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Sem ‘feel good factory’, só restará a Lula dobrar a aposta na tese do remédio amargo

JOTA·
Sem ‘feel good factory’, só restará a Lula dobrar a aposta na tese do remédio amargo

A disputa pela Presidência permanece até agora girando em torno da tese do “remédio amargo”. Em linhas gerais, essa proposição significa fazer uma escolha que deixará um sabor ruim na boca do eleitor, mas que ele julga ser necessária ao país neste momento.

Ou seja, o eleitor engole o remédio amargo e aceita seus possíveis efeitos colaterais em nome de reduzir ou até mesmo acabar com uma doença incurável, no caso, o bolsonarismo ou o lulismo-petismo, a depender do lado no qual o “paciente” se encontra no espectro político-eleitoral.

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O preocupante cenário para Lula (PT) nesta altura da campanha é que Flávio Bolsonaro (PL) dá sinais de estar convencendo parcela expressiva do eleitorado, inclusive a dos chamados “independentes”, de que ele é um mal menor para o país do que o atual presidente. Isto é, ele é o remédio amargo a ser engolido em nome de um futuro melhor. Não por outro motivo, o candidato de oposição já afirmou estar disposto a, uma vez eleito, fazer um “governo de transição”, o que pode servir para tranquilizar quem não enxerga nele capacidade para liderar um projeto de nação.

Flávio insiste no diagnóstico de que a vida está ruim no Brasil. Segundo o candidato do PL, a primeira medida a ser tomada para salvar o país é extirpar o PT e a esquerda. Nesse sentido, ele seria o único candidato de oposição capaz de realizar essa delicada operação, goste-se ou não dele. Assim, o receituário segue encontrando adeptos no eleitorado e mexendo com as pesquisas de intenção de voto.  

Continuidade versus mudança

Qual seria o antídoto para Lula? Contra a tese do remédio amargo, só há uma terapêutica 100% eficaz: convencer o eleitor de que a vida está boa e pode melhorar. Em outras palavras, o presidente precisa contagiar positivamente parcela expressiva dos brasileiros com a continuidade de sua gestão. É o famoso feel good factor que decide eleições na prateleira continuidade versus mudança.

Para um incumbente, com todo o poder de influir na vida real dos eleitores, o feel good tem de ser despertado pela campanha eleitoral, algo que até agora não ocorreu, como era esperado pelos petistas. Se essa sensação de bem-estar inexiste, o eleitor busca quem possa trazer esse sentimento ou que, pelo menos, possa interromper o ciclo de transtornos.

Como diz um experiente analista do cenário, na cabeça do eleitor, às vezes, é melhor mudar, mesmo que seja para pior. Nesse sentido, Lula ainda não empolgar o eleitor, ainda mais considerando sua história e seus três mandatos, é muito ruim para o presidente. É um peso de ferro amarrado na perna. 

Sem empolgação, algo completamente ausente em todos os lados desta campanha, Lula terá de dobrar a aposta na tese do remédio amargo. Se, por exemplo, a democracia, em sentido amplo, estiver em risco, é possível que eleitores não desanimados com o presidente acabem votando novamente nele, exatamente como ocorreu em 2022.

Nesta eleição, porém, o risco democrático ainda não foi totalmente introjetado à agenda de debates, ainda girando em torno de corrupção, economia, segurança e crise do Supremo Tribunal Federal (STF). A tese do remédio amargo, então, no caso de Lula, passará por descredenciar Flávio Bolsonaro em todos os aspectos de sua candidatura, incluindo as questões de ordem ética e moral e não apenas como gestor público. A mensagem explícita será: ruim com o petista, pior sem ele. O medicamento é doloroso, mas necessário.

Por ora, Lula se mantém firme porque Flávio ainda apresenta poucas alternativas em termos de terapêutica e permanece preso à estratégia do remédio amargo: tirar o PT acima de tudo. Se em algum momento, o candidato do PL conseguir empolgar verdadeiramente o eleitor, Lula estará em uma situação muito mais delicada do que neste momento.