JOTA Principal | No Dia do Fui, Flávio Bolsonaro se equipara a Rui Barbosa enquanto é investigado por lavagem de dinheiro

O candidato derrotado nas eleições presidenciais, Flávio Bolsonaro, se autoproclamou “presidente eleito” após fugir para os Estados Unidos em meio a investigações que apuram a participação dele em fraudes e lavagem de dinheiro.
O Tribunal Superior Eleitoral, partidos políticos e até aliados do senador se manifestaram em defesa do resultado eleitoral. Leia mais.
Além do inquérito sobre os repasses do Master supostamente para financiar o filme Dark Horse, há também a investigação sobre a relação de Flávio e Willer Tomaz, que aponta movimentação atípica de R$ 130 milhões em um curto espaço de tempo em contas ligadas ao advogado.
O relatório de 84 páginas apresentado pela Polícia Federal — baseado em dados do celular do advogado, relatórios do Coaf e documentos de tribunais — traz indícios da possível ligação de Flávio com um esquema financeiro irregular montado por Willer, Flávia Maia escreve no JOTA.
Na carta divulgada ontem (28), o filho mais velho de Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar após ser condenado por tentativa de golpe de Estado, se equipara a figuras da estatura de Rui Barbosa e Charles de Gaulle, sinal de devaneio, desonestidade ou ambos.
A carta golpista e o posicionamento dos bolsonaristas daqui em diante podem separar o joio do trigo na direita, Marianna Holanda escreve na nota de abertura.
Paula Bonelli colaborou nesta edição.
Boa leitura.
O PONTO CENTRAL
1. Dia do Fui
Aliados do senador Flávio Bolsonaro receberam com espanto e perplexidade a carta do candidato derrotado, Marianna Holanda escreve no JOTA PRO Poder.
- Mesmo o recuo publicado depois nas redes, em que troca o termo “presidente eleito” por “líder”, será difícil de justificar para parte dos parlamentares e integrantes de sua campanha que continuam no Brasil.
- Uma ala de correligionários busca relativizar a fuga e diz que ele pode tentar liderar a oposição dos Estados Unidos, como propõe.
- Na prática, porém, esses aliados admitem em reservado que o posicionamento atrapalha a oposição no país — que, ao menos institucionalmente, não embarcou no questionamento ao resultado eleitoral.
Por que importa: A carta golpista e o posicionamento dos bolsonaristas daqui em diante podem separar o joio do trigo na direita.
- Há quem veja uma oportunidade para começar o processo de emancipação política em relação à família Bolsonaro, mas esses integrantes da direita sabem que o distanciamento deve ser lento, gradual e seguro.
- Se for abrupto, pode implodir de vez o grupo político que elegeu 121 deputados e 19 senadores.
- Quem ficou no Brasil sabe que não existe isso de liderar dos Estados Unidos, muito menos de se autoproclamar presidente.
- O radicalismo ficará restrito a alguns poucos deputados do PL.
A maioria sabe que o vácuo terá de ser ocupado por alguém, e Tarcísio de Freitas (Republicanos) já levantou a mão — mas precisará se desvencilhar da armadilha posta pelos bolsonaristas nos Estados Unidos.
🔖 Leia também:
- PF diz que restrição de viagem não torna Flávio Bolsonaro foragido e que não cabia a ela vigiá-lo
- Nunes Marques dá 10 dias para PGR apresentar parecer em nova revisão criminal de Jair Bolsonaro
UMA MENSAGEM DO JOTA
Pauta digital volta como prioridade do Executivo

Projetos da agenda digital devem iniciar o ano como prioridades do quarto mandato de Lula (PT), segundo análise do JOTA PRO Tecnologia. A expectativa é de um mandato mais organizado e empenhado em regular o ecossistema digital, com apostas na criação de uma secretaria própria para o tema, subordinada à Presidência.
No Congresso, o cenário é dividido. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), trabalha pela reeleição e manifesta a aliados interesse em avançar na regulação digital. Por outro lado, o bolsonarismo registrou avanços sobre o Centrão, sobretudo no Senado, o que tende a dificultar a aprovação de projetos voltados à regulação de plataformas.
Para acompanhar essa agenda, o JOTA PRO Tecnologia realiza um webinar gratuito nesta sexta-feira (30), às 11h. O evento é exclusivo para empresas, e tem vagas limitadas e sujeitas à aprovação.
2. Espectro

