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COP30 apresenta dois mapas do caminho para acelerar transição energética e combate ao desmatamento

JOTA·
COP30 apresenta dois mapas do caminho para acelerar transição energética e combate ao desmatamento

A Presidência da COP30 apresentou dois mapas do caminho internacionais para acelerar a implementação de compromissos climáticos relacionados à transição energética e à proteção das florestas. Divulgados pelo presidente da conferência, André Corrêa do Lago, e pela diretora-executiva, Ana Toni, os documentos buscam transformar decisões internacionais em políticas nacionais, investimentos e resultados mensuráveis. Ambos têm como horizonte 2033, em princípio, dada a urgência de medidas de curto prazo voltadas ao combate à mudança do clima.

As propostas tratam de dois dos principais vetores das emissões globais de gases de efeito estufa: a energia, responsável por 75% das emissões, e a perda florestal, que representa 11%. Os documentos se baseiam no primeiro Balanço Global do Acordo de Paris, adotado por consenso na COP28, em Dubai, em 2023.

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Os mapas foram apresentados na plenária de encerramento da COP30, em Belém, e são resultado de consultas internacionais. Segundo a presidência da conferência, são contribuições voluntárias e não prescritivas, que não estão sujeitas a negociação.

A iniciativa também procura reforçar o multilateralismo por meio da implementação de decisões já acordadas pelos países, considerando o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, e as diversas capacidades nacionais.

Segundo André Corrêa do Lago, o material foi feito para ser oferecido aos países, que traçarão seus próprios caminhos. Já Ana Toni destacou que os países devem começar já a fazer seus próprios mapas do caminho, uma vez que a “transição é inevitável”.

Transição exige coordenação entre oferta e demanda

O primeiro documento trata da transição para o afastamento dos combustíveis fósseis nos sistemas energéticos, de forma justa, ordenada e equitativa, com o objetivo de alcançar emissões líquidas zero até 2050.

O mapa considera a transição urgente, inevitável e possível, independentemente do ponto de partida de cada país. O documento destaca que a transformação energética já está em curso, impulsionada pela expansão das energias renováveis, pela eletrificação e pelos ganhos de eficiência energética.

A proposta, entretanto, aponta que a redução da produção de combustíveis fósseis precisa acompanhar a diminuição da demanda. Ao mesmo tempo, os sistemas de energia de baixas emissões devem se expandir para garantir fornecimento confiável e preços acessíveis.

O documento alerta que uma redução da oferta mais rápida do que a queda da demanda pode provocar escassez e volatilidade de preços. Por outro lado, a manutenção da produção acima da demanda futura pode prolongar a dependência dos combustíveis fósseis e deixar investimentos subutilizados.

Uma das principais ferramentas apresentadas é o Belém Índice de Prontidão para a Transição, que avalia a exposição dos países aos combustíveis fósseis e sua capacidade de conduzir a transformação energética.

O índice considera três dimensões:

  • Demanda de energia: examina o consumo nos transportes, na indústria e nas edificações;
  • Oferta de energia: avalia a adequação da produção de combustíveis fósseis à redução da demanda e à expansão de fontes de baixas emissões;
  • Economia como um todo: considera fatores como dependência fiscal, investimentos, custo de capital e sinais de preço.

A partir desses indicadores, os países poderão identificar vulnerabilidades, capacidades e desafios específicos. O documento prevê a aplicação de medidas estruturantes comuns, combinadas com iniciativas adaptadas aos diferentes perfis nacionais de transição.

Para acelerar a implementação, a presidência da COP30 propõe três frentes: incentivar os países a utilizar o índice para identificar prioridades e iniciar ações; lançar o Mutirão TAFF, uma agenda coletiva para coordenar esforços até 2033; e manter o diálogo e a cooperação internacional, inclusive por meio das futuras presidências da COP e do Balanço Global.

O mapa também estabelece que a transição deve considerar as diferentes necessidades de desenvolvimento dos países, ampliar o acesso a serviços energéticos modernos e acessíveis e proteger trabalhadores e comunidades.

Mapa florestal prevê cinco áreas prioritárias de atuação

O segundo documento busca ampliar os esforços para interromper e reverter o desmatamento e a degradação florestal até 2030. A proposta contempla florestas tropicais, subtropicais, temperadas e boreais, além de ecossistemas associados, como turfeiras e manguezais.

Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) citados no documento, o desmatamento anual caiu de 17,6 milhões de hectares entre 1990 e 2000 para 10,9 milhões de hectares entre 2015 e 2025. Apesar da redução, o problema permanece expressivo. As florestas tropicais representam aproximadamente 45% da área florestal global e responderam por 88% do desmatamento registrado entre 1990 e 2025.

O mapa também chama atenção para a degradação florestal, que ocorre quando as florestas permanecem em pé, mas perdem capacidade de armazenar carbono, regular o ciclo da água, sustentar a biodiversidade e garantir meios de subsistência. O documento destaca que calor, seca e incêndios podem agravar esse processo e aumentar o risco de mudanças irreversíveis em grandes ecossistemas, incluindo a Amazônia.

A estratégia identifica cinco áreas complementares de atuação:

  • Conservação;
  • Manejo florestal sustentável agrofloresta e bioeconomia;
  • Combate à degradação florestal;
  • Combate ao desmatamento;
  • Restauração, reflorestamento e florestamento.

Para fortalecer a implementação nacional, o documento propõe uma abordagem em cinco etapas:

  1. Diagnosticar as condições das florestas e os vetores de perda;
  2. Alinhar políticas, instituições e financiamento;
  3. Focar em resultados;
  4. Executar ações e monitorar o progresso;
  5. Avaliar e ajustar a implementação.

