Tributário

Os improváveis e os escolhidos

JOTA·
Os improváveis e os escolhidos

“Eu fui escolhido por Deus”, disse Lula, após a vitória no histórico dia 25 de outubro. Mesmo sem ensino superior completo. Mesmo vindo da classe proletária. De fato, na narrativa bíblica, Deus não costuma escolher quem está preparado, mas quem acha que não está. Davi era o filho mais novo, esquecido no pasto. Salomão, já no trono, disse a Deus que era apenas um menino e não sabia por onde começar.

Na sexta-feira anterior ao segundo turno, li sobre outro personagem improvável – o então candidato a senador pelo Texas, James Talarico. O político foi um dos nomes de maior evidência nas eleições norte-americanas de meio de mandato. Hoje eleito senador, com 96% das urnas apuradas (até a publicação deste artigo), Talarico, ex-professor de escola pública e seminarista presbiteriano a caminho da ordenação, com  37 anos, foi eleito senador, com 5.388.840 votos.

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O que me parece explicar essa vitória histórica de um democrata (que garantiu a vitória com 55,21% frente aos 42,87% do candidato republicano Ken Paxton) em um estado conservador e que não elegia azuis para o Senado desde 1988, é a capacidade de dialogar em meio à bipolaridade que, como no Brasil, hoje divide os Estados Unidos.

Eu, que estudei Direito nos dois países, tenho a teoria de que quase tudo o que acontece na política norte-americana acaba sendo replicado no Brasil, algum tempo depois. E isso não é por acaso. Herdamos dos nossos vizinhos norte-americanos boa parte do nosso desenho institucional, a exemplo da opção por ser uma República presidencialista e organizada como federação. A própria Constituição brasileira de 1891 foi modelada com base na carta magna dos Estados Unidos. Nos últimos anos, minha teoria parece ter se confirmado: a primeira eleição do Trump ocorre em novembro de 2016; a de Bolsonaro, em outubro de 2018; o Capitólio foi invadido em 6 de janeiro de 2021; e a Praça dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023.

Acontece que, nas últimas eleições presidenciais brasileiras, esse espelhamento parece ter sido interrompido. Enquanto, nos Estados Unidos, Trump perde em 2020 e retorna em 2024, Bolsonaro, que perdeu em 2022, não conseguiu retornar à política, nem através da figura do seu filho. Enquanto ainda estamos todos tentando entender o que pode ter acontecido para fazer com que o Brasil corrigisse a rota,  eu tenho alguns palpites sobre o porquê.

Em março deste ano, durante um curso de liderança em Georgetown, em que tive a honra de participar representando nosso país, uma das palestras me chamou a atenção. O palestrante se chamava Mo Elleithee, fundador do Instituto de Política e Serviço Público da universidade, ex-porta-voz de Hillary Clinton na campanha de 2008, ex-diretor de comunicação do Comitê Nacional Democrata no governo Obama e comentarista da Fox News entre os anos de 2016 e 2022. Na oportunidade, Elleithee apresentou aos ouvintes um diagnóstico sobre a ascensão de candidatos de direita no mundo que eu nunca havia escutado antes.

Ele explicou que, durante muito tempo, a política foi definida em um espectro entre esquerda e direita. Ao longo dos últimos 50 anos, porém, o paradigma passou a ser o quanto o sistema funciona para o eleitor. A mensagem disseminada é “se o sistema não está funcionando para você, é necessário buscar alguém de fora do sistema”. No fundo, há uma perda de confiança nas instituições, porque as pessoas sentem que estão paradas no fim da fila e esperam candidatos que possam “lutar por elas”. A escolha passa, então, por três perguntas: (i) qual dos candidatos me entende?; (ii) quem é mais capaz de lutar por mim e pela minha família?; e (iii) quais eu poderia convidar para jantar em minha casa (o que exige confiança!)? O professor acrescentou, ainda, que, com base nesse novo processo decisório do eleitor, as campanhas políticas acabaram se pautando em dois sentimentos: esperança e medo, sendo o medo um sentimento mais fácil de manejar.

Confesso que, durante o nosso processo eleitoral, as palavras de Elleithee não saíam da minha cabeça e o resultado a que assistimos nas urnas brasileiras durante o primeiro turno das eleições, de certa forma, confirma esse diagnóstico. Acontece que há alguns fatores que fazem com que o diagnóstico do professor não funcione da mesma forma, no Brasil, como funcionou em relação aos nossos vizinhos do norte: a nossa composição étnico-cultural é muito mais miscigenada, o evangelicalismo brasileiro é diferente do estadunidense, o mapa geográfico do desenvolvimento econômico é invertido, e, claro, nós “chegamos depois”, no sentido de que temos o privilégio de assistir de camarote ao que funcionou e ao que não tem funcionado no manejo da grama do vizinho.

