Campanha petista tenta convencer Lula a entrar no canal de WhatsApp comandado por Janones

Integrantes da campanha petista à reeleição estão tentando convencer o presidente a entrar no canal de WhatsApp Exército do Lula. Criado pelo deputado André Janones (Rede-MG), o grupo teve um crescimento expressivo após o primeiro turno da eleição e já conta com quase 6,5 milhões de integrantes. A entrada de Lula, com mensagens enviadas diretamente por ele, ajudaria a aumentar ainda mais a mobilização a poucos dias do segundo turno.
De acordo com interlocutores, porém, o presidente ainda está hesitante. Lula, que não tem nem telefone celular e sempre foi refratário à tecnologia e às redes sociais, havia se comprometido a comprar um aparelho caso o grupo atingisse 5 milhões de adeptos. Até o momento, no entanto, ainda não cumpriu a promessa.
Criado originalmente em abril, o canal tinha cerca de 50 mil seguidores antes do primeiro turno. Foi transformado por Janones em uma central de mobilização eleitoral a partir de 5 de outubro, depois da derrota de Lula para Flávio Bolsonaro. Em pouco mais de duas semanas, tornou-se um dos principais fenômenos de mobilização digital desta eleição.
No canal, Janones se apresenta como general de seu exército e distribui “missões” aos seguidores. Ele orienta a militância a compartilhar de vídeos, impulsionar publicações, promover hashtags e disseminar mensagens favoráveis a Lula ou críticas a Flávio Bolsonaro.
No domingo do debate da Band, por exemplo, o deputado enviou 369 mensagens ao canal, incluindo 47 áudios, segundo levantamento do JOTA. Depois do programa, ele foi internado em um hospital em São Paulo após um episódio de arritmia cardíaca, o que deixou o Exército de Lula sem comandante por longas 24 horas.
Reação digital de Lula
O crescimento do Exército do Lula foi acompanhado por uma melhora expressiva dos indicadores digitais do presidente. Segundo levantamento da consultoria Datrix, o número mediano de interações nas publicações de Lula saltou de 2,8 mil para 16,2 mil. A partir de 7 de outubro, o petista também passou a conquistar mais seguidores diariamente nas principais redes sociais do que Flávio Bolsonaro: 210 mil contra 136 mil.
Outros levantamentos confirmam a dimensão do fenômeno. O Instituto Democracia em Xeque contabilizou 23 milhões de interações nos perfis de Janones entre 28 de setembro e 11 de outubro, quase metade do engajamento dos perfis de esquerda monitorados. Já o Índice de Popularidade Digital da Quaest registrou um salto de Lula de 70,7 para 82,6 pontos entre 4 e 15 de outubro, enquanto Flávio recuou de 80 para 76,4 pontos.
O canal também organizou panelaços durante a entrevista de Flávio à TV Globo e mobilizações digitais para acompanhar atos de campanha.
Disputa no TSE
A iniciativa entrou ainda no centro de uma disputa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, o presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, determinou duas vezes a suspensão do canal, sob acusações de disseminação de informações falsas e, posteriormente, falta de registro. A área técnica do tribunal não encontrou os conteúdos denunciados nas mensagens examinadas, embora tenha identificado publicações apagadas ou editadas. A campanha petista registrou o canal para permitir sua reativação, mas depois pediu sua desvinculação formal, alegando que não controla nem financia a iniciativa.
O fenômeno também chamou a atenção do bolsonarismo. A campanha adversária passou a reforçar sua própria mobilização digital e lançou, em 8 de outubro, a Tropa do Flávio, comandada pelo deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). O canal atingiu 2 milhões de seguidores nesta segunda-feira (19), mas ainda está bastante atrás do Exército do Lula.
Ainda não há como medir quanto dessa mobilização se converte em votos ou em comparecimento às urnas no próximo domingo. Mas o Exército do Lula deu novo impulso à militância petista no ambiente digital, historicamente dominado pelo bolsonarismo.
Resta saber se o presidente será convencido a aderir à iniciativa. Por enquanto, numa campanha em que o celular virou uma das principais armas eleitorais, o comandante-em-chefe petista ainda não tem o seu.