Também são apontadas quatro frentes para aproveitar decisões já existentes das COPs:

  1. Aprimoramento dos sistemas de informação e monitoramento florestal;
  2. Fortalecimento da assistência técnica e da capacitação;
  3. Combate ao crime ambiental transnacional;
  4. Criação de incentivos comerciais que recompensem a produção sustentável e livre de desmatamento.

Financiamento é um dos principais gargalos

A necessidade de ampliar os recursos financeiros é um dos principais desafios identificados no mapa sobre florestas.

De acordo com dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) apresentados no documento, o financiamento florestal anual precisa passar de US$ 84,5 bilhões, em 2023, para mais de US$ 300 bilhões até 2030.

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Em 2023, os orçamentos públicos nacionais responderam por 88,3% do financiamento registrado, enquanto o financiamento público internacional representou apenas 3,4%. O documento destaca que a maior parte das florestas tropicais está localizada em países em desenvolvimento, o que concentra nesses países parcela significativa dos custos de conservação e uso sustentável.

O mapa analisa 30 mecanismos internacionais de financiamento florestal, incluindo pagamentos por resultados, REDD+ jurisdicional e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). A avaliação é que muitos instrumentos existentes ainda operam abaixo de seu potencial.

A presidência da COP30 aponta, portanto, para a necessidade de ampliar o volume de recursos, facilitar o acesso aos mecanismos disponíveis e criar incentivos que recompensem países e comunidades pelos esforços de conservação e manejo sustentável.

Implementação e cooperação internacional após Belém

Os dois documentos convergem na avaliação de que os compromissos internacionais precisam ser acompanhados de políticas conduzidas pelos próprios países, cooperação internacional direcionada e ampliação dos investimentos.

A presidência da COP30 propõe que as futuras presidências da conferência mantenham o diálogo sobre a transição para o afastamento dos combustíveis fósseis, inclusive na preparação para o segundo Balanço Global, previsto para 2028.

No caso das florestas, o documento estabelece ações internacionais e marcos indicativos até 2030.

Os mapas também se conectam à Agenda Global de Ação Climática, que reúne mais de 480 iniciativas e coalizões e cerca de 100 Planos de Aceleração de Soluções (PAS), voltados à mobilização de governos, empresas, investidores e sociedade civil para implementar o Acordo de Paris.

Outra articulação é com o Relatório da presidência da COP30 sobre a Implementação do Mapa do Caminho de Baku a Belém rumo a US$ 1,3 trilhão, que trata da ampliação do financiamento climático destinado aos países em desenvolvimento para pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035, considerando fontes públicas e privadas.

Com a preparação para a COP31, em Antália, os documentos reforçam a avaliação da presidência brasileira de que o principal desafio da agenda climática deixou de ser apenas estabelecer compromissos e passou a ser acelerar sua execução. A implementação depende da articulação entre transformação dos sistemas energéticos, proteção das florestas, capacidade institucional, financiamento e cooperação internacional.

Mutirão TAFF prevê ações estruturantes entre 2027 e 2033

O cronograma de mobilização do Mutirão TAFF apresenta três grandes eixos de atuação para sustentar a transição energética: fortalecimento institucional, alinhamento dos sinais de mercado e dos fluxos de capital e ampliação da transformação física dos sistemas energéticos. As iniciativas estão organizadas em um horizonte de 2027 a 2033, com diferentes fases de implementação e continuidade.

O primeiro eixo trata das instituições e dos sinais de longo prazo. Entre as prioridades estão:

  • O fortalecimento da governança e do planejamento da transição;
  • A promoção da coordenação institucional e da capacidade de articulação entre os setores público e privado;
  • O desenvolvimento de estratégias de inovação, diversificação e pesquisa e desenvolvimento de baixo carbono;
  • O reforço do diálogo social e do planejamento territorial da transição.

O segundo eixo concentra-se nos sinais de mercado e nos fluxos de capital. As ações incluem:

  • Alinhar incentivos fiscais, gastos públicos e sinais de mercado;
  • Fortalecer a transparência, a contabilização de carbono e as taxonomias;
  • Melhorar o desenvolvimento de projetos e o ambiente de negócios favorável à sua implementação.

O terceiro eixo prevê a ampliação da transformação física. As prioridades incluem:

  • Reduzir as emissões de metano, eliminar a queima de gás em flares e desenvolver tecnologias de baixas emissões;
  • Avançar na eletrificação, na energia de baixas emissões e na eficiência energética;
  • Ampliar o acesso a uma energia confiável, acessível e moderna;
  • Expandir redes elétricas, armazenamento, interconexões e flexibilidade;
  • Fortalecer os sistemas digitais de energia e a gestão da demanda; e diversificar o fornecimento de energia para reforçar a segurança energética.

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O cronograma estabelece três marcos de acompanhamento: o segundo Balanço Global, em 2028; uma nova rodada de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), em 2030; e o terceiro Balanço Global, em 2033.

A programação diferencia as fases prioritárias de cada iniciativa dos períodos em que as ações começam anteriormente ou continuam após a etapa de maior concentração de esforços. Algumas medidas também estão previstas para prosseguir além de 2033.

A estrutura indica que a implementação do Mutirão TAFF depende da articulação entre governança, planejamento, instrumentos econômicos, investimentos e mudanças concretas nos sistemas energéticos. O cronograma busca organizar esses esforços ao longo da década, com acompanhamento dos avanços nos marcos internacionais previstos.