Onda de mensagens católicas nas redes preocupa campanha de Flávio e alimenta debate religioso

Na reta final rumo ao primeiro turno das eleições deste ano, manifestações de representantes da Igreja Católica sobre eleições, democracia e soberania nacional foram amplamente divulgadas nas redes sociais e aqueceram ainda mais o debate religioso relacionado aos candidatos a presidente. O tema da religião, que já estava em alta, vem ganhando ainda mais relevância e, a partir de agora, passou a preocupar o estafe da campanha de Flávio Bolsonaro (PL).
A novidade é o que parece ser um movimento coordenado de líderes e fiéis católicos em sintonia com temas levantados pela campanha do presidente Lula (PT) à reeleição. Bispos e arcebispos defendem publicamente nas redes e nas missas a soberania nacional, o compromisso com os pobres e o fim dos jogos de azar, assuntos que estão na agenda eleitoral do petista.
Nesse contexto, em paralelo, uma polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida obrigou Flávio, o principal candidato de oposição ao presidente, a utilizar as redes sociais para negar que apoiaria um projeto para tirar da santa católica o título de “padroeira do Brasil”. A campanha dele apresentou notícia-crime à Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) e pediu a abertura de uma investigação sobre o caso.
Desde o início da campanha eleitoral, Flávio tem procurado se manter como um candidato próximo dos evangélicos, considerados decisivos nas mais recentes eleições do país. O candidato do PL, que se declara evangélico, tem visitado igrejas protestantes e angariado o apoio de pastores.
O chamado “bolsonarismo” é historicamente identificado com esse eleitorado. Michelle Bolsonaro, casada com o ex-presidente Jair Bolsonaro e, portanto, madrasta do presidenciável do PL, é evangélica convicta e praticante. A mistura de religião com política, expressa no lema de Jair Bolsonaro “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, que marcou as eleições de 2018, continua sendo repetido neste ano por apoiadores de seu filho.
Com a onda de mensagens de teor religioso dos últimos dias, nos bastidores da política, integrantes das principais campanhas admitem que esses movimentos têm alto potencial de influenciar na decisão dos eleitores nesta reta final do primeiro turno, seja a favor de Lula ou de Flávio.
Um integrante do alto escalão da campanha petista afirmou ao JOTA, em privado, que considera positiva o que entende ser uma reação dos católicos em favor do presidente. Segundo ele, não se trata de atacar nenhuma das religiões, de reafirmar valores cristãos que estão na base da sociedade e do PT.
De acordo com a mais recente pesquisa presidencial da Quaest, a vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula entre os eleitores evangélicos aumentou de 23 para 30 pontos percentuais. Nesse sentido, uma declaração do presidenciável do PL afirmando que, se vencer a disputa, um dos seus primeiros atos será “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”, teria motivado uma reação dos católicos.
Assim, ganhou tração nas redes uma interpretação, motivada por posts muitas vezes apócrifos e pelo comentário de uma jornalista, de que a manifestação dos bispos expressava o temor de que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, se eleito para o Planalto, retire de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil para agradar aos evangélicos. “É uma grande mentira. Não tem pé nem cabeça. Não existe esse projeto”, afirmou Flávio.
Na sexta-feira (25/9), o ministro André Mendonça, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que plataformas online retirem do ar publicações que associem Flávio ou sua família à intenção de retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Nas redes sociais, o vice-presidente Geraldo Alckmin reafirmou o compromisso do governo Lula com a proteção das tradições religiosas e com o direito de cada brasileiro e brasileira viver a própria fé.
Engajamento da Igreja Católica
De acordo com a mesma pesquisa Quaest, entre os eleitores católicos Lula tem 46% das intenções de voto, e Flávio com 37%. Desde a criação do PT, em 1980, correntes do partido possuem forte ligação com setores “progressistas” da Igreja Católica. Assim, declarações de cunho político feitas em homilias das missas e em vídeos, foram interpretadas como favoráveis a Lula. Na maioria das vezes, porém, não foram mencionados nominalmente candidatos ou partidos.
Outro ponto que chamou a atenção foi a proximidade entre os temas abordados pelos religiosos e assuntos presentes na campanha eleitoral de Lula que levaram boa parte dos usuários das redes a interpretar as declarações como alinhadas à narrativa adotada pelo presidente, candidato à reeleição.
Entre as manifestações que tiveram maior repercussão está um vídeo publicado pelo Regional Norte 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que reúne Amazonas e Roraima. Na gravação, o cardeal Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, afirma que os religiosos não têm partido, mas “uma causa: o Evangelho e os pobres”. Em seguida, declara: “Vote pela democracia”. O vídeo também incentiva os eleitores a participar das eleições e apresenta orientações sobre a escolha dos candidatos.
