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Prefeituras adotam IA para aumentar arrecadação e melhorar atendimento

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Prefeituras adotam IA para aumentar arrecadação e melhorar atendimento

A inteligência artificial já chegou à administração pública para ajudar prefeituras e outros entes públicos a reduzir os custos, aumentar a receita e melhorar o atendimento aos cidadãos. Empresas de tecnologia oferecem aplicativos ou programas de computador que, a partir da base de dados dos órgãos públicos, alertam as pessoas sobre seus benefícios e obrigações.

Essa tecnologia ajudou a Prefeitura de Divinópolis (MG) a receber R$ 20 milhões, o que corresponde a 12% dos créditos que o município não conseguia receber, e permitiu a Jacareí (SP) realizar 6.000 atendimentos por mês pelo WhatsApp, otimizando tempo e recursos da prefeitura e dos cidadãos.

Nesses dois casos, a tecnologia usada foi oferecida pela Gove, uma das empresas brasileiras especializadas em desenvolver ferramentas de eficiência para o serviço público. De um lado, a companhia oferece serviços aos cidadãos. De outro, cobra dívidas daqueles que podem nem mais se lembrar das pendências que possuem. O contato é pelo WhatsApp, e o projeto da empresa para o setor público se chama Governo Zero Clique. 

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“A prefeitura dispõe de uma base de dados com informações sobre os cidadãos, seja quem mora na cidade, seja quem tem alguma relação com ela, como quem tem um imóvel ou trabalha (e mora na cidade vizinha). O Gove usa e amplia essa base de dados para identificar o cidadão que tem alguma pendência e avisá-lo sobre isso”, afirma Rodolfo Fiori, fundador e CEO da Gove.

Fiori diz que a tecnologia pode avisar as pessoas sobre uma campanha de vacinação, uma consulta médica agendada na rede pública, algum tributo prestes a vencer ou uma dívida com o município, por exemplo. A carta de serviços da prefeitura é oferecida pelo WhatsApp. “A inteligência artificial identifica que o cidadão vai completar 60 anos, então envia mensagem para ele avisando sobre direito ao cartão de estacionamento do idoso”, exemplifica.

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O preço do serviço varia conforme o número de cidadãos atendidos, no caso das prefeituras. “Em uma cidade em que atendemos um público de 800 pessoas, o custo é de R$ 60 mil por ano”, afirma Fiori. Mas a capacidade de atendimento do serviço é muito maior. Criada em 2016, a Gove passou a oferecer esse modelo em 2021 e hoje atende mais de 16 milhões de pessoas em aproximadamente cem municípios de 22 Estados.

Serviço de administração tributária

Além da Gove, outras empresas oferecem serviços semelhantes de atendimento digital e auxílio administrativo para órgãos públicos, como a ADM Sistemas, a GovFácil e a Governança Brasil. A ADM Sistemas, criada há mais de 15 anos e sediada na cidade catarinense de São José, já atendeu mais de 1 milhão de usuários e oferece programas específicos para cada área de gestão pública.

Um dos sistemas oferecidos é especializado na administração tributária e fiscal. “O Sistema Tributos é uma ferramenta que auxilia a fiscalização sobre as movimentações de cada contribuinte, emissão de guias de arrecadação, certidões, alvarás, dívida ativa e mais, possibilitando uma coordenação simples e eficiente de toda a arrecadação do município”, anuncia a empresa.

Incentivo à emissão de notas fiscais

A GovFácil, de Umuarama (PR), também oferece programas que fazem a intermediação entre prefeituras e cidadãos. Além do atendimento referente aos serviços contínuos, como pagamento de tributos, recentemente a empresa lançou, em parceria com as prefeituras de Jaguariaíva, Tuneiras do Oeste e Paranaguá, também no Paraná, um aplicativo para incentivar os compradores a pedir nota fiscal.

