De Lula a Flávio Bolsonaro, soberania ganha peso inédito na eleição e vira conceito em disputa

A defesa da soberania tornou-se uma marca da campanha de Lula (PT) à reeleição. O presidente associa o conceito à autonomia do país diante das pressões do governo de Donald Trump. Seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL), usa a mesma palavra para falar sobre o combate às facções criminosas e controle das fronteiras. Augusto Cury (Avante), que tem ganhado espaço nas pesquisas como principal alternativa aos dois, relaciona soberania a tecnologia e industrialização como formas de reduzir a dependência externa.
A palavra entrou no vocabulário da disputa presidencial de 2026. O termo aparece nos planos de governo dos seis candidatos que pontuaram nas últimas pesquisas eleitorais. Lula, Flávio, Cury, Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) mencionam a soberania ao menos uma vez em seus programas. A força do tema entre os presidenciáveis, porém, não encontra necessariamente correspondência nas prioridades do eleitor.
A presença do tema é incomum. Para o especialista em ciência política e relações internacionais Maurício Santoro, colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha, questões ligadas à soberania ganharam espaço atípico na campanha deste ano.
“O fato de que a soberania entrou em discussão e virou um tema importante, tanto no plano do Flávio Bolsonaro quanto do Lula, é uma coisa muito relevante. Essa é a nossa primeira eleição, desde a redemocratização, em que esse tema aparece com essa força e destaque”, afirma Santoro.
O embaixador Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos e no Reino Unido, também considera inédita a presença de temas de política externa na campanha presidencial, mas é cético sobre a capacidade de a discussão influenciar o voto. Para ele, questões domésticas devem pesar mais na decisão do eleitor.
“O eleitorado está preocupado com o bolso, com o preço da comida, o preço do transporte. É com isso que a maioria do eleitorado está preocupado. Acredito que esta discussão sobre soberania vai gerar pouco impacto na campanha eleitoral”, afirma.
A centralidade da soberania, porém, varia entre os programas. A palavra aparece 31 vezes no plano de Lula; 28 no de Caiado; 21 no de Renan Santos; 12 no de Flávio Bolsonaro; sete no de Cury; e apenas uma vez no de Zema, que também menciona uma diplomacia “soberana”.
A coincidência de vocabulário esconde diferenças de conteúdo. Os candidatos atribuem sentidos distintos à soberania e ao papel que o Brasil deve ocupar no cenário internacional.
Para Lula, soberania significa sobretudo autonomia decisória e redução de dependências estratégicas, da saúde à tecnologia. Flávio Bolsonaro concentra o conceito na segurança pública – tema com o qual tenta se destacar entre o eleitorado –, especialmente no combate ao crime organizado. Caiado também relaciona soberania à defesa do território diante da atuação de facções criminosas.
Renan Santos associa soberania à capacidade de exercer e projetar poder regionalmente e propõe que o Brasil atue como “árbitro do Sul Global”. Cury enfatiza tecnologia, indústria e competitividade. Zema adota uma concepção mais restrita, ligada à liberdade de decisão, enquanto prioriza a abertura econômica e a “aproximação com democracias” na política externa.
Lula: de remédios a semicondutores
É no plano de Lula que o conceito de soberania ganha sua formulação mais abrangente. Sob a premissa de que “não há desenvolvimento sem soberania”, o programa aplica a ideia a diferentes dimensões: democrática, institucional, geopolítica, científica, tecnológica, digital, energética, mineral, ambiental, cultural, econômica, financeira, alimentar, educacional e sanitária.
Na saúde, Lula propõe fortalecer o Complexo Econômico-Industrial da Saúde e ampliar a produção nacional de medicamentos, vacinas e insumos, com iniciativas como a Hemobrás e a fabricação de insulina. Na área digital, prevê criar um Conselho Nacional pela Soberania Digital, manter infraestruturas críticas sob as leis brasileiras, proteger dados e ampliar a atuação do país na governança internacional da inteligência artificial.
A lógica se estende aos minerais críticos. O programa defende o beneficiamento e a agregação de valor no Brasil, posição que Lula também tem defendido em falas durante eventos do governo.