Com a vitória de Lula e a fuga de Flávio Bolsonaro, o governo brasileiro se prepara para negociar novas bases para a relação bilateral com Washington, Vivian Oswald escreve no JOTA PRO Poder.
- A aposta é que ainda há espaço para construir uma relação pragmática, mas a dimensão dessa abertura só ficará mais clara após as eleições de meio de mandato americanas, marcadas para a próxima terça (3).
🌡️ Panorama: A avaliação no Planalto é de que será necessário esperar os dois países passarem por um “reajuste de forças”, como define uma fonte do governo, antes de recalibrar a relação.
- O resultado das eleições americanas será um termômetro do que está por vir.
O espaço para o pragmatismo dependerá de uma série de variáveis, tanto no Brasil como nos Estados Unidos.
- Entre as questões que o governo brasileiro busca esclarecer estão o grau de apoio de Washington a Flávio Bolsonaro e a postura que os americanos pretendem adotar em relação ao Brasil daqui para frente.
- Se Trump perder suas maiorias no Senado e na Câmara, terá mais dificuldades no cenário doméstico.
- O entendimento do governo brasileiro é que, descontado o componente ideológico que marca a relação, não há divergências insuperáveis entre os dois países.
- A leitura é que a vitória de Lula por uma margem de 4,4 milhões de votos reforça a legitimidade do presidente e de seu governo, além de reduzir o espaço para interferências americanas ou questionamentos ao resultado eleitoral.
- A eleição brasileira representou uma derrota para a ala mais ideológica da Casa Branca.
As declarações de Trump até aqui deixam portas abertas.
- A primeira manifestação, feita no dia seguinte à eleição brasileira, pareceu confusa, mas é vista no governo como uma fala calculada.
- O presidente americano afirmou que nunca havia apoiado um ou outro candidato e disse gostar de Lula, mas também mencionou a palavra “fraude” — havia, portanto, mensagens para diferentes públicos.
- Ontem (28), Trump evitou endossar a declaração de Flávio Bolsonaro de que seria o verdadeiro presidente eleito do Brasil.
- “Não vou comentar isso. Nós demos a ele uma autorização para entrar no país. Mas não vou me envolver.”
- O americano, contudo, voltou a questionar a eleição brasileira, classificando-a como “muito estranha”, e disse considerar que Flávio foi tratado injustamente.
No Planalto, a posição é que os investimentos americanos são bem-vindos, inclusive no setor de minerais críticos, desde que não ultrapassem as linhas vermelhas estabelecidas pelo Brasil.
- “Não há preconceito nenhum na relação com os Estados Unidos, mas o Brasil não vai abandonar sua política externa universal, sua relação com os Brics, com a Índia, com a China, com a Europa, por conta de qualquer tipo de pressão norte-americana”, disse ao JOTA um interlocutor do alto escalão do governo.
- “Acho que as condições estão dadas.”
🔮 O que observar: A relação entre Brasil e Estados Unidos está longe de ser considerada normal e há uma série de pontos de atrito a serem contornados, para além do tarifaço.
- Um deles é a indicação do deputado americano Daniel Perez para ser embaixador no Brasil.
- O governo brasileiro ainda precisa decidir se concede o agrément, autorização necessária para que ele assuma o posto, e a decisão foi adiada durante o período eleitoral.
- Há também a situação da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, cujo visto de residência teve seu status alterado abruptamente há alguns meses, deixando de permitir múltiplas entradas nos Estados Unidos.
- Por enquanto, não há pedidos de encontros nem reuniões entre os dois governos.
O momento é de decantação, enquanto ambos avaliam o novo cenário político, mas existe a possibilidade de um encontro entre Lula e Trump ainda neste ano.
- O presidente brasileiro reeleito tem previsão de participar da cúpula de líderes do G20, marcada para os dias 14 e 15 de dezembro, na Flórida.
3. Caminho natural

A Polícia Federal indiciou Daniel Vorcaro e mais 14 pessoas por fraudes no Banco Master, Flávia Maia e Lucas Mendes registram no JOTA.
🔭 Panorama: Entre os acusados também estão o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o ex-sócio do banqueiro Augusto Lima.
- O relatório policial foi enviado à PGR, responsável por decidir se apresenta denúncia.
- Políticos citados na investigação, como os senadores Ciro Nogueira, Jaques Wagner e Flávio Bolsonaro, além do pai de Vorcaro e de servidores do Banco Central, não estão entre os indiciados nesta etapa.
- A PF pediu mais 60 dias para concluir a perícia da investigação sobre o Master.
- No STF, o processo sob relatoria de André Mendonça segue suspenso por ordem de Edson Fachin, que estuda se mantém o caso com o ministro ou na presidência.
O Master criou carteiras de crédito consignado fraudulentas e as vendeu ao BRB, apontou o relatório da PF.
- Quando o Banco Central e o BRB passaram a exigir prova da origem, a Tirreno, empresa de fachada, foi usada para tentar disfarçar a ausência de liquidez dos títulos.
- Para sustentar a operação também falsificou contratos em massa e comprou créditos inadimplidos do BRB para gerar “espaço regulatório”, transferindo os prejuízos ao banco público.
4. Freio

