Guia prático para entender o julgamento do STF nesta terça (parte 2)

Continuação da parte 1
Prolegômenos
Na coluna de ontem, detalhei cronologicamente os últimos acontecimentos que desencadearam o julgamento de hoje.
Iremos assistir a um debate sobre fatos lamentáveis. Boa parte deles já incontroversos. O sentimento de perplexidade é comungado por eleitores de esquerda e de direita — óbvio, cada um à sua maneira. Mas, creio, todos compartilham da tristeza em ver um pecado que, em gênero, é comum: algumas autoridades colocaram seus interesses pessoais acima do interesse público. E o produto disso é um lamaçal que ainda iremos descobrir se é apenas feio ou se é também criminoso.
Mas que fique claro: o que estará em julgamento são agentes públicos, e não instituições. O Supremo Tribunal Federal está acima disso tudo e seguirá com sua relevância à salvaguarda do regime democrático. Ruim com ele? Pior sem ele.
Além disso, é importante que não se crie a falsa percepção de que o que será debatido hoje resuma o escândalo. Longe disso, a sessão do STF será apenas o recorte vertical de uma das multifacetadas estratégias de Vorcaro para sobreviver a uma crise já escalonada.
O fundamental é percebermos que essa crise envolveu muitos outros players. Cada um foi cooptado em momentos e demandas distintas. Vou denominar essas etapas de “fases”, mas elas não são propriamente delimitações temporais sucessivas. A maior parte delas ocorreu ao mesmo tempo, porém em segmentos distintos e com propósitos variados.
Vorcaro fase 1: aprovação
Ele adquiriu o Banco Máxima em 2017 (governo Temer). A aquisição do controle tramitou quase dois anos no Banco Central até que, em 13/2/2019 (governo Bolsonaro), a operação foi rejeitada por ausência de comprovação da origem e da licitude do capital envolvido.
SpaccaNa ocasião, a presidência do BC estava nas mãos de Ilan Goldfajn, substituído por Campos Neto em 28/2/2019.
Meses depois, Vorcaro apresentou uma nova reestruturação societária e financeira para justificar a aquisição. No período, ele atuou como administrador do Máxima.
Aqui entram em cena duas empresas nebulosas: a Viking Participações e a Brazil Realty Fundo de Investimento Imobiliário. Uma complexa estrutura de operações entre ambas foi apresentada ao BC como justificativa para viabilizar o negócio.
Na época, a CVM já apurava denúncia de que o arranjo entre Viking e Brazil Realty seria fraudulento.
Apesar disso, o BC aprovou por unanimidade, em 14/10/2019, a aquisição do controle do Máxima.
Em 2021, o BC autorizou que o Máxima passasse a se chamar Banco Master. A mudança não foi só de nome. A estratégia mudou: captação de recursos de CDBs remunerados a taxas muito superiores às do mercado, garantidos pelo FGC. Rapidamente, bilhões entraram nos caixas do Master.
Hoje sabe-se que a aprovação da compra do Máxima e a criação do Master só foram possíveis porque os dois principais funcionários do Banco Central responsáveis por fiscalizar aquela instituição financeira estavam no bolso de Vorcaro: Paulo Sérgio Neves de Souza (diretor de Fiscalização) e Belline Santana (chefe de Supervisão Bancária).
Especula-se que Bellini levou R$ 13,5 milhões. Paulo Sérgio, R$ 8 milhões.
Não há evidências concretas de corrupção na CVM. Mas há cheiro ruim. A autarquia recebeu centenas de denúncias administrativas contra Máxima/Master e ainda assim permitiu que o Banco seguisse operando no segmento por ela regulamentado.
Na fase 1, portanto, Vorcaro comprou o seu start empresarial com a participação – dolosa e em alguma medida culposa – do BC e da CVM.
Vorcaro fase 2: gestão de risco e de confiança
A fórmula mágica para um banco funcionar gira ao redor de confiança. Bancos operam alavancados muito além de seu patrimônio de referência.
