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O outro lado da IA: da ameaça eleitoral à eficiência do Estado

JOTA·
O outro lado da IA: da ameaça eleitoral à eficiência do Estado

A eleição de 2026 traz um ingrediente inédito em escala, velocidade e alcance: o uso disseminado da inteligência artificial. Diferentemente de pleitos anteriores, em que essa tecnologia ainda não estava tão presente no cotidiano e a produção de conteúdos sintéticos era mais limitada, a IA tornou-se parte da rotina de empresas, campanhas e cidadãos, com enormes possibilidades, mas também riscos relevantes.

O debate público, impulsionado por iniciativas da Justiça Eleitoral, dos partidos e de diferentes instituições, tem se concentrado, sobretudo, nas ameaças associadas à tecnologia: sua capacidade de ampliar a desinformação, manipular percepções e comprometer a integridade do processo eleitoral. Trata-se de uma preocupação legítima, que exige preparação, transparência e limites institucionais.

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Mas há outra reflexão urgente que não pode ficar em segundo plano: como a Inteligência Artificial pode fortalecer a democracia ao tornar o Estado mais eficiente, acessível e capaz de responder às necessidades da população?

Sempre que o cidadão se vê diante de um serviço público ineficiente, a confiança nas instituições é colocada à prova. Quando a democracia não consegue entregar resultados concretos, cresce o apelo de respostas que prometem eficiência imediata, ainda que à custa de controles, transparência e equilíbrio institucional.

A frustração cotidiana abre espaço para a ideia de que o sistema não funciona e precisa ser completamente desmontado. O risco é que a incapacidade de entregar serviços básicos seja confundida com uma dificuldade da própria democracia de resolver problemas.

Pense no pai que leva o filho ao posto de saúde e não encontra médico ou medicamentos. Para ele, a constatação é clara: falta Estado.

Por outro lado, quando esse mesmo cidadão decide abrir uma padaria e se vê preso a burocracias sanitárias, fiscais e trabalhistas que não se comunicam, a sensação se inverte: há Estado demais.

É justamente nesse espaço entre a ausência de serviços e o excesso de burocracia que a Inteligência Artificial oferece uma oportunidade sem precedentes. A tecnologia pode processar grandes volumes de dados, integrar sistemas hoje fragmentados e automatizar tarefas repetitivas, permitindo ganhos de eficiência que antes seriam inviáveis ou excessivamente caros.

Imagine um serviço público capaz de antecipar necessidades e oferecer atendimento mais personalizado: sugerir o reagendamento de uma consulta, avisar pelo WhatsApp sobre uma vacina pendente, orientar o cidadão sobre benefícios aos quais tem direito ou emitir licenças e autorizações de baixo risco por meio de agentes digitais supervisionados por servidores públicos.

Automatizar processos é uma forma de devolver tempo, dignidade e previsibilidade ao cidadão — e de permitir que servidores concentrem seus esforços em atividades mais complexas, estratégicas e humanas.

Essa promessa, porém, não vem sem risco, e seria ingênuo tratá-la como solução automática. Um algoritmo mal calibrado pode reproduzir desigualdades já existentes na triagem de um serviço de saúde; um cidadão sem smartphone ou sem sinal de internet pode ficar de fora justamente do atendimento que deveria facilitar sua vida. A eficiência tecnológica só serve à democracia se vier acompanhada de desenho cuidadoso, e de portas alternativas para quem a tecnologia ainda não alcança.

Isso, naturalmente, não significa transferir decisões públicas para máquinas ou substituir o julgamento humano por algoritmos. A adoção responsável da IA exige proteção de dados, transparência sobre processos automatizados, mecanismos para contestar decisões, supervisão humana e regras claras de responsabilização.

É nesse ponto que a regulação inteligente se torna central. Regras bem desenhadas não devem servir apenas para limitar riscos, mas também para criar confiança. Quanto mais seguro, transparente e responsável for o ecossistema, maior será a disposição de cidadãos, governos e empresas para adotar soluções que gerem benefícios concretos.

A IA, utilizada de forma ética e responsável, pode se tornar uma importante aliada da democracia, não apenas ao proteger a integridade das eleições, mas também ao ajudar o Estado a funcionar melhor no cotidiano.

Que o pleito de 2026 seja saudável e que, para além da disputa eleitoral, possamos ampliar o debate sobre como a tecnologia pode fortalecer a capacidade do poder público de servir às pessoas.

A democracia não se fortalece apenas quando protege o voto. Ela também se fortalece quando demonstra, na vida cotidiana, que é capaz de resolver problemas e melhorar a vida dos cidadãos.