Hugo Motta declarou ontem (28), após reunião com líderes partidários, que colocará para votação a PEC do voto distrital misto, Mariah Aquino informa no JOTA.
- A articulação por esta mudança começou a ser feita por lideranças do centrão logo depois do primeiro turno das eleições de 2026.
- A medida é uma forma de tentar barrar puxadores de votos nas redes, como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanatto.
- Domingos Neto deve ser o relator da proposta.
⏩ Pela frente: Segundo Motta, a ideia é adotar o novo modelo em 2034, com uma transição em 2030 limitada a cargos proporcionais para facilitar a aprovação no Senado.
- O presidente da Câmara também anunciou um grupo de trabalho com duração de 15 dias para elaborar uma proposta de alteração do código eleitoral, regrando a propaganda eleitoral nas redes sociais.
- Os líderes partidários indicarão os membros nos próximos dias.
- Ele defendeu “regras claras que garantam a paridade de armas e que tenhamos um sistema transparente”, evitando benefícios indevidos.
5. Perseverança

A tributação sobre LCI, LCA e outros instrumentos isentos encontra amplo apoio na equipe econômica e, com o fim do período eleitoral, volta a ganhar força no governo, Fábio Pupo escreve no JOTA.
- Na visão de diferentes integrantes da gestão, é apenas uma questão de tempo até o tema voltar a ser proposto.
💰 Panorama: A área técnica da equipe econômica do governo defende que a tributação sobre títulos hoje isentos seja proposta o quanto antes, apesar das dúvidas sobre a recepção política da medida.
- Nos últimos meses, os técnicos do governo defenderam o Imposto de Renda como um caminho melhor do que o IOF para a tributação desses papéis, pela padronização com outros tipos de aplicação.
- A opção pelo IR geraria uma cobrança apenas no exercício seguinte (pela regra da anterioridade anual).
- Por outro lado, o IOF teria aplicação mais rápida por poder ser aplicado por decreto (sem aval do Congresso) e ainda não exigiria nem noventena nem anterioridade anual (ou seja, poderia ser aplicada até no próprio exercício e teria um trâmite mais fácil).
- A ideia defendida no nível técnico é que o fim das isenções valha para todos os títulos hoje isentos — o que incluiria, por exemplo, LCIs, LCAs, CRIs, CRAs, debêntures incentivadas e Fiagros.
Aliás… O plenário do Tribunal de Contas da União aprovou a alíquota de referência de 11,3% para a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) em 2027, além de um redutor de 44,2% para as compras da administração pública.
- Agora, os percentuais serão enviados ao Senado para fixação por meio de resolução. Leia mais.
6. Voto livre

O Ministério Público do Trabalho recebeu 530 denúncias de assédio eleitoral nos dois dias após o pleito presidencial, Adriana Aguiar escreve no JOTA.
- As queixas têm origem em manifestações de parlamentares, influenciadores e empresários incentivando a retaliação devido ao voto.
- O assédio eleitoral costumava se concentrar antes da votação, quando empregadores pressionam funcionários a votar em determinado candidato.
Sim, mas… Agora multiplicam-se relatos de perseguição contra apoiadores do presidente reeleito Lula após o segundo turno, sendo que 240 denúncias ocorreram nas primeiras 24 horas.
- O MPT-RJ obteve liminar, na terça (27), obrigando a deputada Índia Armelau (PL) a apagar em 48 horas as postagens em que sugeria a demissão de funcionários apoiadores de Lula.
- A decisão fixa multa diária de R$ 5.000 e a proíbe de incentivar perseguição política no trabalho.
🔮 O que observar: No Paraná, o MPT abriu investigação contra a deputada eleita Jéssicão (PL) por pedir a seguidores que deixem de frequentar comércios que empreguem eleitores PT.
- A ex-deputada Manuela D’Ávila (PSOL) comparou as listas de boicote que circulam no Rio Grande do Sul à perseguição nazista a judeus em 1933, ressaltando que expor desse modo negócios é perseguição política e econômica.
- O presidente do TST, Vieira de Mello Filho, afirmou, durante sessão do pleno, que a Justiça do Trabalho continuará combatendo o assédio eleitoral e punindo irregularidades mesmo após as eleições.
- Até o último domingo (25), o MPT somou 1.937 denúncias de assédio eleitoral.