Lula desafia o impossível, vira eleição perdida e precisará se reinventar mais uma vez aos 80 anos

Se havia um político no Brasil capaz de protagonizar uma vitória como a deste domingo (25/10), era Luiz Inácio Lula da Silva. O petista foi reeleito presidente do Brasil por volta de 21h10. Com 99,87% das urnas apuradas, Lula tem 51,76% dos votos válidos, enquanto Flávio tem 48,24%.
Aos 80 anos, depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro (PL) e ver sua reeleição seriamente ameaçada, o presidente foi buscar forças onde poucos acreditavam que ainda existissem. Com uma mobilização inédita nas ruas e nas redes sociais, em três semanas ele recuperou terreno nas pesquisas e virou uma eleição que parecia escapar de suas mãos. Uma vitória extraordinária, que o leva pela quarta vez à Presidência da República e acrescenta mais um capítulo a uma biografia política sem paralelo na história recente do país.
A trajetória de Lula ajuda a explicar uma reviravolta tão improvável. O menino retirante que deixou o sertão nordestino em um pau de arara e sobreviveu à miséria — o que por si só já parece um milagre. Tornou-se o líder sindical das grandes greves do final dos anos 1970 e ajudou a fundar um Partido dos Trabalhadores em plena ditadura. Chegou quatro vezes à Presidência da República pelo voto popular. Foi derrotado, preso, dado como politicamente acabado e ressurgiu mais de uma vez. Agora, em sua sétima eleição presidencial, protagoniza outra volta por cima que desafia os limites da política e da própria vida.
A vitória também demonstrou a extraordinária capacidade de mobilização de Lula e a força de um campo político que parecia abatido depois do primeiro turno. Em 21 dias, a campanha petista recuperou o ânimo, reorganizou suas forças e conseguiu assegurar por um fio a recondução de seu líder. O feito ganha dimensão ainda maior diante da força do antipetismo, do enraizamento do bolsonarismo na sociedade e do desejo de mudança que impulsionaram a candidatura de Flávio.
Erros e lições do terceiro mandato
A conquista, porém, não elimina as dificuldades que esperam o presidente. Lula terá de extrair lições não apenas da campanha, mas dos quatro anos que quase lhe custaram a reeleição. Diante de um Congresso ainda mais adverso do que aquele eleito em 2022, precisará ampliar alianças, compartilhar poder e romper o isolamento que marcou boa parte de seu terceiro mandato. O “Lula imperial”, como o descrevem alguns aliados históricos, acostumado a centralizar decisões, distante de seus velhos amigos e cercado de uma corte restrita, terá de dar lugar ao articulador e ouvinte, que construiu sua trajetória ouvindo conselhos, negociando e costurando acordos.
O presidente também precisará entender melhor o país que governará pela quarta vez. Terá de se reaproximar de parcelas importantes da sociedade, sobretudo entre evangélicos e integrantes da classe C. E deixar de confiar excessivamente que o crescimento econômico e a melhora dos indicadores sociais seriam suficientes para garantir reconhecimento popular. Precisará olhar com mais atenção para o orçamento das famílias, o endividamento e o custo de vida. E reconhecer que a defesa da democracia e da soberania nacional, que ele quis colocar como marcas de seu terceiro mandato, são valores abstratos para boa parte da população diante das dificuldades da vida real.
Outra lição é que a derrota de Flávio não significa o fim do bolsonarismo. Lula subestimou a força política do adversário e demorou a perceber que a condenação da tentativa de golpe de 2023 não teria o peso eleitoral que imaginava. O antipetismo continua vivo e a direita sai das urnas com uma presença expressiva no Congresso. A vitória não lhe dará um cheque em branco nem permitirá ignorar a profunda divisão da sociedade brasileira.
Incógnitas e desafio fiscal
Uma das maiores incógnitas a respeito do quarto mandato é sobre como Lula pretende governar. Ele poderá optar por uma inflexão ao centro, fazendo mais concessões aos partidos do Congresso, inclusive na distribuição dos ministérios com maiores orçamentos. Ou recorrer à força das ruas, ressuscitada durante a campanha, e à mobilização nas redes, que o PT aprendeu a explorar sob a liderança quase alienígena de André Janones, para pressionar a classe política em Brasília e defender as bandeiras dos setores sociais que jamais soltaram sua mão. Os dois caminhos não são necessariamente excludentes, mas a escolha da ênfase dirá muito sobre o perfil do Lula 4.
Outro desafio é a situação das contas públicas. Lula iniciará o novo mandato pressionado pelo crescimento da dívida, pelo peso dos juros e pela escassez de recursos para investimentos e novas políticas públicas. Terá de encontrar uma saída para o impasse fiscal sem comprometer os programas sociais que são uma das principais marcas de sua trajetória. A tarefa exigirá escolhas difíceis, sobretudo diante de um Congresso pouco disposto a facilitar a vida do governo e de uma sociedade que continuará cobrando resultados concretos na economia.
O pós-Lula
A questão de fundo é se Lula fará um governo de transição, preocupado em assegurar a continuidade de seu campo político, ou se tentará deixar uma marca forte como legado de seu quarto e último mandato. Em qualquer cenário, não poderá mais adiar a construção de um sucessor e a preparação da esquerda para prosseguir sem o seu comando.
Tudo isso exigirá abrir espaço para novas lideranças, fazer concessões aos aliados e talvez aceitar que o futuro do campo progressista não passe necessariamente por um candidato do PT. A vitória lhe oferece quatro anos para conduzir esse processo, mas também pode alimentar a tentação de acreditar que sua liderança continuará sendo insubstituível.
É difícil imaginar outro personagem da política brasileira capaz de sair de uma situação tão adversa e produzir uma vitória como a deste domingo. O resultado é um triunfo pessoal extraordinário, mas também aumenta a responsabilidade de Lula diante de seu próprio legado.
Em seu último mandato como presidente, depois de superar tantos obstáculos que pareciam intransponíveis, Lula terá pela frente um desafio que nenhuma eleição poderá resolver sozinha. Ele passou décadas transformando o impossível em realidade. Resta ainda a proeza de preparar o país e a esquerda para o pós-Lula.