Constitucional

Por que eu acredito que André Lara Resende pode estar certo

JOTA·
Por que eu acredito que André Lara Resende pode estar certo

Quando André Lara Resende publicou “Eu acuso”, em setembro, propondo levar a Selic de 13,75% para 7,5% em um ano e depois mantê-la numa banda entre 3% e 5,5%, o roteiro do debate parecia escrito de antemão. De um lado, quem vê no juro alto a causa do desequilíbrio fiscal; do outro, quem vê na proposta um convite à inflação. Resolvi fazer outra coisa: levar o argumento a sério e escrevê-lo na linguagem que o próprio Banco Central usa, a do modelo novo-keynesiano. O resultado me surpreendeu. A proposta não é absurda. Ela funciona sob condições precisas, e a principal delas pode ser medida.

Recapitulo a ideia. Um conselho fiscal e monetário fixaria metas para quatro ou cinco anos, e o BC manteria a Selic entre a meta de inflação, de 3%, e o crescimento nominal potencial, de cerca de 5,5%. O argumento é fiscal: com mais da metade da dívida atrelada à Selic, o juro alto é o motor da dívida, e a dívida crescente alimenta o prêmio de risco que, por sua vez, justifica o juro alto. Nas palavras do autor, “a redução do juro é a solução do desequilíbrio fiscal”.

O primeiro ponto a favor é técnico. No modelo-padrão, um juro fixo não ancora a inflação: se o banco central não reage com força às surpresas, as expectativas ficam soltas, e qualquer trajetória de preços se torna possível. Esse resultado, porém, depende de duas hipóteses que a pesquisa recente relativizou. A primeira é que as famílias reagem tanto aos juros de daqui a dez anos quanto aos de hoje; os trabalhos de Alisdair McKay, Emi Nakamura e Jón Steinsson, e os de Xavier Gabaix, indicam que não. A segunda é que a curva de Phillips, a relação entre a folga da economia e a inflação, tem sempre a mesma inclinação. Também não tem. Pierpaolo Benigno e Gauti Eggertsson mostraram, a partir da inflação pós-pandemia, que ela é quase plana quando há folga no mercado de trabalho e fica íngreme quando ele aperta.

Juntando as duas coisas, um juro fixo pode, sim, ancorar a inflação enquanto houver folga. A intuição é simples. Com a Selic parada, uma alta da inflação reduz o juro real e estimula a economia. A âncora existe se esse estímulo for menor do que o necessário para sustentar o aquecimento que o provocou. Com uma curva plana e famílias que descontam o futuro distante, a conta fecha. Com a curva íngreme, não fecha, e o banco central volta a precisar reagir.

O segundo ponto decide tudo: o prêmio de risco. O BC trabalha com um juro neutro, aquele que nem estimula nem contém a economia, de cerca de 5% ao ano acima da inflação, e há economistas que o põem em 8%. Esse neutro não é uma constante da natureza. Ele embute um prêmio que depende do risco fiscal, e o risco fiscal depende do custo da dívida, isto é, da própria Selic. Chamemos de f a parte de cada ponto de corte da Selic que volta como queda do prêmio. Se f é zero, como o BC implicitamente supõe, cortar o juro é só estímulo. Se f é alto, como supõe Lara Resende, o corte também derruba o neutro, e o estímulo é muito menor do que parece. Não se trata de invenção heterodoxa: Olivier Blanchard mostrou que, no Brasil de 2002 e 2003, o prêmio respondia ao juro e à dívida a ponto de a alta da Selic depreciar o real.

Simulei a trajetória proposta, de 13,75% para 7,5% em um ano e 5,5% no seguinte, num modelo calibrado para o Brasil e deliberadamente favorável à proposta: curva de Phillips muito plana e alguma folga no mercado de trabalho. Se o prêmio devolve ao menos 60% do corte, a inflação se acomoda entre 3% e 3,6%, e a conta de juros cai de cerca de 10% para 6% do PIB, perto dos quatro pontos que Lara Resende estima. O superávit primário necessário para estabilizar a dívida, que no regime atual seria de quase 4% do PIB, cai para menos de 0,5%. Nesse mundo, o juro alto é que seria imprudente: custa caro e compra pouca desinflação.

O mesmo modelo, porém, mostra o que acontece se ele estiver errado, e é aqui que a proposta exige mais cuidado do que o artigo sugere. Se o prêmio não responde à Selic, anunciar um juro permanentemente abaixo do neutro desancora as expectativas no ato: a inflação vai para perto de 9%, e a cláusula de saída devolve a Selic a mais de 12%. Prometer juro baixo termina em juro alto. Há ainda uma faixa intermediária, com o prêmio devolvendo entre um terço e 60% do corte, em que a regra proposta não tem ponto de equilíbrio. A saída da banda também não pode ser apenas uma reação à inflação somada à banda: se for acionada, precisa devolver a Selic ao neutro e mantê-la ali. Mesmo no cenário favorável, a dívida ainda pede algum ajuste primário, e o câmbio, que o artigo propõe administrar com reservas, é um risco que um modelo simples não capta.

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Por que, então, acredito que ele pode estar certo? Porque a pergunta que separa as duas leituras é empírica, e nenhum dos lados a respondeu. O BC trata o prêmio como dado; Lara Resende o trata como consequência do juro. O número que decide a disputa, quanto do prêmio responde à própria Selic, pode ser estimado: basta observar como o CDS, os juros longos e as NTN-B se movem em torno das decisões do Copom, separando o efeito das notícias fiscais. Se a resposta for alta, a política atual compra pouca desinflação a um custo fiscal enorme.

O debate sobre juros no Brasil costuma ser travado com adjetivos: responsável, populista, heterodoxo. Escrito na linguagem do próprio Banco Central, ele cabe num único número. Em vez de descartar a proposta, o BC deveria estimar esse número e torná-lo público. Se Lara Resende estiver errado, saberemos por quê. Se estiver certo, o custo de continuar a ignorá-lo se mede em pontos do PIB, todos os anos.