Constitucional

Raquel Lyra tenta transformar gestão e base no interior em força para reeleição em Pernambuco

JOTA·
Raquel Lyra tenta transformar gestão e base no interior em força para reeleição em Pernambuco

Raquel Lyra (PSD) foi a primeira mulher eleita para governar Pernambuco e aposta na gestão do primeiro mandato para tentar garantir a reeleição neste ano. A governadora tenta se afastar da polarização política da disputa presidencial, apesar de seu partido ter lançado Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás, ao Planalto. Assim, ela tem focado sua campanha nos interesses estaduais. 

A estratégia se alinha com a recuperação de Raquel Lyra nas pesquisas de intenção de voto ao longo da campanha. Nos levantamentos do primeiro semestre, a governadora aparecia atrás de João Campos (PSB), ex-prefeito do Recife e seu principal adversário. Nas pesquisas mais recentes, a candidata do PSD aparece numericamente à frente, embora em empate técnico.

Conheça o JOTA PRO Eleições, cobertura eleitoral especial do JOTA que oferece transparência e previsibilidade para empresas

De acordo com a mais recente pesquisa do instituto Datafolha, Raquel Lyra tem 48% (tinha 47% no início do mês e em agosto) e João Campos, 44% (tinha 42% e 40%). E, com 1%, cada um, estão Professora Camila (UP), Ivan Moraes (PSOL) e Renan (Missão) (mesmo índice anterior). Victor Assis (PCO) e Guilherme Fonseca (PSTU) foram citados, mas não alcançaram 1%. Brancos ou nulos são 4% (eram 6%) e indecisos, 2% (mesmo índice anterior).

Um dos principais ativos para a reeleição de Raquel é o fator Lula (PT). O presidente apoia a candidatura de João Campos ao Palácio do Campo das Princesas, mas não coloca Raquel como uma adversária direta na disputa nacional. Essa posição abre espaço para que a governadora dialogue com eleitores que votam no presidente, mas, não necessariamente, transferem esse voto para a disputa estadual.

Ao evitar uma associação direta com a campanha presidencial de Lula, Raquel também preserva espaço para conversar com o eleitorado de direita, incluindo os apoiadores do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o principal presidenciável da oposição.

Herança política

Raquel Teixeira Lyra Lucena nasceu no Recife, mas se mudou para Caruaru, a 134 quilômetros da capital, ainda pequena, onde ingressou na vida política. A exemplo de João Campos, que é neto de Miguel Arraes e filho de Eduardo Campos, duas lendas da história pernambucana,  ela também pertence a um clã político tradicional no estado.

A governadora é filha de João Lyra Neto, ex-prefeito de Caruaru e ex-governador de Pernambuco. É neta de João Lyra Filho, também ex-prefeito de Caruaru e ex-deputado federal pelo MDB, e sobrinha de Fernando Lyra, ministro da Justiça do governo do presidente José Sarney (MDB).

“Eu não consigo enquadrar meu tio, meu pai e meu avô como uma oligarquia patriarcal. […] Meu pai sempre me disse que não tinha voto de prateleira para dar, nós fomos fazendo a construção juntos, discutindo com a população, e por isso, parece um paradoxo vir de uma família e representar mudança e renovação”, contou Raquel Lyra durante o programa de entrevistas Roda Viva (TV Cultura) de 2023.

Entrada na política

A governadora é formada em direito pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e trabalhou como delegada da Polícia Federal. Também atuou como procuradora-geral de Pernambuco.

Raquel Lyra entrou na política em 2010, quando disputou a eleição para a Assembleia Legislativa do Estado de Pernambuco (Alepe) pelo PSB. Na ocasião, ela foi a deputada mais votada, com 49.610 votos. Ela foi reeleita em 2014 pelo mesmo partido.

“Podem me atacar. Mas ninguém apaga a minha história: sou servidora pública concursada. Não furei fila. Estudei, me preparei e conquistei meu espaço”, reafirma Raquel Lyra ao relembrar a sua trajetória antes de entrar na vida política.

