Interferência do Judiciário na reta final da eleição contribui para radicalizar discurso bolsonarista

Nesta reta final, a abstenção tornou-se uma preocupação das duas principais campanhas – a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) –, cientes do desânimo dos eleitores, quadro que pode ser agravado toda vez que o Supremo Tribunal Federal (STF) dá uma decisão cujas consequências ampliam o sentimento de crise institucional.
O episódio do cancelamento do debate da TV Globo favorece o discurso antissistema de Flávio Bolsonaro e, ainda que não saibamos as repercussões eleitorais disso, as institucionais começam a se desenhar.
Há dois cenários possíveis e, em ambos desfechos, está cada vez mais claro o acirramento do quadro político.
Primeiro cenário
Num primeiro, o petista ganha, como indicam as pesquisas, e o senador pode não reconhecer o resultado eleitoral. Seria a segunda vez que uma liderança política detentora de 50 milhões de votos desafia o respeito às urnas e questiona sua legitimidade. Flávio não é Jair, mas é um Bolsonaro. E quem está atento ao discurso já percebe uma guinada no que bolsonaristas têm dito recentemente.
Nas últimas semanas, aliados do senador já vêm intensificando as acusações de que o Judiciário quer fazer Lula ganhar no “tapetão”. O mesmo termo foi utilizado por ele na noite de quinta, após as interferências do Judiciário no debate da TV Globo.
A ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que a emissora não poderia transmitir o púlpito vazio de Lula, e o ministro Gilmar Mendes, do STF, decidiu pela participação de Renan Santos (Missão), único na direita disposto a criticar Flávio, no confronto de candidatos.
Lula já havia se negado a debater com quem tem 1% de intenção de voto, como ele disse, e concedeu entrevista para o podcast Flow. Bom lembrar que há quatro anos ele esteve na emissora, ao lado inclusive de Padre Kelmon (que virou meme como “padre de festa junina”, nas palavras de Soraya Thronicke), no último debate do 1º turno da Globo que bateu recordes de audiência.
O debate de ontem foi cancelado pela emissora, mas antes Flávio também havia negado participação, depois das decisões. Oficialmente, o discurso é de interferência do Judiciário. Mas também pesou no cálculo a participação de Renan, com potencial de virar vidraça nas telas.
As decisões do TSE e do STF fizeram o bolsonarismo resgatar termos do discurso antissistema, e Flávio conclamou por um “voto de protesto”, de “revolta inteligente” nele mesmo contra o tal sistema.
“Vamos resolver eleições agora neste domingo. Se você estava pensando em não votar, que não era tão importante, olha a gravidade do que está acontecendo. A única chance de o Brasil voltar a ter democracia é com Flávio Bolsonaro”, disse o presidenciável em uma live feita às pressas após a Globo cancelar o debate.
A fadiga do eleitorado hoje é maior do que em 2022, isso é claro. Mas o discurso de guerra com o STF tem alcance limitado e não ajudou o pai a se eleger a quatro anos atrás.
Pode haver, contudo, uma outra consequência para a democracia: o risco de um candidato detentor de tantos votos não reconhecer o resultado eleitoral – e as decisões do Supremo sem precedentes ajudam na narrativa de desequilíbrio.
Segundo cenário
No segundo cenário, Flávio é eleito. Um novo governo bolsonarista estaria legitimado pelas urnas para implementar mudanças e reformas do que quiser. No Judiciário, ele conta com cinco das onze vagas para a Corte. Cinco, porque o senador já dá como certo o impeachment do ministro Alexandre de Moraes.
Nas últimas semanas, o coordenador de campanha do presidenciável do PL, Rogério Marinho, tem feito visita a ministros da Corte – com exceção de Moraes e Flávio Dino, quer conversar com todos. Mais recentemente, esteve com Cristiano Zanin e Dias Toffoli. O discurso é de que Flávio não quer implodir a instituição, mas não há recomposição possível com Moraes. É difícil enxergar um cenário em que o bolsonarismo não busque por uma vingança da Corte. Diante disso, o quadro pós-eleição fica cada vez mais desalentador.