A professora de Relações Internacionais Cristina Pecequilo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), considera que a transversalidade é um dos méritos do programa. Segundo ela, a proposta do atual presidente permite “visualizar qual é a implicação, para cada setor, para cada agenda, do que é ter uma postura soberana”.
Na comparação com os demais planos, Pecequilo considera que o programa de Lula trata a soberania de forma mais “concreta, real e pragmática”.
“Nos demais planos, a soberania é percebida como um mero acessório, até uma espécie de moeda de troca diante de parceiros. Ou seja, soberania no sentido político da palavra, é apenas presente no plano de Lula”, diz.
A palavra não é nova no léxico lulista. A política externa costuma ocupar espaço nos planos de governo do PT. Lula já recorria ao conceito em 2002, quando venceu sua primeira eleição presidencial. Naquele ano, o programa também defendia “resgatar o Mercosul” e priorizar exportações.
“A população exige que recuperemos a soberania para decidir de modo autônomo a política econômica e os destinos do país”, afirmava há quase 25 anos.
Apesar desse histórico, Santoro relaciona a ênfase atual aos conflitos políticos e comerciais recentes entre Brasil e Estados Unidos.
“Nitidamente, Lula se coloca como o defensor da soberania brasileira frente aos conflitos que o Brasil tem vivido com os Estados Unidos. Isso virou um eixo condutor fundamental desse novo plano de governo da campanha de reeleição do presidente”, afirma.
A conjuntura internacional também ajuda a explicar por que a defesa da soberania ganhou novo peso no debate político. Para Celso Figueiredo, professor de comércio exterior da FGV e sócio do escritório Barral Parente Pinheiro, as relações internacionais atravessam uma mudança de paradigma.
Figueiredo aponta Donald Trump como personagem central dessa transformação e remonta ao primeiro mandato do republicano o avanço de uma política externa americana menos comprometida com o multilateralismo.
“A partir do momento em que os países começaram, muito em função dos Estados Unidos, a quebrar com essa perspectiva mais globalista em função inclusive do primeiro governo Trump, que não foi revertida pelo governo Biden, essa tendência se consolidou”, diz.
Flávio: Soberania é segurança pública
Flávio Bolsonaro se associa ao termo por outro caminho. Ele recorre principalmente à ideia de segurança do território e combate ao crime organizado. “A soberania começa na porta da sua casa”. É como o plano de governo apresenta o conceito.
O candidato propõe classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e outras facções como organizações narcoterroristas e combatê-las com inteligência e asfixia financeira.
Fora do programa, Flávio foi além: pediu a Trump que os Estados Unidos classificassem PCC e CV como organizações terroristas e defendeu a adesão do Brasil ao Escudo das Américas, coalizão lançada pelo governo americano para ações contra o narcotráfico.


Santoro avalia que o uso da expressão “organizações narcoterroristas”, também adotada pelo governo dos Estados Unidos, aproxima a proposta de Flávio da política americana de combate ao crime organizado na América Latina. “Tem ali um alinhamento político-diplomático com toda essa agenda que o Trump vem implementando”, afirma.
A segurança pública é uma bandeira histórica da família Bolsonaro e uma área explorada pela oposição na disputa com Lula. Santoro avalia que associar soberania ao crime organizado permite aos Bolsonaro disputar o conceito sem se concentrar nas controvérsias comerciais com Washington.
Para Figueiredo, a associação entre segurança pública e soberania faz sentido, e a cooperação internacional é necessária para alcançar recursos, integrantes e estruturas criminosas fora da jurisdição brasileira. Ele ressalva, porém, que a participação estrangeira deve ter limites, já que a capacidade de combater o crime no próprio território é também uma demonstração de soberania.
“Se o Brasil, de fato, se entender soberano a ponto de defender o seu próprio território e as pessoas que estão dentro dele, ele não deveria depender de nenhuma nação estrangeira para acabar com o crime organizado.”
Figueiredo também vê riscos na tentativa de obter dos Estados Unidos a classificação das facções brasileiras como organizações terroristas. Para ele, a medida poderia ampliar a ingerência americana sobre uma questão interna e significar que o Brasil estaria “abrindo mão de parte da sua soberania” no tratamento do tema.
Flávio não é o único a associar crime organizado e soberania. A relação também aparece nos programas de Renan Santos e Ronaldo Caiado.
Caiado parte do diagnóstico de que, onde facções e milícias substituem o poder público, “a soberania do Estado e a liberdade do cidadão desaparecem”. Seu programa propõe criar sistemas integrados de proteção da soberania, com controle de fronteiras, combate ao terrorismo doméstico e inteligência criminal.
O plano prevê ainda “zonas prioritárias de recuperação da soberania”, inicialmente concentradas na Amazônia, e o emprego das Forças Armadas contra organizações classificadas como terroristas domésticas sem necessidade de acionamento da Garantia da Lei e da Ordem (GLO). No plano regional, Caiado propõe criar a SULPOL, agência sul-americana permanente de cooperação policial para combate ao tráfico.

