Entidades de consumidores cobram participação em audiência sobre MP das bets

Oito entidades de defesa do consumidor reivindicam participação na audiência pública que o Supremo Tribunal Federal promoverá na próxima terça-feira (3/11), às 10h, sobre a medida provisória que proibiu as bets. Em nota conjunta divulgada nesta sexta (30/10), as organizações apontam que a programação reúne 28 participantes, mas nenhum representante de instituições dedicadas à proteção dos consumidores.
MagnificA audiência foi convocada pelo ministro Luiz Fux, relator da ADI 8.027, que questiona a MP 1.394/2026. O Brasilcon, o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), a Associação Nacional do Ministério Público do Consumidor (MPCon) e o Fórum Nacional das Entidades Civis de Defesa do Consumidor apresentaram pedidos de habilitação. Contudo, segundo essas entidades, nenhum deles havia sido apreciado até a noite desta sexta.
As organizações pedem que Fux examine os requerimentos antes da audiência e permita a participação dos representantes, inclusive por videoconferência. Caso não haja tempo para as exposições, sugerem que o tribunal marque outra data para ouvir as entidades e outros representantes da sociedade civil.
Pluralidade em discussão
A programação da audiência inclui órgãos públicos, associações ligadas a apostas e loterias, emissoras de TV, entidades empresariais, dez clubes de futebol, a Confederação Brasileira de Futebol e o Comitê Olímpico do Brasil, entre outros participantes.
A ausência de representantes dos consumidores compromete a diversidade do debate, na avaliação das entidades consumeristas.
“A audiência, como está, ouvirá o setor que explora as apostas, o esporte que recebe o seu patrocínio, as emissoras que veiculam a sua publicidade e o Estado que as regula. Não ouvirá quem representa quem aposta”, afirmam as signatárias da nota.
No mesmo documento, elas invocam o artigo 154 do Regimento Interno do STF, que prevê prazo para indicação de expositores e participação das diferentes correntes de opinião quando há posições favoráveis e contrárias à matéria discutida.
Segundo as entidades, o despacho de convocação, de segunda-feira (26/10), indicou diretamente os participantes sem abrir prazo para apresentação de outros nomes. Elas também apontam que, ao solicitar a audiência, a Advocacia-Geral da União defendeu uma composição plural, com representantes dos consumidores, e mencionou expressamente o Idec.
O intervalo entre a convocação e o evento é outro ponto levantado. Considerados o ponto facultativo desta sexta-feira e o feriado de segunda (2/11), as organizações alegam que tiveram apenas três dias úteis para tomar conhecimento da audiência e pedir a participação.
“Não pedimos que o tribunal mude a programação. Quatro entidades pediram habilitação e nenhum pedido foi apreciado. Há tempo, e a participação pode ser virtual: pedimos que a voz de quem aposta — o consumidor — esteja na sala”, diz a presidente do Brasilcon, Amélia Soares da Rocha, que é defensora pública do Ceará.
Impacto sobre as famílias
As signatárias sustentam que a proteção do consumidor integra o próprio objeto da controvérsia. Elas destacam que a Constituição a reconhece como direito fundamental e princípio da ordem econômica e que a Lei 14.790/2023 assegura aos apostadores os direitos previstos no Código de Defesa do Consumidor.
As autoras da nota também argumentam que a medida provisória tem entre seus fundamentos a proteção da saúde, da família e do mínimo existencial — os recursos necessários à subsistência.
O documento recupera manifestações do próprio Fux no julgamento das ADPFs 1.005 e 1.006, sobre mínimo existencial e superendividamento. Na ocasião, conforme a nota, o ministro afirmou: “As pessoas gastam o dinheiro do consumo e do mínimo existencial em bets”.
Em sua petição, o Brasilcon pede também ingresso na ADI como amicus curiae (amigo da corte), condição que permite contribuir com informações e argumentos para o julgamento. O instituto pretende abordar a vulnerabilidade dos apostadores, a publicidade de serviços nocivos e os efeitos das apostas sobre o endividamento familiar.
Outra contribuição proposta trata dos direitos dos consumidores em uma transição de regime. A entidade ressalta que, qualquer que seja o resultado da discussão, haverá saldos a restituir, dados pessoais a proteger, dívidas em andamento e mecanismos de autoexclusão a preservar. Para o instituto, essas questões precisam ser examinadas com a participação de quem representa os usuários.
ADI 7.723
ADI 7.749
ADI 8.024
ADI 8.027
ADI 8.028
ADI 8.035
O post Entidades de consumidores cobram participação em audiência sobre MP das bets apareceu primeiro em Consultor Jurídico.