Governo Lula espera eleições de meio de mandato para recalibrar relação com Trump

Com a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições 2026 e a fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos, o governo brasileiro se prepara para negociar novas bases para a relação bilateral com Washington. A aposta é que ainda há espaço para construir uma relação pragmática, mas a dimensão dessa abertura só ficará mais clara após as eleições de meio de mandato para o Congresso norte-americano, realizadas nesta terça-feira (3/11).
A avaliação no Planalto é de que será preciso esperar os dois países passarem por um “reajuste de forças”, como define uma fonte do governo, antes de recalibrar a relação. O resultado das eleições americanas será um termômetro do que está por vir.
O espaço para o pragmatismo dependerá de uma série de variáveis, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Entre as questões que o governo brasileiro busca esclarecer estão o grau de apoio de Washington a Flávio Bolsonaro e a postura que os americanos pretendem adotar em relação ao Brasil daqui para frente. Se Trump perder suas maiorias no Senado e na Câmara, terá mais dificuldades no cenário doméstico.
O entendimento do governo brasileiro é que, descontado o componente ideológico que marca a relação, não há divergências insuperáveis entre os dois países.
No entorno de Lula, contudo, não se descarta a possibilidade de novas sanções americanas, inclusive contra integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), a começar pelo ministro Alexandre de Moraes, que determinou a entrega dos passaportes do ex-candidato.
O Planalto lembra que, no ano passado, o Brasil continuou negociando com os Estados Unidos mesmo sob sanções e conseguiu reverter parte delas.
A leitura é que a vitória de Lula por uma margem de 4,4 milhões de votos reforça a legitimidade do presidente e de seu governo, além de reduzir o espaço para interferências americanas ou questionamentos ao resultado eleitoral.
A eleição brasileira representou uma derrota para a ala mais ideológica da Casa Branca. O grupo perdeu o que considerava a joia da coroa de seu projeto de ampliar a influência sobre o hemisfério, em meio a uma onda de vitórias da direita na região.
Espaço para negociação
As declarações de Trump até aqui, no entanto, deixam algumas portas abertas. A primeira manifestação, feita no dia seguinte à eleição brasileira, pareceu confusa, mas é vista no governo como uma fala calculada. O presidente americano afirmou que nunca havia apoiado um ou outro candidato e disse gostar de Lula, mas também mencionou a palavra “fraude”. Havia, portanto, mensagens para diferentes públicos.
Nesta quarta-feira (28/10), Trump evitou endossar a declaração de Flávio Bolsonaro de que seria o verdadeiro presidente eleito do Brasil. “Não vou comentar isso. Nós demos a ele uma autorização para entrar no país. Mas não vou me envolver”. O americano, contudo, voltou a questionar a eleição brasileira, classificando-a como “muito estranha”, e disse considerar que Flávio foi tratado injustamente.
Foi assim que o governo brasileiro decidiu interpretar a primeira reação de Trump ao resultado eleitoral. O Planalto optou por não divulgar uma nota oficial nem orientar Lula a responder diretamente. Coube ao vice-presidente Geraldo Alckmin rebater as declarações. A estratégia foi preservar o canal de diálogo no mais alto nível, como o governo vem fazendo desde o ano passado.
Dentro do governo americano, já existe uma espécie de fadiga com esse jogo. Há também uma disputa interna na Casa Branca, que não é recente, entre a ala mais ideológica, ligada ao secretário de Estado Marco Rubio, e setores de perfil mais técnico.
Desde o último telefonema entre Lula e Trump, foi criado um grupo de trabalho para discutir a relação bilateral. O governo americano ficou de apresentar uma proposta com modalidades de negociação que fossem além das tarifas. O assunto, porém, permaneceu em aberto até que se definisse quem conduziria as conversas pelo lado brasileiro após a eleição.
No Planalto, a posição é que os investimentos americanos são bem-vindos, inclusive no setor de minerais críticos, desde que não ultrapassem as linhas vermelhas estabelecidas pelo Brasil.
“Não há preconceito nenhum na relação com os EUA, mas o Brasil não vai abandonar sua política externa universal, sua relação com os BRICS, com a Índia, com a China, com a Europa, por conta de qualquer tipo de pressão norte-americana. Então, eu acho que as condições estão dadas”, disse ao JOTA um interlocutor do alto escalão do governo.
O governo reconhece a dimensão do desafio que será lidar com os Estados Unidos nos próximos anos. Mesmo que Trump saia enfraquecido das eleições da próxima semana, será ele quem estará do outro lado da mesa até 2028.
Lula 4.0
Entre aliados de Lula, ganha espaço uma leitura sobre o caráter de transição do quarto mandato, que consideram ter começado politicamente nesta semana. Assim como o Lula 3.0, o Lula 4.0 também seria um governo de transição, mas com desafios distintos. Se o terceiro mandato foi marcado pela reconstrução, o próximo será de enfrentamento de um cenário com pouca margem de manobra.
Essa avaliação leva em conta um país dividido, diante de um novo reequilíbrio de forças políticas, da necessidade de enfrentar uma reforma do Judiciário e de perspectivas limitadas de mudança na conjuntura internacional.
No cenário externo, a expectativa é de continuidade da guerra na Ucrânia e de falta de horizonte para o fim da guerra no Irã, por exemplo. Soma-se a isso a avaliação de que o próximo secretário-geral da ONU precisará assumir compromissos com pautas de interesse dos Estados Unidos para evitar um veto americano à sua escolha.
“Então, temos um quadro de congelamento de nível internacional que vai representar um enorme desafio para a próxima gestão”, afirmou uma fonte.
A relação entre Brasil e Estados Unidos está longe de ser considerada normal. Há uma série de pontos de atrito a serem contornados, para além do tarifaço. Um deles é a indicação do deputado americano Daniel Perez para ocupar a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. O governo brasileiro ainda precisa decidir se concede o agrément, autorização necessária para que ele assuma o posto. A decisão foi adiada durante o período eleitoral.
Há também a situação da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, cujo visto de residência teve seu status alterado abruptamente há alguns meses, deixando de permitir múltiplas entradas nos Estados Unidos.
A questão deverá pesar na análise do visto do futuro embaixador americano. Caso receba o agrément, ele precisará solicitar o documento de residência no Brasil. Pelo princípio da reciprocidade, o visto poderá ser concedido para uma única entrada, como ocorre atualmente com o da embaixadora brasileira, ou para múltiplas entradas, caso Washington reverta a restrição imposta a Viotti.
Por enquanto, não há pedidos de encontros nem reuniões entre os dois governos. O momento é de decantação, enquanto ambos avaliam o novo cenário político.
Existe, contudo, a possibilidade de um encontro entre Lula e Trump ainda neste ano. O presidente brasileiro reeleito tem previsão de participar da cúpula de líderes do G20, marcada para os dias 14 e 15 de dezembro, na Flórida.