Outros bispos tratam de temas como soberania nacional, combate à corrupção, proteção ambiental e combate à instrumentalização religiosa das igrejas durante a campanha. Dom Samuel Ferreira, bispo auxiliar de Manaus, afirmou que é importante defender a “soberania do Brasil, da nossa Amazônia e de nossas riquezas e bens” e diz que a democracia é um bem a ser cuidado. Dom Guilherme Werlang, por sua vez, alerta para a manipulação religiosa utilizada para pedir votos e afirma que as igrejas não devem funcionar como currais eleitorais.
Em um homilia feita neste mês, o arcebispo emérito de Aparecida, dom Orlando Brandes, falou sobre soberania nacional durante uma missa em setembro. A defesa da soberania brasileira também aparece em discursos recentes de Lula. Na última terça-feira (22/9), durante a abertura da Assembleia Geral da ONU, o presidente afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” e defendeu que o país não aceite interferências externas em seus processos políticos.
A coincidência de temas fez com que usuários nas redes sociais associassem as manifestações dos religiosos ao discurso do presidente. A leitura, porém, é diferente daquilo que aparece explicitamente nas falas: não há, nas manifestações citadas, indicação de voto em Lula ou em qualquer outro candidato.
O que dizem os representantes da Igreja Católica
Frei Flávio Lorrane Clementino de Almeida, frade franciscano brasileiro da Ordem dos Frades Menores (OFM), que pertencente à Província Franciscana de Santo Antônio do Brasil, em entrevista ao JOTA, afirmou que as manifestações recentes devem ser compreendidas a partir da Doutrina Social da Igreja e do atual magistério da Igreja Católica (Papa Leão XIV), e não como orientações de voto em um candidato específico. “Não vi em nenhuma manifestação a indicação do voto no presidente Lula. As pessoas estão associando as falas a ele por serem bandeiras defendidas também por ele”.
Segundo o religioso, temas como defesa da democracia, cuidado com os pobres, paz, dignidade humana, justiça social e bem comum fazem parte da própria atuação da Igreja e não podem ser automaticamente interpretados como apoio eleitoral. “Quando um bispo ou uma liderança da Igreja fala sobre o cuidado com os pobres, a defesa da democracia, a paz, a dignidade humana, a justiça social e o bem comum, não está necessariamente falando de um candidato. Está falando de princípios que fazem parte da própria missão da Igreja e daquilo que ela ensina”, afirma Frei Lorrane.
Ele também ressalta que manifestações desse tipo não são uma novidade do atual período eleitoral. Segundo o religioso, a Igreja Católica historicamente apresenta orientações aos fiéis durante as eleições para ajudar no processo de discernimento. “Em períodos eleitorais, a Igreja Católica historicamente se manifesta para oferecer pistas e ajudar os fiéis a fazerem um voto consciente, à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja. Talvez neste ano essas manifestações estejam tendo uma repercussão maior nas redes sociais, mas essa preocupação com a formação da consciência dos eleitores não é novidade”, diz.
O padre e Secretário Executivo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Luis Fernando da Silva acrescenta que a estrutura da Igreja permite que dioceses e bispos produzam materiais próprios de orientação aos fiéis durante o período eleitoral. Segundo ele, cada diocese tem autonomia para elaborar seus conteúdos de formação e preparação para as eleições, assim como cada bispo possui autonomia em suas manifestações. “Cada diocese tem autonomia para produzir seus materiais de formação ou de preparação dos fiéis para o ano eleitoral e cada bispo tem a sua autonomia”, afirma.
Luis Fernando explica ainda que, no âmbito estadual, há materiais produzidos de forma conjunta, enquanto a CNBB Nacional também disponibiliza conteúdos próprios. Entre eles, cita uma cartilha de reflexão, a mensagem dos bispos para as eleições e podcasts publicados nos canais oficiais da entidade. “A CNBB Nacional produziu também o seu material, além da mensagem dos bispos para as eleições e também dos podcasts que estão nas redes oficiais da CNBB”, diz.
A posição apresentada por Frei Lorrane e pelo padre Luis Fernando vai ao encontro da mensagem divulgada pela própria (CNBB) em junho deste ano para as eleições de 2026. No documento, a entidade afirma que a Igreja Católica não indica candidatos nem partidos políticos e defende a participação consciente dos cidadãos no processo eleitoral. A CNBB também orienta os eleitores a analisar a trajetória dos candidatos, suas propostas e as consequências dos compromissos assumidos.
A entidade afirma ainda que a democracia, a justiça, a dignidade humana, a paz e o bem comum estão entre os valores que devem orientar a participação dos cidadãos nas eleições. Em setembro, a Presidência da CNBB voltou a abordar a necessidade de preservar o diálogo e a esperança no país em mensagem divulgada pelo Dia da Independência.