A culpa não é do mordomo, nem das bets

Há um clichê que atravessa gerações de histórias policiais: quando o crime enfim se resolve, a culpa recai sobre o mordomo. Ele é o suspeito perfeito – está sempre por perto, conhece a casa, não tem como se defender direito e ninguém sente muito por ele. O mordomo é um culpado conveniente.
Não à toa, no debate econômico brasileiro dos últimos meses, esse papel foi entregue às bets. Um setor que passou a frequentar nossas casas, ao menos nas publicidades; que, de tão fragmentado, não consegue passar uma mensagem uníssona e se defender propriamente; e pelo qual, depois de 80 anos carregando a carga moral de sua proibição, pouca gente morre de amores.
Nesse debate, o roteiro se repete com uma regularidade quase suspeita. Primeiro, surge uma estimativa cujo método completo nunca é inteiramente aberto ao público. Em seguida, o número ganha uma comparação de forte apelo – “dois Natais” do varejo, “milhões de endividados”. Então dezenas de veículos reproduzem a mesma frase, até que a hipótese passe a circular como fato incontroverso.
No fim da linha, o dado é adotado por quem precisava de uma explicação: a entidade que disputa a renda do consumidor, o parlamentar em ano eleitoral, a empresa que precisa justificar um mau resultado. Em nenhum ponto dessa cadeia a demonstração de causa e efeito foi exigida. Bastou que a acusação fosse intuitiva, comunicável e conveniente.
Vale, então, conferir a conta. O melhor lugar para começar é o caso que dominou as manchetes: uma das varejistas mais tradicionais do país anunciou, em agosto, prejuízo bilionário e pedido de recuperação judicial, sob títulos que incluíram as apostas entre os culpados. Só que a fonte mais autorizada a explicar essa crise é a própria empresa – e o que ela diz está nos seus balanços auditados.
Dos cerca de R$ 10 bilhões de prejuízo do trimestre, quase R$ 9 bilhões não são vendas que deixaram de acontecer porque o consumidor foi apostar. São lançamentos contábeis, em grande parte sem efeito de caixa: baixa de créditos fiscais, redução do valor de ágio, contingências, reestruturação. Excluído o extraordinário, o prejuízo ajustado ficou perto de R$ 1 bilhão – grave, mas de outra natureza. No mesmo período, aliás, a companhia gerou quase R$ 800 milhões em caixa e reduziu a sua dívida.
Há um detalhe que as manchetes engoliram: a deterioração começou em 2021, quando os juros voltaram a subir e encareceram um negócio estruturalmente dependente de seu famoso crediário. A empresa iniciou um plano de transformação em 2023 e recorreu a uma renegociação de dívidas em 2024. Tudo antes de o mercado regulado de apostas começar, em janeiro de 2025. O réu convocado pela narrativa chega à cena anos depois de o crime já estar em curso.
Se as apostas fossem mesmo determinantes, seria de esperar que os concorrentes sofressem junto. Ocorreu o contrário: no ano em que as apostas já ganhavam escala, o setor de móveis e eletrodomésticos cresceu, enquanto aquela varejista específica perdia receita. O problema, como se percebe, estava menos na ausência do consumidor e mais no custo de sustentar a própria operação e de financiar a própria dívida.
Não é preciso confiar na minha leitura. Em 2024, o relatório de um dos maiores bancos do país testou exatamente essa hipótese e foi direto: não encontrou impacto relevante do crescimento das apostas sobre o desempenho do varejo. O mesmo estudo dimensionou o gasto líquido com apostas em torno de 0,3% do consumo das famílias – isso depois de descontar os prêmios devolvidos aos apostadores – que a maior parte das estimativas alarmistas trata, equivocadamente, como dinheiro perdido.
O varejo não está sozinho no banco dos que apontam o dedo. Meses antes, o presidente de uma das maiores companhias aéreas do país declarou que a aviação “compete com as bets” e atribuiu às apostas a perda de força do consumo da classe C. Na mesma fala, porém, descreveu uma “década perdida” para o setor – historicamente pressionado por câmbio, combustível, tributação, endividamento e sucessivas reestruturações, tudo muito anterior à popularização das apostas. Quando o próprio executivo que culpa a bet admite uma crise de dez anos, a cronologia entrega a resposta.
