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Por que precisamos de mais mulheres na política

JOTA·
Por que precisamos de mais mulheres na política

A forma como se compreende liderança precisa ser revista tanto pela administração pública quanto pela iniciativa privada. O modelo baseado em “comando e controle”, marcado por centralização das decisões, rigidez hierárquica e autoridade como principal instrumento de gestão, mostra-se insuficiente diante de problemas cada vez mais complexos do mundo moderno. Governar exige responsabilidade para lidar com decisões, articular interesses e construir soluções que possam ser implementadas e tenham impacto real e relevante para a sociedade.

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Políticas formuladas exclusivamente de cima para baixo frequentemente ignoram seus efeitos concretos sobre a população. Uma norma pode parecer tecnicamente coerente no papel e, ainda assim, fracassar quando encontra a realidade nas comunidades, por desconsiderar contextos econômicos e sociais. Quando as pessoas afetadas por uma decisão são ouvidas apenas depois de sua implementação, o poder público perde a credibilidade e, também, a oportunidade de antecipar consequências, obstáculos e, consequentemente, corrigir premissas.

Essa transformação passa fundamentalmente pela ampliação da presença das mulheres nos espaços de poder. Não porque exista uma forma essencialmente feminina de governar, mas porque as experiências, trajetórias e perspectivas de quem participa das decisões influenciam as prioridades escolhidas e a maneira como os problemas são enfrentados. E instituições compostas durante séculos majoritariamente pelo mesmo perfil (masculino) de liderança tendem a reproduzir métodos e respostas semelhantes.

No setor privado, pesquisas da McKinsey mostram uma relação consistente entre diversidade nas equipes executivas e desempenho financeiro. Na última edição do estudo Diversity Matters, empresas situadas no grupo com maior diversidade de gênero na liderança apresentaram probabilidade 39% maior de ter resultados financeiros superiores aos do grupo menos diverso. Sob a ótica da teoria da escolha racional, esses números reforçam que ampliar a presença de mulheres nos espaços decisórios não deve ser compreendido apenas como uma medida de equidade, mas também como uma decisão estratégica.

Na administração pública, estudos sobre municípios brasileiros também encontraram diferenças relevantes. Pesquisa de Fernanda Brollo e Ugo Troiano, baseada em eleições acirradas disputadas entre um homem e uma mulher, identificou que prefeituras lideradas por mulheres apresentam melhores resultados em políticas públicas, como indicadores de pré-natal mais favoráveis, menor taxa de partos prematuros e maior captação de recursos federais.

Além disso, também se observou menor incidência de irregularidades nesses municípios, com probabilidade entre 29% e 35% menor de atos de corrupção. Sem pressupor uma superioridade moral feminina, o estudo demonstra que a presença das mulheres no poder transforma métodos, prioridades e resultados institucionais.

A atuação de Jacinda Ardern, ex-primeira-ministra da Nova Zelândia, durante a pandemia de coronavírus, oferece um exemplo dessa combinação entre escuta, comunicação e capacidade de decisão. Seu governo adotou medidas rigorosas quando o país ainda registrava poucos casos, apoiando-se em orientação científica, controle de fronteiras e comunicação direta com a sociedade.

Segundo dados do governo, em 2020, o país apresentou a menor taxa acumulada de mortes por Covid-19 entre as nações de alta renda e foi um dos poucos em que a expectativa de vida aumentou. Fatores geográficos e institucionais contribuíram para esse desempenho, mas a experiência mostrou que empatia e firmeza não são qualidades incompatíveis.

Em Pelotas, a prefeita Paula Mascarenhas conduziu uma experiência relevante no campo da segurança pública. O Pacto Pelotas pela Paz foi formulado a partir do diálogo com a comunidade e da articulação entre prefeitura, polícias, Judiciário, Ministério Público, universidades e sociedade civil. O programa reuniu prevenção social, repressão qualificada, urbanismo, educação, ressocialização e oportunidades para jovens.

Dados apresentados pela administração municipal apontam que houve redução expressiva dos crimes violentos e dos roubos, além da implantação de dezenas de projetos preventivos. Em vez de focar apenas em protagonismo pessoal, o verdadeiro avanço consistiu em estruturar essa política como uma conquista institucional duradoura, pautada em dados e projetada para persistir além de quem a criou.

As pesquisas e experiências citadas foram desenvolvidas em contextos, países e áreas diferentes. Elas não demonstram que toda mulher governe de maneira colaborativa, assim como não permitem afirmar que homens sejam incapazes de fazê-lo. O que revelam é que ampliar a presença feminina aumenta a pluralidade de experiências disponíveis para enfrentar os problemas públicos e desafia estruturas decisórias historicamente homogêneas.

Aumentar a participação das mulheres na política é, antes de tudo, uma exigência de equidade democrática. Mulheres compõem mais da metade da população e não podem continuar sub-representadas nos espaços que definem prioridades, distribuem recursos e formulam normas. Mas a equidade não é o único argumento. A diversidade de perfis, trajetórias e formas de liderança também melhora a capacidade das instituições de perceber problemas, avaliar consequências e construir respostas.

Precisamos de mais mulheres na política não porque elas sejam naturalmente mais honestas, sensíveis ou colaborativas, mas porque nenhuma democracia pode produzir boas decisões excluindo sistematicamente parte tão expressiva da sociedade. Governar bem exige conhecimento técnico e autoridade para decidir. Exige também escuta, participação, diversidade e compreensão da realidade.

Nesta semana, o Brasil encerra um processo eleitoral em que, mais uma vez, dois homens disputam a Presidência da República. Independentemente de quem vença, é legítimo esperar que o próximo governo não trate a diversidade como presença meramente simbólica. Mulheres precisam ocupar ministérios e participar efetivamente dos espaços em que prioridades são definidas e decisões são tomadas. Se queremos uma administração pública mais plural, colaborativa e conectada à realidade da população, essa transformação precisa começar pela composição do governo que as urnas escolherá.