O Master começou a operar em 2021. Já no ano seguinte, a saúde do banco começou a ser questionada. Em fevereiro de 2022, a CVM recebeu uma denúncia anônima apontando fraudes contábeis para maquiar negócios do Master. A denúncia, em tom profético, dizia: “Essa conta vai ser paga pelo PGC”. A CVM considerou inverossímeis as acusações e arquivou o caso.
Também em 2022, o BC apertou a fiscalização. Em dois anos, foram enviados 31 ofícios ao Master requerendo providências de ajustes e provisões, reforço de capital e mudanças na prática de gestão.
Em janeiro de 2023 Lula assumiu seu terceiro mandato. Naquele ano, Campos Neto determinou a Paulo Sérgio fazer um pente fino nas carteiras do Master. A diretoria do BC recebeu resposta de Paulo Sérgio dizendo que estava tudo ok. Não há prova indicando que Campos Neto tivesse conhecimento de que Paulo Sérgio e Bellini estivessem comprados. Mas está bem claro que, naquela ocasião, o freio já deveria ter sido acionado.
No primeiro semestre de 2024, o BC verificou problemas concretos de liquidez e exigiu plano de ajuste para o Master captar R$ 15 bilhões e reduzir suas dependências a CDBs. O Master não conseguiu cumprir a meta: captou apenas R$ 2 bilhões.
No segundo semestre de 2024 a desconfiança cresceu. Em outubro circulou a famosa reportagem da revista Piauí (“Alta Tensão”), com a manchete: “Em cinco anos, Daniel Vorcaro multiplicou o tamanho do Banco Master, com negócios de risco e parceiros explosivos. Até onde ele vai?”.
No mercado, alguns players começaram a questionar a higidez do modelo de negócio do Master. A conta não fechava: como um banco que captava dinheiro pagando CDBs extraordinariamente caros conseguia aplicar esses recursos em ativos capazes de produzir retorno suficiente para pagar aquela captação?
Mesmo assim, grandes bancos (XP, BTG e Nubank são os principais) seguiram comercializando os papeis exóticos do Master. Estima-se que lucraram mais de R$ 1 bi em spread.
O mercado não é bobo. Sobe o risco, sobe o spread. Clientes iniciaram um movimento de resgate de CDBs. Logo, o mercado secundário festejou: plataformas recompraram papeis do Master com grandes descontos, porém em lotes de R$ 250 mil (limite do FGC).
A desconfiança atingiu níveis alarmantes. Como resolver? Engordando a pirâmide: aumentar a captação oferecendo prêmios ainda maiores. Isso exigiria uma estética negocial de liquidez.
Em novembro de 2024, ainda na gestão Campos Neto, o BC deu um ultimato de seis meses para o Master adequar-se. É nesse período que entra em cena o BRB.
Galípolo assumiu a presidência do BC em 1/1/2025, durante os 6 meses programados para os ajustes. Em março, o Master apresentou plano de aquisição pelo BRB. O negócio foi rejeitado pelo BC em setembro. Em novembro de 2025 o BC decretou a liquidação extrajudicial do Master.
Vorcaro foi preso em 17/11/2025 por ordem da Justiça Federal do Distrito Federal.
Portanto, a nota da fase 2 do banqueiro foi a sedução do mercado a aceitar a estratégia negocial e, mesmo na fase em que os problemas de liquidez já estavam bem evidentes, os papeis do Master seguiram sendo comercializados.
Vorcaro fase 3: gestão
Como um banco com problemas tão ostensivos seguiu operando entre 2021 e novembro de 2025?
Aqui o banqueiro foi ninja.
Vimos que a roda só gira com confiança. E essa confiança deve ser trabalhada no mercado, na opinião pública e em instituições.
Todos sabemos que o mercado não dá muita pelota para educação moral e cívica. O que importa é dinheiro. Então, esse segmento é mais fácil de seduzir: é só aumentar o prêmio e vender a garantia de que o FGC deixaria o peixe fresco. Se quebrar, os papeis estão garantidos.
