Saúde em 2026: convergência digital esconde divergências sobre desenho do SUS

A polarização da eleição de 2026 não se reproduz de forma linear na saúde. Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) partem de diagnósticos próximos: filas excessivas, dificuldade de acesso à atenção especializada, fragmentação de dados e desigualdade regional.
Também convergem em prontuário eletrônico, telemedicina, inteligência artificial, filas por risco e atenção primária. No debate organizado pelo canal Amado Mundo, Alexandre Padilha e Cláudio Lottenberg defenderam produção nacional de medicamentos, integração de informações e remuneração por desfecho clínico (VARGAS, 2026).
A proximidade não torna os projetos equivalentes. As diferenças surgem quando se pergunta quem coordena a oferta, qual deve ser o papel do setor privado, como os entes federativos dividem responsabilidades, de onde virão os recursos e como a digitalização se converte em capacidade assistencial.
No campo de Lula, a palavra-chave é continuidade. O programa propõe acelerar o prontuário único pela Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), ampliar a telessaúde, usar IA para triagem e regulação por risco e organizar uma fila única digital para a atenção especializada. Prevê ainda expandir o Agora Tem Especialistas e manter parcerias com hospitais privados para exames e cirurgias (SBT NEWS, 2026a). Padilha reforça essa leitura: atual ministro e titular da pasta entre 2011 e 2014, traz experiência direta na gestão federal do SUS (BRASIL, 2026a). A vantagem é partir de políticas existentes; a cobrança será mostrar resultados.
Flávio também coloca a tecnologia no centro. Seu programa prevê prontuário único vinculado ao CPF e ao Gov.br, interoperável entre redes pública e privada, IA para agendamentos e prevenção, uso da capacidade ociosa de prestadores privados e correção da tabela do SUS (SBT NEWS, 2026b). A escolha de Cláudio Lottenberg reforça a agenda de gestão e inovação. Flávio afirmou que pretende levar o “padrão Einstein” ao SUS e fez dele o primeiro nome anunciado para um eventual ministério (UOL, 2026a).
O Einstein integra o Proadi-SUS entre os hospitais de reconhecida excelência e participa de projetos com o Ministério da Saúde em áreas como capacitação, pesquisa, assistência especializada e incorporação de tecnologias (BRASIL, 2026b). Isso dá a Lottenberg uma interface concreta com o SUS e relativiza uma leitura que o situe exclusivamente como representante da saúde privada.
Sua presidência na Confederação Israelita do Brasil acrescenta dimensão política. Em uma eleição polarizada também em torno de Israel e da guerra no Oriente Médio, a escolha pode ser interpretada como sinal para segmentos do eleitorado. Isso é leitura política, não motivação comprovada. O fato verificável é que o anúncio provocou reação dentro da própria comunidade judaica, com a antecipação de um manifesto de apoio a Lula (BERGAMO, 2026).
Há ainda um paralelo com Jair Bolsonaro em 2018. Flávio apresenta a saúde a partir das credenciais setoriais de seu escolhido, e não como resultado de uma negociação partidária. Jair Bolsonaro utilizou argumento semelhante ao anunciar Mandetta, afirmando que o nome tinha respaldo de profissionais, entidades médicas e da Frente Parlamentar da Saúde (EBC, 2018). A comparação tem limite: Mandetta era deputado federal e, portanto, um ator político experiente. O paralelo está na narrativa de legitimação pelo setor. Lottenberg também criticou a condução da pandemia pelo governo Bolsonaro, permitindo a Flávio sinalizar alguma autonomia em relação ao pai (UOL, 2026b).
Usar IA para reduzir filas é atraente, mas fila não é apenas problema de ordenação. Algoritmos podem priorizar risco, cruzar vagas e reduzir ociosidade. Não criam especialistas, exames ou leitos onde falta oferta. Em bases fragmentadas, podem apenas administrar melhor a escassez. Nesse aspecto, talvez o elemento mais decisivo da agenda digital seja também o menos vistoso: interoperabilidade.
A RNDS já é a infraestrutura oficial de interoperabilidade do Ministério da Saúde e trabalha com padrões como o FHIR. Sistemas de regulação desenvolvidos pelos próprios gestores ou contratados de terceiros devem compartilhar dados com a rede, e o Ministério disponibiliza mecanismos de integração por API. Em julho de 2026, a estratégia de federalização da RNDS avançou para a municipalização depois de alcançar os 27 estados (BRASIL, 2026c; BRASIL, 2026d; BRASIL, 2026e). A pergunta aos candidatos, portanto, não deveria ser apenas quem promete um novo prontuário, mas como cada projeto pretende completar uma infraestrutura nacional já em marcha.