Quem fizer compras a partir de R$ 50, exigir nota fiscal com CPF e cadastrá-la no aplicativo Nota Município concorre a brindes e a um sorteio mensal de prêmio em dinheiro. “Isso aumenta o faturamento declarado das empresas, o que eleva o Valor Adicionado Fiscal (VAF) daquele município. Com o VAF maior, o município aumenta sua participação no Índice de Participação do Município (IPM) e, por consequência, amplia sua cota-parte do ICMS recebido do estado”, explica a GovFácil em nota. Segundo a empresa, esse incentivo para a emissão de notas fiscais aumenta de 3% a 10% o VAF e de 2% a 8% o ICMS recebido pelo município.

Atendimento digital

Comparado ao custo do serviço presencial, que exige funcionários (e não máquinas) e um imóvel com estrutura para receber tanto os clientes como os próprios atendentes, o atendimento digital é mais barato. “Hoje fazemos em média 6.000 atendimentos por mês pelo WhatsApp”, conta Fabrício Paes, diretor de Administração Tributária da Prefeitura de Jacareí, que usa os serviços da Gove.

Paes diz que, do total de demandas, 85% são resolvidas por meio de inteligência artificial. As outras 15% passam ao atendimento pessoal, o que é solucionado por apenas um funcionário. “E se eu precisasse atender os 6.000 pessoalmente?”, compara.

Outras prefeituras também relatam redução de custos: Lajeado (RS) gastava mais com o envio físico de cobranças do que investe ao contratar o Governo Zero Clique. Segundo o governo federal, o atendimento presencial chega a custar 36 vezes mais do que o digital.

Paes diz que, em Jacareí, a busca pela tecnologia para atender aos cidadãos também buscou aumentar a arrecadação do município, que tem quase 250 mil habitantes. Ele afirma que a falta de informação a esses cidadãos podia impactar as receitas. ”Fomos buscar ferramentas para melhorar isso e conseguimos”, conta Paes.

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Prefeituras evitam judicialização

O contato direto da prefeitura para avisar contribuintes sobre dívidas pendentes também tenta evitar que o caso seja resolvido na Justiça, onde há risco de a administração não receber créditos menores de R$ 10 mil. Em 2024, uma resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) autorizou a extinção de execuções fiscais até esse valor quando o processo está parado por pelo menos um ano e não há apreensão de bens. Desde então até fevereiro de 2026, o volume de execuções fiscais pendentes na Justiça brasileira caiu de 26,5 milhões para 16,5 milhões, segundo o CNJ.

Paes afirma que a tecnologia contribui também para manter o conhecimento na prefeitura. A inteligência artificial institucionaliza informações e acumula dados para que a ausência de um servidor que se aposenta, por exemplo, não atrapalhe a orientação ao cidadão. “Outro problema, que acontece em qualquer município e em todo o setor público, é a perda de conhecimento quando um funcionário se aposenta. Aquele servidor que trabalhou durante 30 anos e sabe tudo daquele setor, mas quando se aposenta deixa um vazio difícil de preencher porque os outros funcionários não têm a mesma experiência”, diz.

Atendimento pelo WhatsApp

Jacareí primeiro lançou um canal de WhatsApp, que começou a funcionar em fase de testes em 2025 e em 2026 se tornou oficial. Depois, o município antecipou para dezembro de 2025 a implantação da Nota Fiscal Nacional, e 95% dos atendimentos que seriam presenciais puderam ser resolvidos pela ferramenta de inteligência artificial. Então, mesmo antes de ser lançado oficialmente, o canal já resolveu muita dúvida da população”, diz Paes.

Por enquanto o WhatsApp da Prefeitura de Jacareí oferece 85 serviços, especialmente ligados à área tributária, mas está sendo ampliado para atender todas as secretarias municipais.

“Um caso emblemático e triste foi de uma adolescente que usou o WhatsApp da prefeitura para pedir ajuda porque sofria um abuso. Foi para o atendimento pessoal e a vítima recebeu atendimento. Não tinha a ver com o objetivo inicial do projeto, mas acabou servindo num momento muito delicado”, relata Paes.