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Terceiro turno das eleições depende de aliança entre Trump e bolsonarismo

JOTA·
Terceiro turno das eleições depende de aliança entre Trump e bolsonarismo

Passadas pouco mais de 18 horas desde a confirmação do quarto mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a Casa Branca seguia em silêncio. Nenhuma palavra vinda do presidente Donald Trump ou do secretário de Estado Marco Rubio havia sido ouvida até as 16h do day after da eleição mais impressionante da história brasileira. Nesse caso, a ausência de fumaça é sinal de fogo, o que foi confirmado quando Trump declarou que “pareceu mais uma eleição fraudada”, sem apresentar qualquer indício de irregularidade.

O atraso em emitir opinião acerca do pleito brasileiro indica que o governo americano procura alguma justificativa para não reconhecer o resultado do segundo turno, na linha do que o candidato derrotado Flávio Bolsonaro (PL) pretende fazer. Ao lado do irmão Eduardo, foragido nos Estados Unidos, o filho zero um do golpista Jair Bolsonaro fez claras gestões junto ao governo Trump para impor sanções comerciais de fato ao Brasil.

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Não coincidentemente, “Dudu Bananinha”, que chegou a pleitear o cargo de chanceler num eventual governo do irmão, pediu que governos estrangeiros não reconheçam a vitória de Lula. Duas das maiores lideranças da extrema direita global, Steve Bannon e Elon Musk, afirmaram que a conta da virada de Lula sobre Flávio não fecha.

Os aliados do bolsonarismo exercem o perigoso jus sperniandi em corridas eleitorais para as quais não há a mínima evidência de fraude. Tendo terminado em segundo lugar no primeiro turno, com pouco mais de 45% dos votos, Lula reestruturou por completo a campanha em três semanas, combinando as maiores mobilizações de rua jamais vistas na história com uma guerrilha digital capitaneada pelo “general” e deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG).

Com o “Exército de Lula” nas ruas e nas redes, jovens que antes viam o PT como o status quo a ser derrotado se engajaram na campanha. Ademais, pessoas das mais diversas idades somaram esforços para conter o retorno do bolsonarismo ao poder, inclusive eleitores que tinham optado pela abstenção no primeiro turno.

No fim, a cereja do bolo vermelho do quarto mandato foram os erros em série de Flávio Bolsonaro, que chegou a se comportar como presidente-eleito, indicando potenciais ministeriáveis e tendo a pachorra de afirmar que mudaria a Constituição e redemocratirzaria o país, como se o processo eleitoral do qual ele participou estivesse sob o signo do autoritarismo. Isso para não lembrar que, durante o debate da Globo, o candidato ironizou o fato de seu adversário ter perdido um dedo num acidente de trabalho aos 17 anos de idade.

No dia do segundo turno, a redução deliberada de ônibus em cidades como Salvador levou o PT a solicitar, no começo da tarde, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a extensão do horário de votação de modo a compensar eleitores por aquilo que foi uma inequívoca obstrução ao voto. A campanha do PL encaminhou pedido semelhante para beneficiar cidadãos que enfrentaram problemas para chegar a seus colégios eleitorais em virtude das fortes chuvas no Centro-Sul.

Com a demora por parte do ministro Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, em proferir uma decisão, o PT recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) e o ministro Cristiano Zanin estendeu a votação em todo o país até as 19h. Com a intempestividade do julgamento, seções já tinham sido fechadas e, portanto, suas respectivas urnas eletrônicas não podiam mais receber votos. Aparentemente, um caos jurídico inédito se instalava, abrindo possibilidade para a contestação dos resultados pelo lado perdedor.

Porém, apenas 35 mil votos teriam sido registrados após as 17h, horário inicialmente previsto para o término da votação. Como Lula venceu Flávio Bolsonaro por uma diferença de mais de 4 milhões de votos, esses sufrágios adicionais seriam irrelevantes para alterar o resultado ainda que todos tivessem sido depositados a favor do incumbente.

Assim, não obstante a decisão de Zanin — indicado ao STF por Lula —, Nunes Marques — que entrou na Suprema Corte pelas mãos de Jair Bolsonaro —oficializou os resultados. Nessa conjuntura, fica muito difícil para o governo dos EUA criar uma narrativa convincente de fraude, se bem que tudo se pode esperar de um país com histórico de intervenções para mudar a realidade a favor de seus interesses.

Se Flávio Bolsonaro tiver o endosso da Casa Branca e de apoiadores na contestação dos resultados, entraremos num cenário perigoso, uma espécie de Revolução de 1930 às avessas: o lado contestador é reacionário, não progressista, e as alegadas fraudes carecem de evidência, diferentemente da eleição ocorrida em março daquele ano e vencida sob suspeita por Júlio Prestes, que não tomou posse devido ao sucesso da revolta liderada pelo então candidato derrotado Getúlio Vargas.

Em seu discurso pós-eleição e sem mostrar detalhes, Flávio Bolsonaro chamou de sacanagem o que teria acontecido nas eleições para supostamente impedir sua derrota. Como qualquer moleque mimado criado sem ser exposto ao mundo real, não sabe reconhecer seus erros. Sacanagem foi ter no segundo turno uma chapa de um segmento golpista, cujo líder-mor planejou o assassinato de Lula e Geraldo Alckmin em 2022, então respectivamente presidente e vice-presidente eleitos.

Eleito em função de fatores ideológicos, Trump é mais pragmático que o nacionalismo branco e cristão que o sustenta sugere. Face às eleições de meio de mandato, que deve dar espaço à oposição democrata, o presidente americano tende a não insistir numa aliança com uma família que mais promete que entrega. O bolsonarismo continuará vivo como extrema direita brasileira, mas sem o protagonismo de um clã que acumula duas derrotas consecutivas à Presidência.

Trump só tem a perder se ficar refém dessa família. Que ele tenha a mesma sorte que o Brasil e se livre dos Bolsonaros o quanto antes. Dito isso, temos de ficar vigilantes para que a fantasia de um terceiro turno das eleições não vire uma triste realidade tal qual a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Nunca se pode duvidar da capacidade de reação dos que, aparentando loucura, agem com métodos frios e calculistas contra a democracia.