Já em 2016, a então deputada deixou o Legislativo para concorrer à prefeitura de Caruaru, mesmo cargo antes ocupado pelo seu pai. Na época, ela disputou o governo municipal pelo PSDB e foi a primeira mulher a assumir o posto.

Em 2020, Raquel foi reeleita no primeiro turno, com 114 mil votos. Ela foi seguida por Delegado Lessa (PP) com 32.910 votos e Raffiê Dellon (PSD), com 14.986 votos.

Vitória e tragédia familiar

Raquel Lyra deixou a Prefeitura de Caruaru em 2022, quando decidiu disputar o governo de Pernambuco pelo PSDB. “Eu entendo que política só serve se for para realmente transformar e quero fazer a mesma transformação que fizemos em Caruaru, agora, em todo o Estado”, declarou a então prefeita ao renunciar ao cargo na Câmara Municipal de Caruaru, em março daquele ano.

A campanha, no entanto, não começou confortável para a ex-prefeita. A pesquisa do Instituto Ipec, divulgada em agosto, mostrava Marília Arraes (Solidariedade) com 33% das intenções de voto e Raquel Lyra com 11%, empatada tecnicamente com Anderson Ferreira (PL), com 10% e Miguel Coelho (União), com 9%.

A disputa ficou marcada por troca de acusações entre Marília Arraes, que é prima de João Campos, e Raquel Lyra. “Eu queria que você estivesse com o presidente Lula. Mas você resolveu ficar neutra. E nós somos mães e sabemos. Neutro só sabão de bebê”, disparou Marília, durante um debate promovido pela Rádio Jornal.

“O fato é que Marília Arraes em vez de discutir soluções para Pernambuco só traz fake news. A campanha, como ela, usa o tempo todo de inverdades. Todas são improcedentes”, rebateu Raquel Lyra.

Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas

O clima tenso, natural de toda a reta final de campanha, porém, foi substituído pela dor da perda e a tristeza do luto. Na manhã do domingo de votação do primeiro turno das eleições daquele ano, Fernando Lucena, marido de Lyra, morreu devido a um mal súbito. 

No primeiro turno, Marília conquistou 23,97%, enquanto Raquel teve 20,58%. No segundo turno, Raquel superou Marília e foi eleita com 58,70%, contra 41,30% da adversária.

Logo após o primeiro turno, a campanha de Raquel Lyra pediu o adiamento do início do horário eleitoral gratuito na televisão e no rádio, por “questões humanitárias”. No entanto, a campanha de Marília Arraes informou que iria manter o calendário indicado e o pedido foi negado pela Justiça Eleitoral. 

A ex-prefeita de Caruaru se afastou dos eventos políticos durante oito dias e se dedicou à família. Neste período, a candidata a vice, Priscila Krause, na época no Cidadania, passou a comandar as agendas.

Antes de voltar às campanhas nas ruas, Raquel Lyra gravou um vídeo agradecendo o apoio dos eleitores. “A transformação que começou em Caruaru a gente vai levar para o estado todo”, disse ela no material divulgado. 

O primeiro evento de campanha após a morte do marido foi uma entrevista em Caruaru, onde prometeu entregar 60 mil vagas em creches, em 10 de outubro.

Três dias depois, o filho da então candidata, João, que na época tinha 12 anos, precisou ser internado e submetido a uma cirurgia para retirada do apêndice e ela voltou a suspender a política.

Apesar do abalo na vida pessoal, Raquel voltou aos poucos a participar de eventos de campanha ao lado da candidata a vice, em especial entrevistas a jornais locais e acarretadas pelos municípios pernambucanos.

“Fernando sonhou comigo todos os meus sonhos. A gente esteve junto desde sempre. Sempre disse que não existia Fernando sem Raquel, nem Raquel sem Fernando. Ele sonhou que a gente pudesse estar nesse momento hoje”, afirmou Raquel ao se recordar do marido durante o seu discurso de vitória.

Leon Victor de Queiroz, professor do Departamento de Ciência Política da UFPE, avalia que Raquel chegou ao governo com uma trajetória política construída no interior do estado, algo incomum entre os nomes que já disputaram o Palácio do Campo das Princesas.

