Onde estava a plataforma?

Sou mãe de adolescente. Também estudo tecnologia e trabalho nesse universo. Talvez por isso me incomode tanto a rapidez com que, diante de uma tragédia envolvendo crianças, adolescentes e internet, aparece sempre a mesma pergunta: onde estavam os pais?
É uma pergunta legítima. Pais têm responsabilidade sobre os filhos. Precisam conversar, observar, estabelecer limites e tentar conhecer os ambientes digitais que eles frequentam. O que não considero legítimo é transformar essa responsabilidade em explicação suficiente, porque não é.
Existe uma diferença brutal entre criar uma criança e imaginar, de fora, como uma criança deveria ser criada. Em algum momento, aquele bebê que estava permanentemente diante dos nossos olhos se torna adolescente, fecha a porta do quarto, coloca um fone de ouvido e liga o computador. Adolescentes sempre fecharam portas. O que mudou foi o tamanho do mundo que agora cabe dentro do quarto.
Atrás daquela tela podem existir dezenas ou centenas de pessoas: adultos, adolescentes, desconhecidos, comunidades fechadas, imagens violentas, humilhações, chantagens, desafios, mecanismos de pertencimento e relações que os pais sequer sabem que existem. É nesse ponto que a frase “os pais deveriam vigiar” começa a me parecer perigosamente confortável.
Culpar exclusivamente os pais é como colocar uma arma carregada dentro de casa, mostrar à criança exatamente onde ela está e dizer: isso é perigoso, não mexa. E, se um dia acontecer uma tragédia, simplesmente perguntar: mas onde estavam os pais? Orientar uma criança sobre um perigo não elimina o perigo, muito menos encerra a responsabilidade de quem criou as condições para que ela tivesse acesso a ele.
O caso da adolescente de 13 anos que morreu depois de uma transmissão realizada pelo Discord chocou o país. A investigação ainda está em andamento e seria irresponsável transformar suspeitas em fatos definitivos. Há inclusive controvérsia sobre quais plataformas participaram da cadeia de acontecimentos que antecedeu sua morte.
Por isso não pretendo julgar os pais daquela menina, construir uma explicação psicológica sobre os adolescentes que estavam do outro lado da tela ou colocar sobre uma menina de 13 anos a responsabilidade final pela própria morte. Eu não conheço aquelas pessoas. Não sei o que aqueles pais sabiam, o que conversavam com seus filhos ou que relações de poder, medo, pertencimento ou coerção existiam naquele grupo. Se existe investigação criminal, que ela determine as responsabilidades individuais. Minha questão é outra: que ambiente permitiu que aquilo acontecesse?
Quando penso em crianças e adolescentes reunidos em espaços nos quais os adultos praticamente desapareceram, lembro imediatamente de O Senhor das Moscas, de William Golding. No romance, um grupo de meninos fica isolado em uma ilha, sem adultos, e tenta organizar uma sociedade. Surgem regras, hierarquias, lideranças, símbolos e inimigos. Pouco a pouco, aquela organização se degrada. O medo se transforma em instrumento de poder, a violência vira ritual e a crueldade produz pertencimento.
A adaptação cinematográfica de Peter Brook, de 1963, torna isso quase físico: vemos a fina camada da civilização se desfazer diante de nossos olhos. Há algo nessa história que sempre me incomodou porque desmonta uma ideia muito bonita sobre a infância. Costumamos dizer que crianças são boas por natureza. Não sei se são. Acho que crianças são puras – e pureza não é sinônimo de bondade.
Bondade também se aprende. Empatia se aprende. Limite se aprende. Responsabilidade pelo sofrimento do outro se aprende. A percepção de que determinadas ações têm consequências irreversíveis se constrói durante o desenvolvimento. Civilização é, em alguma medida, aprender que nem tudo aquilo que podemos fazer deve ser feito.
E nós, adultos, somos professores bastante contraditórios. Temos uma capacidade extraordinária de identificar a crueldade das crianças e uma dificuldade igualmente extraordinária de reconhecer a nossa. Adultos humilham desconhecidos nas redes sociais, participam de linchamentos virtuais, fazem piadas com tragédias, espalham vídeos de pessoas em seus piores momentos, transformam sofrimento em entretenimento e destroem reputações coletivamente, chamando isso de opinião. Depois olhamos horrorizados quando adolescentes reproduzem mecanismos semelhantes sem possuir ainda os mesmos freios que esperamos de um adulto.
