O clima não espera: desafios para proteger a produção agropecuária brasileira

A consolidação de fenômenos climáticos como o El Niño amplia os desafios para a agropecuária brasileira. Alterações nos padrões de chuva e temperatura afetam a produtividade e podem favorecer a disseminação de pragas e doenças, colocando sob pressão o status sanitário construído ao longo de décadas.
Alterações no regime de chuvas e temperaturas também podem comprometer a produtividade, a qualidade e a disponibilidade de grãos como milho e soja, fundamentais à alimentação animal. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil deve produzir nesta safra 180,5 milhões de toneladas de soja e 143 milhões de toneladas de milho. Uma eventual redução da oferta ou da qualidade desses insumos pode elevar custos e afetar cadeias como aves, suínos, bovinos, leite e ovos, fazendo com que os impactos climáticos cheguem também ao consumidor.
Nesse contexto, a fiscalização vai muito além da vigilância sobre as lavouras e alcança os produtos destinados à alimentação animal, verificando a conformidade, a inocuidade e a rastreabilidade das rações. Esse trabalho é essencial para prevenir riscos sanitários e proteger toda a cadeia de alimentos.
Trabalhar na linha de frente da defesa agropecuária em tempos de El Niño exige monitoramento ostensivo em portos, aeroportos, postos de fronteira e unidades de produção. O cenário real encontrado nas unidades do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), no entanto, revela um descompasso perigoso. Há anos a carreira dos auditores fiscais agropecuários, que são os profissionais responsáveis por esse trabalho, enfrenta um déficit crítico em seu quadro funcional.
O Brasil conta hoje com 2.461 auditores fiscais federais agropecuários em atividade e um déficit de 1.233 profissionais. À carência de pessoal somam-se limitações de infraestrutura, equipamentos e sistemas que precisam de modernização. Eventos climáticos extremos agravam esse cenário. Chuvas intensas, enchentes e secas podem comprometer rodovias e acessos às áreas de produção, dificultando a fiscalização justamente quando ela se torna ainda mais necessária.
Soma-se a isso a restrição orçamentária. Em 2025, foram contingenciados R$ 474 milhões destinados ao Mapa, afetando também os recursos da defesa agropecuária. Fiscalização não deve ser vista apenas como despesa, mas como investimento estratégico na proteção da produção nacional.
Nos primeiros sete meses de 2026, as exportações agropecuárias somaram US$ 103,4 bilhões para mais de 190 destinos. A manutenção desses mercados depende também da credibilidade do controle sanitário e fitossanitário brasileiro. Uma crise não controlada pode gerar perdas de produção e fechar mercados que levaram anos para serem conquistados.
Por isso, recompor o efetivo, assegurar orçamento e estruturar adequadamente as unidades de fiscalização agropecuária não são pleitos corporativos, mas medidas de segurança alimentar e proteção da produção nacional. O clima não espera o calendário administrativo ou orçamentário. Para preservar sua posição entre os maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, o Brasil precisa garantir condições adequadas aos profissionais responsáveis por proteger essa riqueza.