É na ponta que surge um gargalo pouco explorado nos programas. Municípios operam softwares próprios ou contratados de diferentes fornecedores, enquanto profissionais registram informações destinadas a políticas, indicadores e sistemas nacionais distintos. Quando as integrações falham, o custo da fragmentação recai sobre quem atende. Pesquisa sobre o e-SUS mostrou que a pouca integração pode exigir o preenchimento do mesmo dado em diferentes interfaces, gerando retrabalho e perda de qualidade da informação (COELHO NETO; ANDREAZZA; CHIORO, 2021). A própria estratégia e-SUS APS estabelece como objetivo reduzir a necessidade de registrar informações semelhantes em múltiplas fichas e sistemas (BRASIL, 2026f).
Esse deveria ser um indicador concreto de qualquer política digital: quanto tempo ela devolve ao cuidado? Se o profissional precisa escolher entre atender o paciente ou alimentar sucessivas telas com informações semelhantes, digitalizar não significa otimizar. A meta deveria ser registrar uma informação uma única vez e permitir que ela abasteça, com segurança, os sistemas que precisam dela. APIs ajudam, mas sua existência formal não resolve o problema se os softwares adquiridos pelos municípios não estiverem efetivamente integrados. É uma dimensão menos atraente eleitoralmente que anunciar IA, mas talvez mais importante para a produtividade cotidiana do SUS.
Caiado oferece a resposta mais explícita ao problema federativo. Seu plano, construído com participação de Luiz Henrique Mandetta, propõe regionalização, filas por prioridade clínica, um plano de interoperabilidade para 2027-2030, metas pactuadas com estados e municípios e um grupo permanente entre Ministério da Saúde, Anvisa, CMED e Conitec para planejar tecnologias de alto impacto (SBT NEWS, 2026c). Mandetta foi secretário municipal, deputado federal e ministro da Saúde, acumulando experiência local, legislativa e federal no SUS (CÂMARA DOS DEPUTADOS, s.d.).
A regionalização enfrenta um problema estrutural do sistema. Média e alta complexidade não podem ser planejadas município a município. Oncologia, cardiologia, trauma e outras especialidades exigem escala populacional, fluxos intermunicipais, transporte sanitário e regulação. A Folha registrou que Mandetta propõe pensar regiões de saúde de aproximadamente 1 milhão a 1,5 milhão de habitantes, inclusive para orientar melhor a distribuição de recursos. O teste será transformar regiões de saúde, que nem sempre dispõem de autoridade decisória compatível com suas responsabilidades, em unidades efetivas de planejamento e coordenação.
Zema converge na saúde digital, atenção primária e regionalização, mas explicita a maior inflexão em direção ao setor privado. Seu programa prevê integração de dados públicos e privados, IA nas filas, contratação de clínicas e hospitais, PPPs, organizações sociais e flexibilização das regras dos planos de saúde, inclusive permitindo diferentes coberturas, segmentações e mecanismos de compartilhamento de custos (SBT NEWS, 2026d). Adriana Ventura, responsável pela formulação da área, é titular da Comissão de Saúde e da comissão especial sobre inteligência artificial da Câmara dos Deputados e tem atuação recente no debate sobre tratamento preditivo de dados de saúde por sistemas de IA (CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2026).
A divergência fica mais clara nesse ponto. Lula também utiliza a rede privada, e Flávio pretende aproveitar sua capacidade ociosa. Zema vai além ao propor mudanças na regulação da saúde suplementar e uma expansão mais sistemática dos modelos privados de provisão e gestão. A questão deixa de ser se o SUS pode contratar prestadores privados, prática já presente no sistema, e passa a ser qual parcela da assistência deve ser organizada por esses mecanismos, sob quais regras e com quais garantias de acesso e equidade.
Resta uma lacuna comum: financiamento e execução. Prontuários, IA, ampliação da atenção especializada, correção de remunerações e contratação de capacidade privada têm custos. No caso dos dois candidatos hoje mais competitivos, análise dos programas de Lula e Flávio já apontou metas pouco quantificadas e ausência de equacionamento claro das fontes de financiamento (COLLUCCI, 2026). Tecnologia pode produzir eficiência, mas não elimina restrições orçamentárias, escassez de força de trabalho ou insuficiência da capacidade instalada.
A eleição revela, assim, um consenso relevante: os principais projetos analisados tratam o SUS como estrutura a ser modernizada, não desmontada. O conflito está no desenho dessa modernização. O próximo governo será testado menos pelo número de ferramentas digitais anunciadas e mais por sua capacidade de fazer o paciente circular sem reconstruir sua história clínica a cada serviço, permitir que o profissional cuide sem repetir o mesmo dado em várias telas e conectar atenção primária, especialistas, hospitais, vigilância e assistência farmacêutica.
