O que está por trás das guerras de narrativas?

As plataformas de redes sociais se configuram hoje como um espaço central no debate político e têm influenciado processos eleitorais não somente no Brasil, mas também em diversos outros países do mundo. Candidatos(as), políticos(as), jornalistas, influenciadores(as) e usuários comuns usam esses canais para divulgar suas opiniões e expressar seu posicionamento político.
Como os estudos acadêmicos têm observado, o debate nas plataformas não segue um processo propositivo de manifestações de diferentes projetos políticos, mas pelo contrário, as interações nesses espaços têm se caracterizado por uma dinâmica de conflitos, o que tem criado uma disputa pelas narrativas entre os atores políticos, pelos sentidos dos acontecimentos sociais e políticos.
Nesse contexto, diversos estudos de monitoramento vêm sendo realizados para acompanhar as “guerras de narrativas” nas redes. Esses estudos possibilitam uma forma de identificação das principais narrativas e a mensuração de quem está vencendo essas guerras, seja por maior número de engajamento, de publicações etc.
Mas essa leitura deixa de fora perguntas mais difíceis de responder, e talvez mais importantes. O que está por trás dessas guerras de narrativas, quais são as disputas e os termos que orientam esses embates dentro do cenário político? Quais são as identidades coletivas que são mobilizadas nesses debates? Os primeiros relatórios do projeto Brasil Online, estudo da polarização nas eleições de 2026, realizado por uma equipe de especialistas em ciência de dados e comunicação política, de diversas universidades brasileiras, têm mostrado os conflitos políticos nas plataformas do Instagram, X e TikTok.
As redes sociais são palco, assim como contribuíram para a volta dos embates ideológicos, que pareciam extintos, como indicavam cientistas políticos e jornalistas no começo dos anos 2000. Contudo, a partir do tsunami de junho de 2013, em que milhares de pessoas ocuparam as ruas em diferentes cidades do Brasil para expressarem sua indignação contra o funcionamento do sistema político brasileiro, o embate ideológico volta a ser um elemento organizador da disputa política, expresso pelos conflitos nas plataformas digitais.
No Brasil, um marco do retorno da polarização ideológica foi a eleição de 2014, representada no embate entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). A campanha ficou marcada pela forte polarização ideológica entre esquerda e direita, principalmente com a aposta da campanha tucana em deslocar seu discurso para demandas da direita conservadora brasileira e abandonar o discurso gerencialista. Nesse contexto, as redes sociais de internet foram palcos de enfrentamentos entre os eleitores alinhados com as candidaturas, provocando muitas brigas entre famílias e amigos por causa de posicionamentos políticos dos perfis.
Como os estudos acadêmicos têm mostrado, essas discussões em plataformas digitais se estruturam em torno de identidades que refletem embates entre posições ideológicas e políticas. As mobilizações a favor e contra o impeachment de Dilma Rousseff nos anos de 2015 e 2016 são outro exemplo dessa polarização ideológica que mobiliza afetos no debate político online.
As eleições de 2018 e 2022 denotam um deslocamento da polarização entre partidos de centro: PT (centro-esquerda) x PSDB (centro-direita), para uma nova configuração entre identidades políticas alinhadas entre o bolsonarismo (extrema-direita) e o lulismo (centro-esquerda). O discurso da direita se desloca para demandas conservadoras, autoritárias e neoliberais, enquanto o discurso da esquerda se estabelece em torno de pautas progressistas, políticas de bem-estar social e defesa da democracia.
Atento às disputas discursivas ideológicas, surgiram diversos estudos de monitoramento do debate político nas plataformas digitais. Esses monitoramentos focam sua atenção na identificação das chamadas narrativas, entendidas como leituras parciais da realidade de atores políticos que visam difundir sua visão de mundo. O destaque recai na existência de uma “guerra de narrativas” dos acontecimentos políticos, por vezes definida como reflexos de uma “guerra cultural” entre os valores da sociedade contemporânea.
Contudo, esses estudos não conseguem identificar quais são os valores que orientam o comportamento político dos brasileiros e brasileiras nas redes sociais? Quais são as demandas mobilizadas pelos atores políticos? Como se estrutura a disputa entre políticos de direita e esquerda nas redes? Como se estabelece o antagonismo entre direita x esquerda, bolsonarismo x lulismo, conservadorismo e progressismo, entre outros conflitos políticos que orientam as dinâmicas políticas no Brasil?
Com o objetivo de responder essas questões, e acompanhar as dinâmicas da polarização ideológica, os dados do projeto Brasil Online, estudo da polarização nas eleições de 2026 mostram que na semana de 11 a 17 de agosto, período que marcou o começo da campanha eleitoral de 2026, os perfis de direita tiveram maior interação nas plataformas e se destacaram por mobilizar sentimentos negativos. Enquanto a esquerda teve predominância de conteúdos positivos, mas com menor engajamento.
Combinando a análise de sentimentos com emoções, pode-se observar que os perfis da direita tendem a combinar positividade com indignação/confronto, e a esquerda tende a combinar positividade com celebração.
Na análise das disputas discursivas nas plataformas (X, Instagram e TikTok), o estudo identificou três tipos de conflitos: políticos, políticas públicas, economia e moral. Os conflitos políticos se estruturam em torno das campanhas, com ataques pessoais, valorização da figura individual dos candidatos e mobilização de discursos de vitimização (de Jair Bolsonaro, como uma pessoa perseguida pelo Judiciário) e credibilidade.
Destaque para a clivagem interna dentro da direita, na qual Renan Santos (Missão) aposta na radicalização do discurso (dentro da lógica performática das redes) para se colocar como representante da “renovação política” e opção “anti-Lula”. Ainda é possível verificar conflitos políticos em torno da representatividade da mulher: a direita aposta em um discurso de “cuidar da mulher”, enquanto a esquerda adota uma postura de valorização da figura de lideranças políticas femininas.
Os conflitos em relação às políticas públicas e economia refletem demandas e posicionamentos dos campos ideológicos. A direita aposta na defesa da “liberdade individual” frente ao autoritarismo estatal, representado por governos de esquerda, e na pauta da segurança pública, com a mobilização do discurso do punitivismo penal, que garante um bom engajamento para seus representantes. Por outro lado, perfis de esquerda assumem bandeiras clássicas do campo progressista como a defesa da promoção da saúde pública (campanhas de vacinação contra o sarampo) e a melhoria da qualidade de vida (fim da escala 6 x 1).
Os conflitos morais se estabelecem em torno de escândalos políticos de corrupção. Nesse tipo de conflito, ambos os campos buscam responsabilizar o seu adversário por crimes como o caso do Banco Master e o escândalo do INSS. Dentro da estratégia de discurso do antissistema, Renan Santos tenta se posicionar como o “único honesto” e como opção ao lulismo e bolsonarismo, não pela moderação, a chamada terceira via, mas pela radicalização da política.
O estudo do Brasil Online, estudo da polarização nas eleições de 2026 mostra que o debate online é caracterizado por uma polarização que articula elementos ideológicos, afetivos e programáticos, indo além das “guerras de narrativas”. As análises ilustram que há diferentes posicionamentos políticos, alinhados aos valores, demandas e identidades ideológicas (de direita e esquerda), que estruturam os embates políticos e atuação dos atores de cada campo.