Católicos entram em cena para pregar voto contra o evangélico Flávio Bolsonaro

A Igreja Católica Apostólica Romana parece ter mergulhado de cabeça na tentativa de impedir a eleição do senador Flávio Bolsonaro (PL) como presidente do Brasil. Não, diferentemente do que nos querem fazer crer alguns posts de redes sociais, lideranças do grupo religioso ainda predominante no Brasil — aproximadamente 56% da população — não têm como candidato o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas tendem a perder bastante com aquele que seria o primeiro presidente evangélico brasileiro.
Isso porque o filho do golpista Jair Bolsonaro e “irmão” do ex-banqueiro Daniel Vorcaro tende, uma vez no poder, a apoiar a teologia do domínio tão apregoada por pastores e bispos protestantes, a qual feriria de morte os interesses materiais e espirituais do catolicismo no país.
Vários vídeos de prelados, como bispos e arcebispos, viralizaram nas redes nas últimas semanas. Cartilhas distribuídas em igrejas também vêm indicando o voto em quem defende a soberania e o compromisso com os mais pobres, bandeiras que automaticamente estão alinhadas com a única candidatura de centro-esquerda deste pleito: a chapa Lula-Alckmin.
O vídeo mais contundente apresenta o arcebispo emérito de Aparecida, Dom Orlando Brandes, numa homilia na Basílica Nacional erguida em homenagem à Padroeira do Brasil. Ao falar sobre as eleições, Brandes pediu aos fiéis que escolham seus candidatos de acordo com a consciência, mas pensando no bem comum. O religioso ainda afirmou que nenhum poder estrangeiro deve interferir no país, numa clara referência à defesa da soberania nacional, ameaçada sobretudo por Donald Trump e sua aliança com líderes de direita na América Latina.
O sermão de Brandes torna-se ainda mais simbólico haja vista rumores de que, caso eleito presidente, Flávio Bolsonaro possa vir a atender uma reivindicação de setores evangélicos e retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. O ideal seria que vivêssemos em um Estado de fato laico, mas a religião tem forte apelo popular, sendo ilusório crer que ela não vai se projetar, de alguma maneira, no espaço público.
No caso de continuidade da expansão da proporção de evangélicos entre os brasileiros, cabe também perguntar se o país não consolidará uma transição cultural rumo a um conservadorismo ainda mais rígido em relação aos costumes. Não falo isso fazendo um juízo de valor a priori, qualificando tal fenômeno como bom ou ruim, mas é inevitável pensar se o Brasil continuará a ser “Brasil” caso a maioria religiosa do país deixe de ser católica.
Por exemplo, o Carnaval, não obstante as contribuições africanas para a festa-símbolo do país, é originário dos países onde a Igreja de Roma tem predominância. Não à toa, candidatos evangélicos no Rio de Janeiro criticam o uso de recursos públicos para os desfiles de escolas de samba e até mesmo a própria realização deles embora sejam inegáveis os ganhos para o turismo e, portanto, para a cidade e o estado.
A julgar pelo fato de que há também segmentos conservadores no catolicismo, pode-se esperar uma aliança desses segmentos com os evangélicos em prol de Flávio. Mas, em regiões mais pobres do país, a tendência é que o catolicismo ainda seja um bastião contra as injustiças perpetradas pela sociedade, que, ironicamente, surgiram com a colonização que trouxe justamente o cristianismo para o coração da formação do país.
Os eventuais interesses da Santa Sé no pleito brasileiro também se relacionam ao embate global que Leão XIV tem com Donald Trump. As críticas ao tratamento dispensado pelo principal nome da extrema direita global a migrantes, feitas pelo americano Robert Francis Prevost, que ocupa desde 2025 o trono de São Pedro, revelam uma oposição ideológica entre o Vaticano e a Casa Branca.
Por consequência, um domínio trumpista sobre a América Latina, região de maioria católica, também vai de encontro aos interesses da Igreja. O Brasil é o último pilar de resistência a Trump numa parte do mundo cuja potência principal — os Estados Unidos — são de maioria protestante em contraponto ao catolicismo exercido em boa parte dos territórios governados outrora por Portugal e Espanha. Se incluirmos o Hemisfério Ocidental como um todo, também fica claro o confronto religioso-ideológico no Canadá, que tem no Québec, sua maior província francófona, um bastião do catolicismo.
A aliança entre os direitistas latino-americanos e Trump não passa apenas por questões materiais, como o combate — ou suposto combate — ao crime organizado, que escamoteia ambições de tomar recursos naturais no âmbito de um novo imperialismo que quer transformar a América Latina em um protetorado dos EUA. Também temos aqui uma aliança cultural fundamentada na expansão evangélica pela América Latina, principalmente no Brasil, que ainda assim desfruta do status de maior país católico do mundo.
Dos estados mais desenvolvidos do país, aquele que possui maior concentração de católicos é Minas Gerais, uma síntese nacional em sua diversidade geográfica, cultural e econômica. Lula venceu Jair Bolsonaro por margem estreita em 2022. Se voltar a lograr isso contra o filho do golpista, será em grande parte devido aos católicos, que ainda são maioria absoluta em Minas.
Se a instituição, que já perdura há dois milênios — um quarto deles presente no Brasil —, vai derrotar Flávio Bolsonaro, não sabemos. Mas é uma reação que merece ser observada e que pode ser crucial, em uma eleição altamente disputada, para assegurar a vitória de Lula seja no primeiro turno, seja numa segunda volta cujo vencedor tende a ter margem mais estreita que os cerca de 2 milhões de votos que definiram o acirrado pleito de 2022.