Eu só não consigo entender como os maiores bancos que integram o FGC fizeram vista grossa para uma conta que todos sabiam que iriam pagar. Alguns desses bancos estavam lucrando na outra ponta, o que explica a omissão. Mas é difícil entender a postura conivente dos demais.
Na manipulação da opinião pública entra a compra de jornalistas e influenciadores. Sicário e Zettel eram os soldados do esquema na interface de mídia. Há notícias de pagamentos para o Diário do Centro do Mundo, Diego Escosteguy (O Bastidor), Léo Dias etc. Thiago Miranda teria sido escalado intermediar e contratar influenciadores para detonar quem detonasse o Master.
No segmento das instituições as estratégias eram ainda mais complexas. Investidores privados são mais difíceis de serem convencidos a aportarem investimentos em instituição financeira comprometida. Mas com um pouco de purpurina, gestores públicos podem ser facilmente “convencidos”.
Hoje sabemos que aportaram recurso públicos no Master:
- Rio de Janeiro (Cláudio Castro-PL): Rioprevidência (R$ 970 milhões em letras financeiras e fundos) e Cedae (R$ 200 milhões em CDB);
- Amapá (Clécio Luis-Solidariedade): Amprev (R$ 470 milhões em letras e fundos);
- Amazonas (Wilson Lima-União Brasil): Amazonprev (R$ 50 milhões em letras);
- Distrito Federal (Ibaneis Rocha-MDB): BRB (R$ 12,2 bilhões em carteiras variadas).
Teve treta também entre Vorcaro e a gestão de Rui Costa e Jaques Wagner (PT) na Bahia. A operação envolveu o Credcesta, um cartão de crédito com desconto direto em folha de servidores. Em 2019, ainda no Banco Máxima, Vorcaro teria adquirido 50% do Credcesta. Há indícios de decretos editados sob medida para beneficiar o Master nessas operações.
Vorcaro também operou forte no Congresso Nacional. Em novembro de 2024, época em que estavam a pleno vapor as tratativas para o BRB comprar o Master (ou seja: o BRB já tinha perdido 12 bi e ia colocar mais grana no negócio), foram apresentados projetos de lei pelo senador Ciro Nogueira (PL-PI) e o deputado federal Filipe Barros (PL-PR) para aumentar o limite do FGC para R$ 1 milhão. Se aprovados, o FGC estaria hoje quebrado.
O portfolio de políticos envolvidos é enorme. Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) teria recebido R$ 30 milhões de comissão para o aporte da Amprev. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Mário Frias (PL-SP) estão atolados até o pescoço com os mais de R$ 60 milhões para financiar o Dark Horse. Hugo Motta (Republicanos-PB) teve custeio de hospedagens e empréstimo à empresa da cunhada. Suspeita-se de João Carlos Bacelar (PL-BA) ter simulado operação imobiliária em Trancoso para embolsar R$ 250 milhões.
Na agenda do banqueiro estavam os contatos de Arthur Lira (PP-AL), Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), Altineu Côrtes (PL-RJ), Doutor Luizinho (PP-RJ), Diego Coronel (Republicanos-BA), Márcio Marinho (Republicanos-BA), Fausto Pinato (União Brasil-SP), Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG) etc. Eu acho justo que todo cidadão brasileiro tivesse o mesmo backup de contatos da agenda dele.
Nikolas Ferreira (PL-MG) era frequentador assíduo do jato do lindão, a quem ele pedia alguns favores. O pessoal da Igreja Lagoinha foi pilhado com aportes de mais de R$ 50 milhões via Zettel.
Para corromper, tem que seduzir. E aí entram as orgias patrocinadas por Vorcaro: Trancoso, Madame Satã etc., frequentadas por muitos dos políticos acima referidos.
Assim, a fase 3 tinha por foco possibilitar a sequência da gestão do negócio. Isso pressupunha (1) captação de dinheiro público para engordar a pirâmide e (2) amolecer o coração das autoridades que iriam legislar ou administrar assuntos de seu interesse.
