Fraco desempenho de Caiado e Zema é alerta para futuro de Tarcísio

Desde a redemocratização, em 1985, candidatos eleitos para comandar os principais estados do Brasil nem sequer tomam posse e, automaticamente, já se transformam em “presidenciáveis”. Neste ano, a ocorrência desse fenômeno será observada em vários deles, mas, sem dúvida alguma, em São Paulo, onde Tarcísio de Freitas (Republicanos) deverá ser reeleito ainda no primeiro turno, segundo as mais recentes pesquisas.
O cenário é favorável não apenas porque, desde 2022, Tarcísio vem sendo lembrado como um nome para um dia ocupar o Planalto, mas, principalmente — se as pesquisas se confirmarem —, pela expressividade de sua vitória contra um candidato de vasto currículo público e apoiado pelo presidente Lula (PT), o ex-ministro Fernando Haddad (PT). Ou seja, o governador de São Paulo sairá da eleição ainda mais presidenciável do que entrou.
No entanto, as urnas deverão dar um recado amargo para Tarcísio nos próximos dias: ex-governadores estão há três eleições ostentando desempenhos pífios nas disputas presidenciais. Neste ano, Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) não conseguiram ultrapassar os 5% de intenção de voto nas principais pesquisas.
Ambos estão embolados com outros dois candidatos considerados outsiders na política, o escritor Augusto Cury (Avante) e o ativista Renan Santos (Missão), um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL). Inicialmente, Caiado e Zema, por conta de suas gestões no Executivo estadual, eram os mais cotados para furar a bolha da polarização entre PT e PL (ou entre petistas e bolsonaristas).
Caiado, ex-governador de Goiás por dois mandatos consecutivos (2019-2026), fez uma gestão bem avaliada no estado, com bons resultados em educação e na segurança, por exemplo. Tinha o que mostrar na campanha e concentrou todos seus esforços nessa fórmula. Foi, sem dúvida, seu principal foco. Não deu certo e acabou custando a saída prematura do conceituado marqueteiro Paulo Vasconcelos do comando da comunicação.
O mesmo aconteceu com Zema, que falou de seus resultados no equilíbrio das contas públicas, da atração de investimentos privados e dos índices de segurança em Minas Gerais, onde fez duas gestões no comando do Executivo estadual (2019-2026). Também não deu certo.
Em 2022, os governadores João Doria, então no PSDB e à frente de São Paulo, e Eduardo Leite, também no PSDB e à frente do Rio Grande do Sul, sequer conseguiram reunir forças políticas e eleitorais para obter o direito de concorrer a presidente. Foram preteridos por seus próprios correligionários, que preferiram apoiar Lula ou Jair Bolsonaro (PL).
A lição mais dura, no entanto, está cravada em 2018. Geraldo Alckmin, ainda no PSDB, deixou o Palácio dos Bandeirantes para se candidatar, com apoio de uma ampla aliança, pela segunda vez ao Planalto. Acabou engolido pela polarização entre o PT e Bolsonaro, que foi eleito presidente. O então tucano terminou a eleição com menos de 5% dos votos no primeiro turno.
Um veterano analista de eleições avalia que o fortalecimento das redes sociais, o impeachment de Dilma Rousseff (PT), em 2016, a Operação Lava Jato (2014-2021), o fortalecimento do Congresso pelas emendas obrigatórias e, sobretudo, a personalização da política entre Lula e Bolsonaro foram determinantes para o enfraquecimento dos governadores eleitoralmente.
Mesmo tendo sido derrotados, José Serra (PSDB-SP) em 2002 e 2010, Geraldo Alckmin (PSDB-SP) em 2006, e Aécio Neves (PSDB-MG) em 2014, todos ex-governadores, chegaram ao segundo turno e encarnaram uma alternativa real de poder para parcela expressiva dos brasileiros, especialmente os do campo antipetista. Neste ano, Caiado e Zema não conseguiram chegar perto desse feito.
Caiado, politicamente, preferiu se colocar como uma alternativa para ocupar o lugar de Flávio Bolsonaro (PL), acreditando que, em algum momento, a candidatura do filho de Jair Bolsonaro “derreteria”, assolada por denúncias e suspeitas. O senador, porém, demonstrou e continua demonstrando grande resiliência eleitoral.
Zema foi mais radical. Atacou o presidenciável do PL logo após as primeiras revelações do caso Dark Horse, o filme sobre Jair Bolsonaro financiado pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O eleitor de direita, porém, não largou a mão de Flávio, e o ex-governador pegou a pecha de oportunista, além de ter dividido opiniões dentro de seu próprio partido, que tem uma ala altamente bolsonarista.
Em linhas gerais, o jogo político-eleitoral e as estratégias de campanha foram muito mais determinantes do que o desempenho de ambos à frente de dois estados importantes. O eleitor contemporâneo não parece mais interessado em avaliar currículos e gestões. Quer mais ideologia e polarização.
Assim, Tarcísio terá de ter em mente que, se quiser mesmo concorrer com alta viabilidade eleitoral ao Planalto, não bastará permanecer sentado na cadeira de governador de São Paulo. Os novos tempos de digitalização, polarização e crise permanente exigirão dele mais do que seus antecessores e ex-colegas apresentaram. Por via das dúvidas, também será interessante para ele se afastar do rótulo da terceira via, o mesmo que atropelou Doria, Leite, Caiado, Alckmin, Zema…
Poderia ter sido, mas não foi
Os observadores mais atentos argumentam que, se tivesse sido escolhido por Jair Bolsonaro para ser o candidato da oposição contra Lula neste ano, o governador de São Paulo estaria concorrendo em pé de igualdade e com boas chances (provavelmente até mais do que Flávio) de derrotar o presidente petista. Pois é, mas como Doria e Leite, ele sequer conseguiu entrar no jogo.
Gilmar riu por último contra Zema
O fraco desempenho de Zema foi comemorado por amigos de Gilmar Mendes, do STF. Antes do início da campanha, o ex-governador de Minas publicou vídeos satirizando ministros da Corte e bateu de frente com o decano do Supremo.
Paes também no jogo
Uma vitória no Rio de Janeiro colocará Eduardo Paes (PSD) na lista de presidenciáveis para 2030. Se assumir o governo e demonstrar o mesmo desempenho obtido em seus anos como prefeito da capital fluminense, ele automaticamente passará a ser uma peça decisiva no tabuleiro nacional.
Faz tempo
Desde 1960, quando Jânio Quadros foi eleito presidente, um governador de São Paulo não deixa o comando do estado para chegar ao Planalto. Em 1989, Fernando Collor, então no PRN, saiu direto de Alagoas para assumir a Presidência.