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O que a COP30 deixa de legado para a COP31?

JOTA·
O que a COP30 deixa de legado para a COP31?

Quem já participou de uma reunião de condomínio sabe que chegar a um consenso não é tarefa simples. Há quem defenda uma reforma, questione os custos ou tenha outras prioridades. Todos compartilham o mesmo espaço, mas discordam sobre o que fazer, quem deve pagar e quando agir.

Imagine agora que esse condomínio seja o planeta e o problema seja o futuro da humanidade.

Uma COP (Conferência das Partes) é mais ou menos isso. Quase 200 nações negociam respostas a uma crise que atravessa fronteiras. Cada país, como um morador, tem interesses, recursos e responsabilidades diferentes. Mas todos dividem as consequências de uma questão que não se resolve sozinha.

Diante da crise climática, não há outro endereço a se mudar. Estão em jogo água, alimentos, florestas e a segurança das próximas gerações.

Foi com essa responsabilidade que o Brasil recebeu, em 2025, a primeira Conferência do Clima na Amazônia, levando a Belém uma maneira bem brasileira de lidar com desafios coletivos: o mutirão.

No Brasil, mutirão é gente que se reúne para plantar, colher ou recuperar o que uma enchente destruiu. Inspirada nas tradições indígenas de trabalho coletivo, essa prática mostra que, quando a tarefa é grande demais para um só, a comunidade se une.

Foi esse espírito que o anfitrião Brasil procurou levar à diplomacia por meio do Mutirão Global. A proposta chamou governos, povos indígenas, comunidades tradicionais, pesquisadores, empresas, bancos e organizações da sociedade civil a colaborar na busca por soluções. Não se tratava de apagar diferenças, mas de reconhecer que nenhum país pode lidar sozinho com a emergência climática.

Em Belém, o mutirão tornou-se também ferramenta de diálogo. Ouvir quem normalmente fica distante das mesas de negociação, aproximar compromissos internacionais dos territórios e estimular ações que não dependam apenas de um acordo firmado.

Países do Sul Global têm conhecimento e soluções a oferecer. Não podem ser apenas destinatários de decisões tomadas em outros lugares. Belém ajudou a colocar esses países no centro da conversa, sem apagar diferenças ou a responsabilidade dos maiores emissores.

Afinal, quem protege a floresta, perde a produção para a seca ou precisa reconstruir a própria casa depois de uma enchente não pode ser só espectador de decisões sobre o seu futuro.

Quando o acordo não basta

A COP30 ocorreu no ano em que o Acordo de Paris completou uma década. O acordo contribuiu para conter o crescimento projetado das emissões e mobilizar governos e setores econômicos. Segundo o Climate Action Tracker, as políticas implementadas desde 2015 no escopo do acordo ajudaram a reduzir de 3,6 °C para 2,6 °C a projeção de aquecimento global até 2100.

Mas dez anos depois, o mundo ainda não reduziu suas emissões no ritmo necessário para limitar o aquecimento a 1,5 °C. Enquanto países negociam metas e financiamento, comunidades enfrentam incêndios, secas e inundações.

Em Belém, foram aprovadas 56 decisões por consenso, incluindo medidas sobre adaptação e financiamento climático. As discussões sobre a transição para longe dos combustíveis fósseis e o combate ao desmatamento ficaram fora das decisões formais da Convenção de Clima. Em vez de encerrar o assunto ali, o Brasil assumiu a elaboração de mapas do caminho (ou roadmaps) para manter essas duas agendas em movimento.

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Não são compromissos aprovados por todos, mas processos de diálogo para identificar caminhos possíveis. Afinal, quando uma negociação emperra, a cooperação não precisa parar junto com ela.

Mas isso não elimina conflitos reais. A transição energética envolve economias dependentes do petróleo, gás, carvão, empregos e segurança energética. Proteger florestas exige financiamento, fiscalização e alternativas de renda. Não há solução simples e nem tempo para esperar que as divergências desapareçam.

