 2023, mais de 2 milhões de pessoas foram deslocadas, incluindo famílias que precisaram fugir repetidas vezes.

Calor extremo pode atingir assentamentos de refugiados

O calor intenso é outro risco crescente para as populações deslocadas. Até 2050, alguns dos assentamentos de refugiados mais quentes, incluindo locais na Gâmbia, Eritreia, Etiópia, Senegal e Mali, poderão enfrentar quase 200 dias ou mais de estresse térmico intenso por ano — aproximadamente o dobro da média atual.

Na África subsaariana, um em cada três assentamentos de refugiados poderá registrar pelo menos 100 dias de calor intenso por ano até 2050. Mais da metade dos locais avaliados poderá enfrentar ao menos 50 dias adicionais de calor intenso anualmente.

A vulnerabilidade também alcança pessoas sem reconhecimento legal. Quase 90% dos 4,7 milhões de apátridas no mundo vivem em países com riscos climáticos de alto a extremo. Sem reconhecimento jurídico, essas pessoas enfrentam dificuldades para acessar ajuda humanitária e apoio para adaptação.

No Brasil, o relatório destaca iniciativas de agricultura comunitária, energia limpa e modelos de moradia sustentáveis. Um dos exemplos é o Centro de Sustentabilidade de Outeiro, em Belém, construído e ampliado com a participação do ACNUR, da prefeitura local, da empresa de energia renovável LONGi, do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e do Conselho Warao Ojiduna, organização da comunidade de pessoas refugiadas indígenas.

As atividades do centro foram aprimoradas durante a COP30. O projeto reúne diferentes atores na construção de soluções locais para os desafios climáticos.

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Na COP31, o ACNUR pretende pedir aos governos e às instituições de financiamento climático que incluam refugiados e outras pessoas deslocadas nos planos nacionais de clima e nos mecanismos de financiamento. A agência também defenderá mais investimentos de adaptação de longo prazo em áreas frágeis e afetadas pelo deslocamento.

Outra demanda é superar a assistência humanitária de curto prazo e avançar para soluções sustentáveis e lideradas localmente, com participação das pessoas deslocadas e das comunidades que as recebem.