Vorcaro fase 4: blindagem
Não dá pra dizer que o Master em algum momento voou em céu de brigadeiro. Desde o início, o negócio enfrentou turbulência. Então, essa fase 4 meio que se desenrola junto com as anteriores. Ela surgiu quando a fiscalização começou a apertar.
Em 2021, Vorcaro já contava com a “colaboração” de um escrivão da PF para agir como contraespionagem nas investigações criminais vindouras.
Também em 2021 surgiu o negócio envolvendo o Dias Toffoli, Madrit Participações, resort Tayayá, fundo Arleen e Reag. O ministro reconheceu a operação, mas alegou não saber que era Vorcaro quem estivesse por trás dela.
Em 2023, a PF-SP investigou a hipótese de Nelson Tanure ser o sócio oculto do Master. Até hoje especula-se que Vorcaro seja laranja dele.
No início de 2024, mensagens indicam que Vorcaro estivesse preocupado com um tal inquérito 56/2024. Ao que tudo indica, a investigação criminal contra o Master vazou a partir do BC.
O alerta disparou. Ele criou “a turma”: uma equipe que conseguiu login de acesso a investigações sigilosas no MPF e outros órgãos. Sicário foi designado para compartilhar o que a turma levantava. Entre 2024 e 2025, a íntegra de investigações criminais sigilosas tramitando no MPF foram acessadas por Sicário.
Em janeiro de 2024 ocorreram as negociações para a contratação do escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes.
Na mesma época, a Consult Inteligência Tributária, que prestava serviços para o Master, contratou Kevin Nunes Marques, filho do ministro Nunes Marques.
Em abril de 2024 o Master bancou o 1° Fórum Jurídico Brasil de Ideias em Londres. O famoso evento em que estiveram presentes os ministros Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, ministros do STJ, Paulo Gonet, Ricardo Lewandowski (ministro da Justiça de Lula) e Andrei Rodrigues, diretor geral da PF.
Mensagens trocadas entre fevereiro e abril de 2025 indicam que Vorcaro estreitou seus laços com o ministro André Mendonça com a intermediação do advogado Ciro Soares. O mesmo que, em 15/3/2025, enviou a Vorcaro uma foto ao lado de Gonet em momento de descontração e, em dias subsequentes, retransmitiu recados do PGR e pedidos para custeio de viagem dos filhos dele.
A red flag apareceu em 2025. Até então, as investigações tramitavam em São Paulo e no DF.
Vorcaro foi preso no aeroporto de Guarulhos em 17/11/2025. Há mensagem dele indicando saber que iria ser preso e que vinha discutindo a estratégia com Alexandre de Moraes.
Em 28/11/2025, o TRF-1 concedeu Habeas Corpus, o juízo de primeiro grau remeteu o caso para o STF (especulava-se o envolvimento do parlamentar João Carlos Bacelar), sendo distribuído para Dias Toffoli.
No dia seguinte, Dias Toffoli viajou a Lima/Peru em jato particular para assistir a jogo da Libertadores. No avião estava advogado de um diretor do Master.
Desse momento em diante, especula-se uma postura bastante nebulosa de Dias Toffoli na condução da investigação.
De lá para cá, todos sabem o que houve: Toffoli se deu por impedido, André Mendonça assumiu a relatoria, provas foram vazadas à imprensa e se formou o quiproquó que o STF irá analisar hoje.
É importante perceber que o julgamento de hoje irá colocar a lupa principalmente nessa fase 4. Um jogo muito feio (para se dizer o mínimo) que envolveu ministros do STF, PGR e outras autoridades. Qualquer que seja o desfecho, precisamos ter o cuidado de não varrermos para debaixo do tapete todas as demais estratégias ilegais que foram colocadas em prática para o desfecho.
BC, CVM, mercado, imprensa, Congresso Nacional, Ministério Público e Judiciário, cada um à sua maneira, estão implicados. Certamente estamos diante do maior escândalo criminal da história da república. E é importante que o julgamento de hoje não vire um hiperfoco capaz de ocultar todas as metástases do problema que ainda exigem atenção.
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