“Nos últimos tempos não se via alguém, por exemplo, de Caruaru, Garanhuns e Petrolina que pudesse chegar a ser governador do estado. […] Ela tem capacidade de estabelecer alianças, de estabelecer os acordos entre as elites locais para poder converter isso daí em apoio político”, ressalta Leon Queiroz.

Gestão de Pernambuco

A pesquisa Datafolha, divulgada em 11 de setembro, mostra que a gestão de Raquel Lyra é avaliada como ótima ou boa por 48% dos eleitores, enquanto outros 20% consideram ruim ou péssimo.

Uma das principais promessas apresentadas pela então candidata, em 2022, foi a ampliação das escolas em tempo integral a partir da segunda etapa do ensino fundamental. No entanto, Raquel também prometeu entregar 60 mil vagas em creches e não conseguiu atingir a meta.

Em entrevista ao Nordeste 1 (NE1), jornal local, em 15 de setembro, a governadora foi questionada sobre as vagas nas creches. “Não é simples fazer 250 creches, cada uma delas custa entre R$ 6 milhões e R$ 7 milhões. A gente precisa do terreno, da topografia”, respondeu, mas, segundo ela, a expectativa é de que as unidades estejam prontas até junho de 2027.

Outra medida foi a concessão parcial dos serviços de abastecimento de água e esgoto do estado sob responsabilidade da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) em dezembro de 2025. O Consórcio Pernambuco Saneamento e a Pátria Investimentos deverão investir, juntos, R$ 23,2 bilhões em água e saneamento no estado.

“Temos a convicção de que este é o melhor e único caminho que temos para garantir a universalização do acesso à água e ao tratamento de esgoto no nosso Estado. Para muitos, faltar água é não tê-la por uma hora na torneira. Mas para algumas cidades de Pernambuco, significa não ter água em momento algum”, afirmou a governadora.

Campanha de reeleição

A governadora buscava a reeleição e um novo partido. O PSDB já não tinha mais a mesma expressão política, e Raquel não escondia as críticas à legenda, “foi ficando pequeno ao longo do tempo e isso revela que algo está errado”, disse a governadora em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo em 2024. Ela, então, passou a procurar um partido em ascensão e decidiu migrar para o PSD.

A legenda, presidida por Gilberto Kassab, conseguiu o maior número de prefeitos eleitos nas eleições municipais de 2024 e se mostrou uma vantagem para Raquel Lyra, que tentaria a reeleição em 2026.

Em agosto, o PSD oficializou a candidatura à reeleição de Raquel Lyra. A convenção foi marcada por menções ao presidente Lula e a ausência de Ronaldo Caiado.

“Disseram que não conseguiríamos apoio do governo federal. E aqui um agradecimento ao presidente Lula. Em muitos momentos disseram que ele [Lula] não ia olhar para Pernambuco, que a gente não ia construir parceria. Deram com os burros na água! Estamos fazendo muita parceria”, anunciou Raquel.

O professor Leon Victor de Queiroz explica que não há vantagem eleitoral para Raquel Lyra associar a campanha eleitoral dela a de Ronaldo Caiado, uma vez que o candidato do PSD tem baixa intenção de voto em Pernambuco. “Ela não se beneficia em nada.”

A governadora tem um eleitorado consolidado no interior de Pernambuco, em especial no agreste, onde estabeleceu convênios com os prefeitos da região. Já João Campos tem maior força na capital e na Região Metropolitana.

A campanha de Raquel Lyra tem intensificado as ações nas redes sociais, devido à forte presença digital de seu principal adversário. Com o foco na neutralidade, as ações são voltadas para o povo e seu  “pernambuquismo” que, segundo a definição da própria governadora, seria o sentimento sem ideologia de colocar Pernambuco em primeiro lugar.

Assine gratuitamente a newsletter Últimas Notícias do JOTA e receba as principais notícias jurídicas e políticas do dia no seu email

No primeiro vídeo de campanha, a governadora adotou um tom emotivo e pessoal para a propaganda eleitoral. Raquel aparece sozinha na imagem, com uma blusa branca e conversando diretamente com a câmera, apresentando a sua trajetória e um balanço do seu primeiro mandato. 