O programa de Renan Santos propõe um Pacto Interamericano contra o crime organizado, liderado pelo Brasil, com coordenação militar, policial e diplomática, um centro regional de operações e um tribunal internacional especializado em criminalidade transnacional.
Cury também aborda o tema, embora com menor centralidade. Seu programa prevê cooperação internacional contra tráfico de drogas e armas, lavagem de dinheiro, terrorismo e organizações criminosas.
Lula também inclui segurança de fronteiras e combate a crimes transnacionais em sua concepção de soberania, mas não faz do crime organizado o núcleo do conceito. Seu programa propõe ampliar a cooperação policial, ambiental e militar com países amazônicos, fortalecer a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) e integrar inteligência e monitoramento de fronteiras.
Santoro chama atenção especialmente para esse ponto. Segundo ele, a importância dada à defesa diferencia o programa atual das plataformas anteriores de Lula, em que o assunto não era tão detalhado.
O professor considera também que há um contraste significativo em relação ao programa de Flávio. Embora a família Bolsonaro tenha ligação histórica com as Forças Armadas e os militares tenham ocupado posição de destaque no governo Jair Bolsonaro, o professor avalia que a defesa recebe menos espaço na plataforma do senador.
“No programa do Flávio Bolsonaro, o tema da Defesa aparece de uma maneira muito superficial, de passagem, genérica”, afirma. “Já no plano do Lula, há um destaque muito maior. É colocado ali como uma prioridade.”
BRICS e lugar do Brasil no mundo
Os BRICS expõem outra divergência entre os candidatos. Criado originalmente por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, o grupo foi posteriormente ampliado com a entrada de outros países emergentes.
Lula propõe aprofundar a participação brasileira nos BRICS e fortalecer seus mecanismos políticos e financeiros. Defende um novo sistema financeiro internacional e mecanismos alternativos de pagamento entre integrantes do bloco para reduzir a dependência do dólar. Em seu programa, os BRICS integram uma estratégia mais ampla de aproximação com o Sul Global.
Flávio Bolsonaro não menciona os BRICS. Sua política externa prioriza a diplomacia econômica e a reaproximação política com parceiros considerados tradicionais, citando Estados Unidos e Israel, embora o programa também defenda relações comerciais com China, Europa e Ásia.
Renan Santos afirma que atuará nos BRICS para evitar que o Brasil seja “subordinado aos objetivos geopolíticos de Pequim”. Ao mesmo tempo, propõe posicionar o país como potência regional e “árbitro do Sul Global”.
Zema, por sua vez, propõe retirar o Brasil dos BRICS. A saída ocorreria de forma diplomática e sem rompimento das relações comerciais bilaterais com China, Índia, Rússia e os demais integrantes.