É aqui que entra a responsabilidade das plataformas. O Discord não inventou a crueldade. A internet não inventou o bullying, o sadismo, a manipulação ou a violência entre jovens. Mas uma plataforma constrói um ambiente. Ela decide quais funcionalidades existirão, como pessoas poderão se reunir, quem poderá transmitir imagens, quais barreiras separarão menores de determinados espaços, como denúncias serão recebidas, quais comportamentos serão detectados e quanto será investido em segurança e moderação. Isso não é neutralidade: é arquitetura, e arquitetura produz comportamento.
Essa discussão já ultrapassou o terreno da opinião. Em agosto, a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) determinou preventivamente a suspensão das transmissões ao vivo do Discord no Brasil. Não determinou, até agora, o bloqueio da plataforma inteira. A razão apresentada pela agência é grave: existem indícios de que as salvaguardas disponíveis não são suficientes para enfrentar os riscos aos quais crianças e adolescentes estão expostos.
O caso torna essa contradição ainda mais perturbadora porque o próprio Discord já havia anunciado mudanças específicas para o Brasil para cumprir o ECA Digital, incluindo configurações mais protetivas para adolescentes, restrições de acesso a determinados espaços e mecanismos de aferição de idade. As proteções, portanto, já faziam parte da discussão. A pergunta mais importante não é apenas se uma ferramenta de segurança existia, mas se ela funcionava quando uma criança realmente precisava dela.
Durante muito tempo aceitamos uma espécie de pacto estranho com as empresas de tecnologia. Elas projetam os ambientes, criam as ferramentas, definem as regras, possuem dados em escala impossível para qualquer família e desenvolvem sistemas capazes de analisar comportamentos de milhões de usuários. Mas, quando acontece uma tragédia, subitamente descobrimos que a responsabilidade estava dentro de uma casa, atrás da porta de um quarto, com os pais. Não pode ser tão simples.
Isso não significa absolver famílias, pessoas que pratiquem crimes ou afirmar que adolescentes são incapazes de responsabilidade. Significa reconhecer que responsabilidade digital é uma cadeia. Famílias, escolas, usuários, Estado, legislação e empresas de tecnologia fazem parte dela – e as plataformas têm uma responsabilidade particular porque são elas que constroem os espaços onde essas relações acontecem.
Defender simplesmente o banimento definitivo do Discord pode parecer uma resposta sedutora, mas há uma dificuldade que não devemos esconder: comunidades violentas podem migrar para outras plataformas. Proibir uma ferramenta não elimina automaticamente o comportamento que nasceu ou se desenvolveu nela. Por isso, a discussão precisa ser maior que o Discord.
Precisamos discutir verificação de idade que funcione, segurança por desenho, moderação capaz de responder ao contexto brasileiro, mecanismos rápidos para situações de risco, transparência, fiscalização independente e consequências reais para empresas que não consigam proteger crianças dentro dos ambientes que oferecem. Isso tem um nome: regulação. Não censura, não perseguição à tecnologia. Regulação.
Uma fábrica não pode comercializar um brinquedo que ofereça risco intolerável a crianças e responder a um acidente dizendo que os pais deveriam ter supervisionado melhor. Um parque não pode manter uma atração perigosa funcionando e, depois de uma tragédia, perguntar por que a família não tomou mais cuidado. Por que deveríamos aceitar raciocínio diferente quando o produto é digital?
Talvez porque ainda imaginemos a internet como um lugar separado da realidade. Para uma geração inteira, ela não é. Amizades acontecem ali. Paixões acontecem ali. Humilhações acontecem ali. Crimes acontecem ali. Formação política acontece ali. Sexualidade, identidade, pertencimento, violência e afeto passam por ali. A internet é vida real.
Não quero uma sociedade em que pais sejam considerados irrelevantes para a educação digital dos filhos. Quero uma sociedade em que eles não sejam deixados sozinhos diante de empresas infinitamente mais poderosas do que qualquer família.
Quando uma adolescente de 13 anos morre diante de centenas de pessoas, procurar exclusivamente um pai ausente, uma mãe desatenta ou um adolescente cruel pode nos oferecer o conforto de encontrar um culpado. Mas não explica o sistema que tornou aquilo possível.
Chega de transformar toda tragédia digital numa pergunta sobre onde estavam os pais. Está na hora de perguntar também: onde estava a plataforma?