Por trás desses casos há uma acusação mais ampla e mais séria: a de que as bets teriam endividado o brasileiro. Aqui a conta também não fecha.
Comece pela cronologia. O endividamento das famílias saiu de 16,5% da renda em 2005 para quase 50% no pico de 2022. A curva é antiga, estrutural, conhecida. Ela tem nome, e o nome não é bet: é crédito caro. Pense na aposentada que toma um empréstimo pequeno, vê-o virar uma bola de neve num cartão consignado e termina o mês com poucos reais para viver. Não foi a roleta que a levou até ali. Foi um contrato vendido como barato, com juros que se multiplicavam a cada refinanciamento.
Depois, olhe o perfil – e talvez seja o dado mais revelador. O endividamento brasileiro está envelhecendo: a fatia de inadimplentes acima de 60 anos cresceu de forma expressiva na última década, puxada pelo consignado sobre aposentados. O apostador é o oposto – jovem: quase três quartos têm menos de 40 anos, e os acima de 60 não chegam a 3%. Ou seja, a população que mais empurra o calote para cima é justamente a que quase não aposta. Os dois retratos não se sobrepõem.
Os próprios números do regulador desmontam a caricatura do apostador. A perda líquida média por apostador ficou em torno de R$ 164 por mês, segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA). Mas a média engana, e contra a narrativa: dados da própria Fazenda mostram que mais da metade dos apostadores movimenta até R$ 50 por mês, enquanto cerca de um quinto – que gasta acima de R$ 1 mil – concentra o grosso do volume. O dano existe, é real e concentra-se numa minoria: é problema de saúde de quem perde o controle, não o motor de um endividamento que já era recorde antes de a primeira bet abrir. Combatê-lo é dever do Estado e do setor; confundi-lo com a causa do endividamento nacional é outra coisa.
Mas há uma camada que quase não se ouve: a jurídica. O direito brasileiro já cercou a aposta. Há reconhecimento facial, autoexclusão centralizada, regras de jogo responsável, limites de publicidade – e, o que quase ninguém nota, uma vedação expressa ao crédito.
A Lei 14.790 e a regulamentação da SPA já proibiam apostar no cartão de crédito e com meios de pagamento pós-pagos. Mais recentemente, a medida provisória que criou o novo Desenrola foi além e vedou às instituições financeiras conceder crédito vinculado à transferência de recursos para apostas.
O efeito combinado é simples de enunciar: por desenho da lei, aposta-se com o dinheiro que se tem, não com o que não se tem. Não é impossível alguém se endividar e apostar – o dinheiro é fungível, e sempre haverá quem contorne a regra. Mas endividar-se diretamente para apostar tornou-se, hoje, muito difícil.
É aqui que a conta se inverte. O crédito ao consumo não é terra sem lei – tem regras, e há até um limite legal para o total de encargos do cartão. Mas regular o preço não é o mesmo que domá-lo: o rotativo segue por volta de 440% ao ano, e é dele, não do aplicativo de apostas, que vem a pressão silenciosa sobre o orçamento das famílias.
Reconhecer isso não é eleger um novo culpado – seria cair no mesmo erro que este artigo denuncia. É lembrar que o problema é antigo, estrutural e difícil, e que não se resolve escolhendo o alvo mais fácil. Regulou-se com rigor o dano pequeno; falta a mesma energia para enfrentar o grande.
As apostas disputam, como qualquer produto, uma fatia da renda de quem escolhe gastar com elas, e merecem regulação séria, fiscalização e prevenção. O que os dados não autorizam é transformá-las na explicação universal para toda empresa que vende menos, toda margem que encolhe e toda dívida que aperta. Antes de aceitar o veredito, convém conferir a conta. E, quando se confere, a culpa não é do mordomo.