“Virei governadora de Pernambuco no momento mais difícil da minha vida. Estar aqui me permitiu seguir em frente”, afirma Raquel. 

Ainda nas redes, a campanha da governadora abraçou uma postura mais descontraída e adotou o apelido “mainha”, com expressão em vídeos e cards. “Mainha chegou e veio pra ficar. E não é por projeto pessoal de poder, não! É por um projeto de futuro para Pernambuco, minha gente!”, diz uma publicação no Instagram de Raquel. 

Mantendo a neutralidade na campanha presidencial, Robson Carvalho, doutor em ciência política pela Universidade de Brasília (UnB), avalia que a relação administrativa construída com o governo Lula permite a Raquel disputar um eleitorado que vota no presidente.

“Não há um afastamento radical em relação ao grupo do presidente Lula, tem muito voto que vota em Lula e vota em Raquel, aprova a administração de Lula e aprova a administração de Raquel e isso tem favorecido”, afirma Robson Carvalho.

A intenção é mostrada pela pesquisa Datafolha de 11 de setembro. De acordo com o levantamento, 34% dos eleitores que se identificam como petistas declaram voto em Raquel Lyra. 

Raquel Lyra x João Campos

Com as campanhas concentradas nas redes sociais, Raquel Lyra e João Campos têm realizado embates por diferentes meios. Segundo o Painel, da Folha de São Paulo, a PF investiga a existência de um “gabinete do ódio” ligado à governadora.

A campanha de João Campos tenta cada vez mais ligar Raquel Lyra ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em especial pelo apoio do deputado federal Mendonça Filho (PL-PE) à reeleição da governadora.

As ofensas ganharam novos rumos, apareceram cartazes difamatórios em pontos do centro do Recife que associavam Raquel Lyra a figuras como Flor de Lis e Elize Matsunaga. Raquel Lyra informou que registrou um boletim de ocorrência e João Campos pediu que o caso fosse investigado.

No debate realizado na quinta-feira (17/9), houve um novo episódio de embate direto entre Raquel Lyra e João Campos. A governadora questionou o ex-prefeito do Recife sobre redução dos impostos municipais para as empresas de apostas esportivas, mais conhecidas como “bets”, mesmo ele afirmando ser contra a modalidade. 

“Governar é fazer escolhas. Eu sempre fui contra bets. Fui delegada da Polícia Federal e sei que esse tema é tratado diretamente pelo crime organizado no Brasil”, defendeu a candidata do PSD.

João respondeu que a medida ocorreu após uma regulamentação federal. “O Recife arrecada R$ 80 mil com essa atividade. Após a lei, passou a arrecadar R$ 80 milhões. Foi graças a essa iniciativa e tantas outras de aumento da economia da nossa cidade, que nós duplicamos as vagas de creches no Recife.”

Em meio a uma eleição acirrada, a governadora se envolveu em uma polêmica nos últimos dias. A candidata à reeleição aparece em um vídeo divulgado pelo portal Metrópoles onde sugere realizar uma laqueadura em uma mulher sem ela saber da cirurgia. As imagens foram gravadas em maio de 2025, na inauguração da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns.

“Aí tem que fazer laqueadura, visse? A gente bota na fila da laqueadura. Isso eu posso fazer. [trecho inaudível] Mas faz sem ela saber”, disse Raquel Lyra ao se referir a uma gestante que teria chegado a unidade grávida de séptuplos.

Após a divulgação do vídeo, Raquel pediu desculpa e indicou que a gravação é antiga. “Há um vídeo circulando com uma fala equivocada sobre laqueadura. Não tenho compromisso com o erro. Peço desculpas. Como mãe e mulher, sei dos desafios de criar os filhos e tomar decisões sobre planejamento familiar.”

João Campos também se manifestou sobre o ocorrido. O ex-prefeito se referiu sobre o caso como “violência”. “Fazer ‘sem ela saber’ não é cuidado. É violência. É crime previsto em lei.”

Apesar do cenário apertado, as campanhas acreditam ser possível resolver a eleição para o governo de Pernambuco ainda no primeiro turno, uma vez que os eleitores estão divididos entre Raquel Lyra e João Campos.