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Projeto do TJ-SP incentiva jovens acolhidos a ler e imaginar novos futuros

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Projeto do TJ-SP incentiva jovens acolhidos a ler e imaginar novos futuros

Encontrar uma família é o desafio enfrentado por crianças e adolescentes que vivem em instituições de acolhimento. Em todo o estado de São Paulo, dez mil crianças estão em processo de destituição do poder familiar. A maior parte delas aguarda decisão judicial, enquanto mais de 1,8 mil já podem ser adotadas.

Paulo Santana / TJSP
Iniciativa alcança duas mil crianças e adolescentes que vivem em instituições de acolhimento

A coordenadora de Infância e Juventude da Justiça de São Paulo, desembargadora Gilda Barbosa Amaral Diodatti, explica que, antes da definitiva destituição do poder família, a Justiça busca, sempre que possível, promover a reestruturação das famílias de origem por meio de programas educacionais e de saúde. Adolescentes mais velhos e grupos de irmãos enfrentam maiores dificuldades para encontrar famílias adotivas, diante da preferência de parte dos pretendentes por crianças menores.

Diodatti destaca a importância de garantir que essas crianças e adolescentes sejam ouvidos e que suas histórias sejam respeitadas.

“É importantíssimo que, durante todo esse processo, as crianças participem, sejam escutadas e orientadas, e que as famílias também respeitem a história que vem com elas. É preciso respeitar e valorizar o que é a criança e dar esse apoio”, afirma a desembargadora.

O acolhimento também envolve a criação de oportunidades para que desenvolvam suas capacidades e construam perspectivas para o futuro. Com essa proposta, o Tribunal de Justiça de São Paulo incorporou à Coordenadoria da Infância e da Juventude o projeto “Leitura Amiga — Jovens Escritores”, que incentiva a leitura e a produção de histórias autorais.

Projeto nascido na pandemia

Idealizado pela juíza Mariana Freire, em 2020, durante a pandemia da covid-19, o projeto nasceu como “Leitura Amiga” e promove videoconferências semanais para crianças e adolescentes que vivem em Serviços de Acolhimento Institucional para Crianças e Adolescentes (Saicas).

Em julho de 2026, o programa passou a integrar a Coordenadoria de Infância e Juventude do TJ-SP e incorporou a vertente “Jovens Escritores”. A mudança surgiu a partir do desenvolvimento dos participantes com a escrita de suas próprias histórias.

A nova etapa foi celebrada no Palácio da Justiça de São Paulo com o lançamento do primeiro livro coletivo que reúne textos e ilustrações autorais de 37 crianças e adolescentes atendidos pelo programa. O evento contou ainda com sessão de autógrafos dos pequenos autores e premiação aos Saicas e participantes assíduos do projeto.

“Trazer o projeto para o tribunal oferece uma das mais relevantes atividades educativas e transformadoras: a leitura. Merecia ganhar a magnitude de um programa institucional”, afirmou a coordenadora Gilda Diodatti. Segundo ela, o “Leitura Amiga” tem duas contribuições principais: o incentivo à leitura e à criatividade e o acolhimento emocional de crianças e adolescentes afastados de suas famílias.

Para a juíza Mariana Freire, a iniciativa vai além do contato com os livros. O projeto busca criar vínculos e oferecer experiências que ajudem os participantes a reconhecer suas capacidades e imaginar novas possibilidades para o futuro.

“O ‘Leitura Amiga’ é sobre encontros. Sobre alguém que se dispôs a ler e alguém que descobriu o prazer de escutar; sobre a expectativa pela próxima história, a alegria de reconhecer personagens, imaginar mundos diferentes e descobrir possibilidades que talvez ainda não tivessem sido imaginadas”, disse a juíza.

Ela também ressaltou a importância de proporcionar às crianças e aos adolescentes experiências que reforcem seu valor e suas potencialidades. “Como magistrada, ao longo da minha trajetória, aprendi que proteger uma criança significa muito mais do que reconhecer seus direitos ou decidir sobre sua situação jurídica. Significa também criar condições para que ela se desenvolva, descubra suas capacidades e possa imaginar o próprio futuro”, afirmou.

Na cerimônia, algumas histórias foram lidas por leitoras voluntárias, entre elas A menina e as raízes da vida, de Maria Eloisa, de 13 anos, apresentada por Marilda Marques Menezes. Já a história em quadrinhos Os Herdeiros dos Dragões Elementares, criada coletivamente por Bryan, de 11 anos; Gabriel, de 9; Victor, de 5; Juliana, de 11; Luís Henrique, de 7; Evandro, de 8; Fernando, de 16; e Matheus, de 15 anos, foi lida por Livia Elaine Godoy.

Foto: Paulo Santana / TJSP

A programação também contou com a participação de Bel Ito, de 14 anos, autora de Mundo Mágico: o resgate de Flora. Ao lado da mãe, Adriana, ela apresentou a história Anita e o dedo mordido, de sua autoria. Bel participa do “Leitura Amiga” desde 2020, quando começou como leitora voluntária, e aproveitou o encontro para incentivar os jovens a persistirem em seus sonhos.

Potencial transformador

O presidente do TJ-SP, desembargador Francisco Eduardo Loureiro, destacou a importância da iniciativa e a possibilidade de transformar a experiência de leitura em produção autoral. “É uma delícia ler e é uma delícia ouvir histórias. E é mais gostoso ainda quando ouvimos histórias e, de repente, descobrimos que podemos escrever histórias para alguém. Por isso, essa iniciativa é incrível”, afirmou.

Atualmente, o “Leitura Amiga” atende a mais de 30 instituições, conta com mais de 180 voluntários e alcança cerca de 2,4 mil crianças e adolescentes acolhidos no estado de São Paulo. Os encontros ocorrem por videoconferência às quartas-feiras, às 20h, e permitem que os participantes interajam com os leitores durante as atividades.

Com a criação do Jovens Escritores, a equipe pretende criar um curso para leitores voluntários, com o objetivo de aprimorar a condução das leituras e estimular a criatividade das crianças e adolescentes. A ideia é lançar novos livros e levar a outros municípios.

A Coordenadoria da Infância e Juventude atua também como auxiliar e conselheira dos juízes que atuam nessa área e é responsável pelas políticas judiciárias ligadas à infância à juventude, com núcleo de atendimento à primeira infância atuando em várias frentes.

“Nós somos juízes, não fazemos políticas sociais, mas temos essa função também, de fazer a interlocução com a sociedade”, explicou a desembargadora Gilda Diodatti.

A preocupação com as condições de desenvolvimento de crianças e adolescentes aparece na discussão sobre a maioridade penal. Questionada sobre as propostas de redução da idade de responsabilização criminal, Gilda Diodatti disse ser um assunto que ainda precisa de muita discussão. “Não temos essa tradição, essa cultura de penalizar indivíduos ainda em formação pelos atos que praticam”, completou.

Já a juíza Marina Freire afirmou que mudanças na legislação, isoladamente, não resolvem os problemas relacionados à criminalidade juvenil. “Em verdade, esse problema é educacional. Se temos escolas boas, que acolhem essas crianças, e famílias apoiadas para educar e criar seus filhos, não vamos ter esse problema”, disse.

Voluntários interessados em atuar no projeto “Leitura Amiga — Jovens Escritores” como leitores, mediadores, articuladores com instituições de acolhimento ou doadores de livros e equipamentos e Saicas interessados em receber as atividades devem preencher formulário disponível no site do tribunal. Mais informações podem ser obtidas pelo e-mail [email protected]

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