Especialistas afirmam que uma eventual saída seria juridicamente simples, já que não precisaria passar pelo Congresso Nacional, por exemplo. Mas poderia ser mal recebida por integrantes do bloco e provocar pressões econômicas, especialmente da China.
O professor Maurício Santoro considera pouco viável reduzir substancialmente os vínculos econômicos com Pequim. Para o professor, o peso econômico adquirido pela China na América Latina limita a capacidade dos governos da região de optar por Washington em detrimento de Pequim.
Barbosa também considera inviável tratar a relação com China e Estados Unidos como uma escolha excludente. Para o embaixador, o Brasil deve preservar a capacidade de se posicionar caso a caso, de acordo com seus próprios interesses.
“Você pode apoiar a China algumas vezes, pode apoiar os Estados Unidos em outras vezes. Nós temos que ter uma posição de defesa do nosso interesse à luz desse cenário novo que coloca a China e os Estados Unidos como duas superpotências, como áreas de influência”, afirma.

Pecequilo afirma que as propostas de Renan e Zema subestimam as implicações práticas da participação nos BRICS e refletem, em sua avaliação, uma dificuldade da política brasileira em discutir relações internacionais em profundidade.
“As falas destes candidatos sobre os BRICS são mais peça de campanha do que realidade e tentam ‘jogar para a plateia’. A China, e os demais países dos BRICS, são parceiros fundamentais do Brasil e qualquer fala ou ação que prejudique o grupo é contraproducente até do ponto de vista econômico”, afirma.
Caiado defende a permanência do Brasil nos BRICS sem buscar protagonismo, usando o grupo para influenciar decisões e participar da formulação de regras internacionais. Cury não apresenta estratégia específica para o bloco e propõe, de forma mais ampla, uma política externa baseada no multilateralismo, na cooperação Sul-Sul e na diversificação de mercados.
As diferenças de propostas também aparecem nos fóruns priorizados pelos candidatos. Enquanto os BRICS têm papel relevante na estratégia de Lula, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) ganha espaço nos programas à direita.
Zema propõe retomar o processo de ingresso do Brasil na OCDE e trata a adesão como âncora para reformas econômicas e institucionais. Flávio também defende a adesão, além de abertura de mercados, atração de investimentos e internacionalização de empresas brasileiras. Seu programa cita especificamente a aproximação com Estados Unidos, Israel e Argentina. Caiado fala em retomar a aproximação com a OCDE “com pragmatismo”.
A OCDE não recebe destaque nos programas de Renan e Lula. O petista prioriza o Mercosul e a integração sul-americana. Cury segue orientação semelhante.


Entre campanha e governo
As propostas mais taxativas de política externa enfrentariam, se levadas ao governo, relações econômicas e diplomáticas difíceis de reorganizar rapidamente. Para os especialistas ouvidos pela reportagem, a China é o exemplo mais evidente desse limite.
O professor Celso Figueiredo avalia que parte das propostas funciona mais como sinalização ao eleitorado do que como indicação do que seria feito no governo. Para ele, os programas não explicam suficientemente como pretendem alterar, na prática, as relações do Brasil com outros países.
O embaixador Rubens Barbosa considera que o desafio para o próximo governo é mais amplo do que as escolhas tradicionais de política externa. O embaixador usa o conceito de “inserção externa” para incluir nessa estratégia temas econômicos e regulatórios que afetam a posição do Brasil no mundo, como minerais críticos, infraestrutura digital, logística, comércio e atração de investimentos.
“O Brasil tem três áreas em que nós temos uma voz forte no mundo: a questão da transição energética, a segurança alimentar e os minérios estratégicos. A gente tem que ter uma política sobre isso”, afirma.
Na avaliação do embaixador, os programas ainda não respondem suficientemente à mudança do cenário internacional: “Nenhuma das campanhas focalizou essa visão de que mudou o mundo e que você tem que se colocar de maneira diferente para aproveitar as oportunidades que estão aparecendo e diminuir os riscos que estão aumentando.”
No caso dos minerais críticos, Barbosa defende que o Brasil avance no beneficiamento doméstico, mas afirma que a estratégia depende também de regras claras e capacidade de atrair investimentos para o setor.
Há ainda o peso político do assunto no voto. Embora os temas internacionais tenham conquistado espaço incomum na campanha de 2026, historicamente ocupam posição secundária nas eleições presidenciais brasileiras.
“O que as pessoas gostariam de ter agora é uma conversa mais aprofundada sobre alguns aspectos da economia, particularmente a questão do endividamento das famílias, juros muito altos, bets”, diz Maurício Santoro.