Guerra de facções transborda STF e expõe ameaças à soberania

Há uma guerra de facções no Estado brasileiro e o seu sintoma mais evidente é o conflito aberto no Supremo Tribunal Federal (STF) entre o ministro André Mendonça, prócere do bolsonarismo, e seu colega Alexandre de Moraes, talvez não defensor da democracia mas de si mesmo, encrencado no escândalo do Banco Master. Moraes perdeu aura de defensor da legalidade entre eleitores mais centristas. Seja culpado de algum crime ou inocente, o fato é que o ministro arrasta Lula para longe de um eventual quarto mandato.
Para não cair no erro de tratar essas duas facções como equivalentes entre si, é necessário voltar no tempo e lembrar que, em julho de 2025, quando houve a imposição de sanções contra ministros do STF por parte do governo Donald Trump, foram ignorados por aquele que se pretende imperador do mundo Mendonça, Nunes Marques (também indicado pelo golpista Jair Bolsonaro) e Luiz Fux, que, em setembro do mesmo ano, aderiu às teses que aliviam a interpretação mais grave dos eventos de 8 de janeiro de 2023.
São esses os ministros da 2ª Turma do STF que endossaram a decisão de Mendonça, publicada nesta terça-feira (8/9), de afastar Andrei Rodrigues do cargo de diretor-geral da Polícia Federal, sob a alegação de ele ter monitorado aquele ministro. Diante desse cenário, cabe perguntar se vossas excelências estão envolvidas em algo que os patriotas americanos chamariam de collusion, ou seja, uma aliança espúria com forças exteriores não apenas para eleger um político de sua preferência — no caso o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato da extrema direita —, mas para promover ataques à soberania nacional.
Não é segredo para ninguém que Trump prefere ter no Planalto um político à direita a Lula. Fala-se agora na possibilidade de o presidente-candidato-à-reeleição convocar o Conselho da República, que é ouvido quando há a possibilidade de decretação do estado de defesa ou de sítio. Não ouso colocar palavras na boca do presidente da República, mas, na qualidade de cidadão comum, é inevitável olhar retroativamente e questionar se tal convocação não deveria ter ocorrido quando as sanções supracitadas foram aplicadas ou até mesmo antes, à época em que Eduardo “Bananinha” Bolsonaro, então deputado federal, fugiu para os EUA alegando perseguição política e passou a investir em atos típicos de guerra contra o país, em clara coordenação com seu agora irmão-presidenciável.
As eventuais implicações de Moraes no caso Master são árvores dentro de uma floresta maior que pega fogo. O nome dessa floresta não é sequer democracia, embora essa seja uma das áreas em chamas. A mata densa sob perigo é soberania nacional.
Conscientemente ou não, Mendonça se converteu em peça chave de um processo que, ao expor apenas indícios de malfeitos de figuras próximas a Lula, pode colocar na presidência da República alguém como Flávio Bolsonaro, que, na prática já prometeu alinhamento automático a uma força externa (no caso os EUA), sinalizando para com a entrega de riquezas cruciais para o nosso desenvolvimento, como é o caso dos minerais terras raras, renunciando, assim, a qualquer noção de soberania estratégica, o que no contexto atual equivale renunciar à própria soberania.
A direita tem tantos outros candidatos além do bolsonarismo vende pátria. Não seria exagero se, com a condenação de Jair e demais golpistas, a extrema direita tivesse sido proibida tal e qual muitos propõem fazer na Alemanha com o partido AfD, herdeiro do nazismo que venceu um pleito estadual naquele país no último fim de semana.
Se tivesse sido convocado em julho de 2025, portanto, talvez o Conselho da República tivesse tido a sagacidade e legitimidade de aconselhar o chefe de Estado a buscar extirpar o bolsonarismo da vida política nacional. Não será durante as eleições, com um candidato competitivo desse campo, que isso será feito.
A tarefa se tornou hercúlea e passa pelo convencimento dos centristas que um governo Flávio Bolsonaro será infinitamente pior que Lula 4. Qualquer proposta de barrar o golpismo bolsonarista neste contexto, via proposta de estado de defesa ou de sítio, viraria desculpa para desacreditar o processo eleitoral e levaria o embate entre facções a uma guerra civil na sociedade.
Porém, soa irrealista acreditar que Mendonça e outros suspeitos de serem quintas-colunas (Flávio Bolsonaro inclusive) vão aceitar um acordo de cavalheiros para apaziguar os ânimos e deixar o ciclo eleitoral correr sem vazamentos seletivos. Nada relacionado ao caso Master terá credibilidade completa se não expor as entranhas do financiamento provido por Daniel Vorcaro ao filme Dark Horse, a biografia endeusada de Jair que, tudo indica, serviu para lavar dinheiro e sustentar Eduardo Bolsonaro desde que passou a apostar contra o Brasil.
Quaisquer que tenham sido os eventuais erros de Moraes, suas ações contra o bolsonarismo estão muito mais leais à Constituição e fundamento anterior à democracia: a própria soberania que delimita o que deveria ser óbvio — assuntos internos ao Brasil não devem contar com interferência externa. Sejamos adultos — resolvamos nossos próprios problemas internamente.
Mais do que potencial corrupção, deveria atormentar os centristas que segundo as últimas pesquisas pendem para Flávio Bolsonaro o fato de a manifestação-comício por ele liderada em 7 de setembro na avenida Paulista, com um público de quase 34 mil pessoas, contou com um boneco em que Trump pegava Lula vestido de presidiário. Virar colônia dos EUA não resolverá nossos problemas — apenas tende a agravá-los. República e democracia são palavras vazias sem soberania de fato e de direito.
Lula, como Moraes ou qualquer um de nós, pode um dia ainda ter mais contas a acertar com a Justiça — desde que seja o judiciário pátrio, cujo peso da lei deveria ser exercido exclusivamente dentro dos marcos da nossa soberania e Constituição. Flertar com a ideia de que um chefe de Estado — seja ele de esquerda ou direita — tenha o mesmo destino do ditador Nicolás Maduro deveria causar asco aos minimamente preocupados com a coisa pública.
Revolta-me que um banqueiro corrupto tenha comprado parte da República, mas esta só sobreviverá se houver soberania, hoje apunhalada à luz do dia por falsos patriotas. Gritam pega ladrão enquanto nos roubam o mais importante para um ser humano: a dignidade. No concerto das nações, somente é possível dar-se ao mínimo respeito com o devido repúdio à intervenção externa e nada mais. No entanto, caminhamos rumo ao cadafalso de sermos um grande Porto Rico.