O Estado não funciona no piloto automático

O uso da inteligência artificial no serviço público entrou no centro do debate político nesta última semana da campanha eleitoral, levantando reflexões. Ao tratar a tecnologia como uma alternativa para substituição de servidores, ignora-se a complexidade dos serviços públicos e a importância dos profissionais responsáveis por sua execução. A modernização da administração pública é necessária e deve ser permanente, mas não pode ser confundida com o simples enxugamento de pessoal.
O primeiro ponto a considerar é a dimensão do funcionalismo brasileiro. O país tem cerca de 12,5 milhões de servidores públicos, que representam 12,3% do total de trabalhadores. A proporção está abaixo da média de 16,9% dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), contrariando a percepção recorrente de que o Brasil tem servidores em excesso.
Mais importante do que o tamanho dessa estrutura é compreender a quem ela serve. Temos três milhões de servidores da educação e 1,6 milhões de profissionais da saúde. Mais de 90% dos profissionais públicos trabalham nos estados e municípios, e 70% têm remuneração de até R$6.189. São eles que entregam serviços concretos para a população – garantem o funcionamento das escolas, a vacinação e o atendimento nas unidades de saúde.
Boa parte desse trabalho é, por natureza, relacional. A agente de saúde percebe que uma idosa deixou de tomar o remédio. O assistente social identifica uma situação de violência numa visita. A professora nota que um aluno parou de prestar atenção. Nenhum chatbot faz isso. A tecnologia pode liberar tempo para que eles cuidem mais de gente e menos de formulário, mas não pode ocupar o mesmo lugar. Portanto, o enxugamento da máquina pública como objetivo final, sem considerar as atribuições do funcionalismo, pode levar ao sucateamento do atendimento à população.
Há, ainda, uma dimensão fundamental nessa discussão: o espírito público. Trabalhar para o Estado pressupõe compromisso com o interesse coletivo, com a legalidade, com a equidade e com a continuidade das políticas públicas. Esse conjunto de valores não pode ser simplesmente reproduzido por uma máquina.
Essa distinção é especialmente importante porque a administração pública lida diariamente com decisões de alto impacto na vida das pessoas. A concessão de um benefício social, por exemplo, exige não só conhecimento técnico, mas também análise de contexto e discernimento ético. Substituir essas decisões por sistemas automatizados pode produzir vieses e até erros. Quando uma decisão administrativa prejudica um cidadão, é preciso que existam responsáveis identificáveis.
Isso não significa rejeitar a inteligência artificial, ao contrário, seu uso pode representar um avanço, especialmente em atividades de inteligência e grandes volumes de dados. Experiências em diversos governos já vêm incorporando isso.
É evidente que o serviço público brasileiro precisa se transformar, pois algumas carreiras perderam relevância diante das mudanças tecnológicas. Esse processo já está em curso: foram extintos 44,4 mil cargos considerados “obsoletos” no período entre 2023 e 2025. Mas o princípio não deve ser de redução do Estado, e sim de racionalização de recursos e atualização de carreiras.
O próximo governo, seja qual for, vai herdar ao mesmo tempo uma onda de aposentadorias e uma revolução tecnológica. Pode tratá-las como a oportunidade de reconstruir carreiras e qualificar o atendimento. Ou pode tratá-las como atalho para cortar gastos, deixando a conta para quem depende de serviços públicos como o posto de saúde, a escola e a assistência social.