Há ainda uma questão que aproxima a Amazônia do cotidiano de pessoas muito além de suas fronteiras: a comida que chegará à mesa nas próximas décadas. A floresta ajuda a regular as chuvas que abastecem lavouras no Brasil e em outros países. Sem esse equilíbrio, secas e perdas de safra podem se tornar mais frequentes e a incerteza na produção e nos preços aumenta.

Outro resultado foi o lançamento do TFFF (Fundo Florestas Tropicais para Sempre), iniciativa brasileira que propõe uma mudança no financiamento da conservação. A lógica é dar mais valor à floresta em pé do que derrubada. Para isso, o TFFF prevê pagamentos a países que mantêm suas áreas florestais conservadas, com recursos de longo prazo e destinação de pelo menos 20% dos repasses a povos indígenas e comunidades locais.

A iniciativa até ganhou novos apoios internacionais no pós-Belém. Em outubro de 2026, a Holanda anunciou a intenção de investir até US$ 500 milhões no TFFF durante dez anos. O anúncio reforça o interesse internacional em um mecanismo que pretende mobilizar US$ 125 bilhões à conservação florestal. Assim como os roadmaps, o TFFF avançou fora das decisões formais, mostrando que a cooperação climática também pode ganhar força para além das negociações.

Essas iniciativas não substituem acordos multilaterais nem dispensam o cumprimento das metas. Na verdade, mostram que a cooperação pode avançar mesmo sem consenso total.

É como no condomínio: aprovar a reforma importa, mas não basta. Alguém precisa reunir os recursos, organizar o trabalho e acompanhar a obra. Na agenda climática, a distância entre decidir e fazer pode custar vidas, territórios e oportunidades que não voltam.

O “espírito” de Belém

Talvez a contribuição mais humana da COP30 tenha sido lembrar que a diplomacia depende de confiança, de escutar quem pensa diferente e buscar o que pode ser feito em conjunto.

O espírito de Belém não significa o fim dos conflitos, mas a defesa da colaboração. Ampliar a ambição climática, fortalecer o multilateralismo e aproximar a agenda climática das pessoas foram prioridades impostas em Belém. E devem continuar orientando as próximas cúpulas.

A participação social não pode terminar na foto de família da conferência. Povos indígenas, comunidades tradicionais, governos locais, pesquisadores e organizações da sociedade civil precisam acompanhar os compromissos e influenciar sua implementação. Ouvir essas vozes é um começo; mantê-las nas decisões é o verdadeiro teste.

O mesmo vale aos roadmaps. Sem propostas, políticas públicas, investimentos e articulações entre países, correm o risco de permanecer como iniciativas de uma presidência, sem efeitos duradouros.

A presidência da COP31 receberá uma agenda que não começou em Belém e não terminará nela. Herdará divergências sobre combustíveis fósseis, financiamento e responsabilidades entre países ricos e em desenvolvimento. Mas também receberá diálogos abertos, propostas em construção e a oportunidade de não recomeçar do zero.

O legado brasileiro dependerá dessa continuidade. Não será medido apenas pelo número de decisões aprovadas, mas pela capacidade de transformar a ambição climática e a cooperação entre países em ações que alcancem os territórios e sobrevivam à troca de anfitriões. E também de que a liderança do Sul Global se traduza em capacidade de propor caminhos, mobilizar recursos e participar das decisões.

Há algo simbólico em escolher o mutirão como imagem à ação climática. Quando uma comunidade se reúne para construir uma casa, ninguém considera a missão cumprida porque concordamos com a planta. É preciso carregar tijolos, dividir tarefas, enfrentar imprevistos e permanecer até que haja um teto para abrigar as pessoas.

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Com o planeta, a responsabilidade é ainda maior.

O espírito de Belém estará vivo se o diálogo continuar depois que as delegações voltarem para casa, se as promessas encontrarem recursos e se a cooperação produzir mudanças concretas. O futuro da humanidade será decidido pelo que são capazes de construir juntos.