Constitucional

Crise energética eleva ‘prêmio geopolítico’ da América Latina, diz economista da Universidade de Columbia

JOTA·
Crise energética eleva ‘prêmio geopolítico’ da América Latina, diz economista da Universidade de Columbia

A economista de energia da Universidade de Columbia e ex-presidente do conselho da Citgo Petroleum, Luisa Palacios, afirmou durante o JOTA Global, realizado em Nova York na quarta-feira (23/9), que a atual crise de segurança energética global pode elevar o valor geopolítico da América Latina, ao contrário do que se poderia supor à primeira vista. 

Para ela, a região está em posição privilegiada por não concentrar pontos de estrangulamento geopolítico significativos, algo que passou a pesar mais nas decisões de investidores. Isso favorece diretamente países da região. “Isso eleva o prêmio geopolítico sobre a América Latina de um jeito que eu não tenho certeza de que já tínhamos antes”, afirmou.

“Adoro essa discussão sobre pensar em geopolítica antes de tudo, porque isso significa que agora você precisa pensar em investimentos numa base ajustada pelo risco geopolítico”, disse, acrescentando que o Brasil, em particular, sempre foi por ela considerado uma potência energética.

Duração da crise economista importa

Questionada sobre os impactos da crise no Estreito de Ormuz para o cenário de transição energética, Palacios afirmou que o tempo de duração da crise é decisivo para como os agentes econômicos vão reagir. “Acho que permanência importa. Ou seja, o tempo que isso vai durar porque pode gerar uma grande mudança”, disse. Sendo assim, se a crise for entendida como algo que vai durar cerca de um ano, e não apenas seis meses, isso muda a forma como decisões de investimento e alocação de capital são tomadas nos sistemas de energia.

A economista lembrou que a região do Oriente Médio afetada pela crise é responsável por 20% da produção mundial de petróleo e 20% de gás natural, além de estar interligada às cadeias de suprimento de refino, petroquímicos e fertilizantes.

Transição energética também é uma desglobalização dos mercados

Palacios também discutiu a relação entre a atual fragmentação geopolítica e a aceleração da transição energética, defendendo que o processo de eletrificação em curso é, em certa medida, uma resposta à própria desglobalização dos mercados de energia. De acordo com ela, metade do petróleo produzido no mundo é comercializada internacionalmente, assim como 30% dos produtos refinados e 30% do gás natural, volumes que tendem a diminuir num cenário de fragmentação geopolítica.

A economista recorreu a exemplos históricos para argumentar que choques no fornecimento de energia costumam gerar políticas energéticas duradouras, citando o programa do etanol no Brasil e o impulso à energia nuclear, ambos surgidos como resposta às crises do petróleo da década de 1970. Essas ações fizeram o petróleo praticamente desaparecer da matriz elétrica desde então, ainda que continue com monopólio sobre o setor de transportes, o que torna a adoção de veículos elétricos especialmente relevante para países emergentes exportadores de petróleo bruto, mas importadores de combustíveis refinados, como é o caso da América Latina.

Políticas energéticas não podem mudar a cada eleição

Sobre os riscos de um cenário político mais polarizado na região afetar a atração de investimentos, Palacios defendeu que países latino-americanos precisam construir um mínimo de consenso em política energética que resista a mudanças de governo. “Tente encontrar um terreno comum num conjunto mínimo de políticas que não mudem a cada governo ou a cada eleição. Isso talvez as economias avançadas possam se dar ao luxo de não ter, mas a América Latina não pode se dar a esse luxo, em parte por causa do alto custo de capital”, afirmou, destacando que investimentos em energia costumam envolver grandes aportes de capital com retorno em horizontes de 5 a 20 anos.

Conheça o Estúdio JOTA, área de conteúdo multimídia sob demanda do JOTA

A economista também defendeu que os países da região precisam mudar a forma como se relacionam com seus recursos energéticos, tratando-os como fonte de desenvolvimento do setor privado, e não apenas como forma de renda extrativa. Ao ser questionada sobre o financiamento da transição energética, Palacios citou o Brasil como exemplo, destacando o papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a capacidade do país de atrair investimentos em energia limpa. “Sempre ensino sobre o Brasil, porque para mim é um laboratório climático de coisas que outros países do Sul Global podem aprender”, disse, acrescentando que o desafio atual não é apenas mobilizar mais capital, mas também desenvolver projetos viáveis financeiramente o suficiente para receber esses recursos.

Fragmentação geopolítica afeta consenso climático

No mesmo painel, o ex-diretor de Estratégia e Alinhamento da COP30, Túlio Andrade, discutiu como o cenário geopolítico atual afeta as negociações climáticas multilaterais. A fragmentação geopolítica, na visão dele, compromete a capacidade de tomada de decisão por consenso nas negociações, mas, ao mesmo tempo, acelera a transição energética em diferentes regiões, especialmente no Sul Global. Esses países, apontou Andrade, estão “pulando etapas” na transição, ao perceberem que segurança energética, custo baixo e sustentabilidade deixaram de ser objetivos conflitantes e passaram a convergir nas fontes renováveis.

Ele afirmou que, apesar da dificuldade crescente para gerar ambição climática global, houve avanço em um ponto específico. “Houve um reconhecimento consensual, por quase 200 países, de que a transição para uma economia de baixo carbono é irreversível”, disse. O desafio atual das negociações climáticas passou a ser estabelecer diretrizes internacionais flexíveis o suficiente para respeitar as particularidades de cada país e comunidade, em vez de impor um caminho único.

Sobre os riscos de ultrapassar a meta de 1,5°C de aquecimento global, Andrade afirmou que o mundo está apenas no início da aceleração das mudanças climáticas, e que os efeitos de eventos climáticos extremos e possíveis pontos de colapso de sistemas ambientais tendem a se intensificar. Isso exige que empresas e governos adotem uma lógica de resiliência e redundância, abandonando o modelo de produção just in time (que minimiza estoques e produz sob demanda) em favor de um modelo just in case (que mantém reservas e capacidade extra para lidar com imprevistos).

O JOTA Global teve realização do JOTA, com patrocínio de ApexBrasil, DLA Piper e Vale, suporte especial do Einstein Hospital Israelita e parceria institucional da Dinâmica.