BERGAMO, Mônica. Judeus reagem a anúncio de Lottenberg como ministro de Flávio Bolsonaro e divulgam manifesto pró-Lula. Folha de S.Paulo, São Paulo, 31 ago. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2026/08/judeus-reagem-a-anuncio-de-lottenberg-como-ministro-de-flavio-bolsonaro-e-divulgam-manifesto-pro-lula.shtml. Acesso em: 9 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Alexandre Rocha Santos Padilha. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026a. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/ministro. Acesso em: 9 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Ministério da Saúde e hospitais parceiros planejam novo ciclo do Proadi-SUS. Brasília, DF, 20 ago. 2026b. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias-ms/2026/agosto/ministerio-da-saude-e-hospitais-parceiros-planejam-novo-ciclo-do-proadi-sus. Acesso em: 9 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Rede Nacional de Dados em Saúde. Brasília, DF, 2026c. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/seidigi/rnds. Acesso em: 9 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Sistemas de Informação na Regulação do Acesso. Brasília, DF, 2026d. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/drac/regulacao-do-acesso/sistemas-de-informacao. Acesso em: 9 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Ministério da Saúde apresenta estratégia sobre Rede Nacional de Dados em Saúde. Brasília, DF, 14 jul. 2026e. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias-ms/2026/julho/ministerio-da-saude-apresenta-estrategia-sobre-rede-nacional-de-dados-em-saude. Acesso em: 9 set. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Base conceitual do sistema e-SUS APS. Brasília, DF, 2026f. Disponível em: https://sisaps.saude.gov.br/sistemas/esusaps/docs/manual/PEC/PEC_00_base_conceitual. Acesso em: 9 set. 2026.
CÂMARA DOS DEPUTADOS. Biografia do deputado federal Luiz Henrique Mandetta. Brasília, DF, [s.d.]. Disponível em: https://www.camara.leg.br/deputados/160633/biografia. Acesso em: 9 set. 2026.
CÂMARA DOS DEPUTADOS. Deputada Federal Adriana Ventura. Brasília, DF, 2026. Disponível em: https://www.camara.leg.br/deputados/204528 .Acesso em: 9 set. 2026.
COELHO NETO, Giliate Cardoso; ANDREAZZA, Rosemarie; CHIORO, Arthur. Integração entre os sistemas nacionais de informação em saúde: o caso do e-SUS Atenção Básica. Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 55, p. 93, 2021. DOI: 10.11606/s1518-8787.2021055002931.
COLLUCCI, Cláudia. Lula e Flávio Bolsonaro prometem mais saúde, mas nenhum diz quem vai pagar a conta. Folha de S.Paulo, São Paulo, 14 ago. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/08/lula-e-flavio-bolsonaro-prometem-mais-saude-mas-nenhum-diz-quem-vai-pagar-a-conta.shtml. Acesso em: 9 set. 2026.
EBC. Conheça o perfil de Mandetta, indicado ao Ministério da Saúde. TV Brasil, 20 nov. 2018. Disponível em: https://tvbrasil.ebc.com.br/reporter-brasil/2018/11/conheca-o-perfil-de-mandetta-indicado-ao-ministerio-da-saude . Acesso em: 9 set. 2026.
SBT NEWS. Saúde: veja propostas de Lula na íntegra. São Paulo, 4 set. 2026a. Disponível em: https://sbtnews.sbt.com.br/noticia/eleicoes/saude-veja-propostas-de-lula-na-integra . Acesso em: 9 set. 2026.
SBT NEWS. Saúde: veja propostas de Flávio na íntegra. São Paulo, 4 set. 2026b. Disponível em: https://sbtnews.sbt.com.br/noticia/eleicoes/saude-veja-propostas-de-flavio-na-integra . Acesso em: 9 set. 2026.
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UOL. Flávio Bolsonaro: Cláudio Lottenberg levará “padrão Einstein” ao SUS. São Paulo, 29 ago. 2026a. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/08/29/flavio-bolsonaro-carlos-lottenberg-sera-ministro-da-saude-para-trazer-padrao-einstein-ao-sus . Acesso em: 9 set. 2026.
UOL. Flávio diz que terá como ministro médico que criticou Bolsonaro na pandemia. São Paulo, 28 ago. 2026b. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/08/28/flavio-diz-que-tera-como-ministro-medico-que-criticou-bolsonaro-na-pandemia . Acesso em: 9 set. 2026.
VARGAS, Mateus. Conselheiros de Lula e Flávio para a Saúde apresentam planos semelhantes para o SUS. Folha de S.Paulo, Brasília, 8 set. 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2026/09/conselheiros-de-lula-e-flavio-para-a-saude-apresentam-planos-semelhantes-para-o-sus . Acesso em: 9 set. 2026.