I. Um país de muitas linhas de corte

O primeiro elemento é que o nosso país é muito mais miscigenado e culturalmente complexo. Isso importa porque a polarização é, em essência, uma sobreposição de divisões: quando raça, religião, renda e região apontam todas para o mesmo lado, o país se parte ao meio. Enquanto que, nos Estados Unidos, essas linhas tendem a coincidir, no Brasil, elas se cruzam.

Segundo o Censo de 2022, os pardos (45,3%) já superam os brancos (43,5%). A religião segue o mesmo padrão: 56,7% de católicos, 26,9% de evangélicos, 9,3% sem religião e 1% de adeptos de umbanda e candomblé. É, inclusive, comum que uma mesma família brasileira reúna católicos e evangélicos, brancos, pardos e pretos. E é muito mais difícil mobilizar o medo contra “o outro” quando o outro é a tia, o genro ou o vizinho. O desenho institucional reforça esse efeito. Enquanto o voto majoritário de turno único tende a empurrar a disputa americana para dois polos, o multipartidarismo brasileiro, com segundo turno, obriga a negociar e a compor, o que Sérgio Abranches batizou, há décadas, como o nosso “presidencialismo de coalizão”.[1]

II. O evangelicalismo brasileiro não é o americano

O segundo elemento é que a ascensão do movimento evangélico no Brasil é diferente. Nos Estados Unidos, os evangélicos brancos se consolidaram como um bloco partidário: 82% deles apoiavam Trump em 2024. No Brasil, o grupo (aproximadamente 26,9% da população) cresce sobretudo entre pretos, pardos e indígenas, mais do que entre brancos. É um evangelicalismo majoritariamente pentecostal, popular e não branco, que convive com uma maioria católica ainda expressiva.

Ronaldo de Almeida, em “A onda quebrada”, descreveu a chamada onda conservadora brasileira em várias direções: os evangélicos, sobretudo os pentecostais, fazem parte dela, mas não só eles e nem todos eles. Acontece que o ex-presidente Bolsonaro soube canalizar a parcela mais visível desse campo, que não o representa por inteiro. O resultado é um eleitorado disputável: o Datafolha de 8 de outubro mostrava Flávio com 69% entre os evangélicos, contra 25% de Lula; em maio de 2021, a mesma pesquisa registrava empate (35% a 34%).

III. O mapa invertido

O terceiro elemento tem a ver com a nossa geografia. Eu, que nasci em Pernambuco, sei bem como argumentos xenofóbicos apenas reforçam a vontade do Nordeste de manter a mesma escolha. No Brasil, as regiões mais pobres são o Norte e o Nordeste; nos Estados Unidos, ocorreu exatamente o contrário: o Sul é a maior base do Partido Republicano desde o realinhamento que se seguiu aos direitos civis, enquanto o Nordeste brasileiro é o coração do voto progressista.

Nos Estados Unidos, a proteção aos mais pobres vem, sobretudo, por créditos tributários e benefícios em espécie, pouco perceptíveis como uma “entrega” do governo, é o que Suzanne Mettler descreveu como o “Estado submerso”. Aqui, o Bolsa Família chega em dinheiro, de forma direta e identificável, associado a um líder específico.

Parece-me que, graças à conjunção desses três elementos, o diagnóstico de Elleithee encontrou entraves por aqui. Em outras palavras, enquanto, nos Estados Unidos, o eleitor que se sentia no fim da fila procurou um outsider e o encontrou na direita, no Brasil, parte expressiva do eleitorado encontrou em Lula um aliado para prevenir disfuncionalidades que os vizinhos do norte parecem vir experimentando com Trump II.

Para o Brasil, o espetáculo não foi abstrato. Em julho de 2025, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros, justificada em carta a Lula pelo julgamento de Jair Bolsonaro, que ele chamou de “caça às bruxas”. Acontece que, para 62,2% dos brasileiros, segundo a AtlasIntel, a medida era injustificada. Parte do eleitorado pôde, assim, aprender na teoria, e não na prática, o que significa ter o interesse nacional tratado como moeda de troca por afinidades ideológicas.

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Além disso, a ideia de assistir de camarote às consequências de um Executivo com maioria no Legislativo e no Poder Judiciário trouxe também para o centro do debate a importância dos freios e contrapesos. Originalmente pensada por Montesquieu, essa ideia remonta à noção de que “para que ninguém possa abusar do poder, é preciso que o poder detenha o poder”.[2] Na tentativa de materializar esse contexto abstrato, por sua vez, James Madison, n’O Federalista, foi além e disse que, se os homens fossem anjos, os governos seriam desnecessários, por isso o desenho institucional deve fazer com que a ambição contenha a ambição.[3]

Mas e agora, José? Com um país dividido, contas públicas comprometidas e as casas legislativas com maioria da oposição, muitos se perguntam como o nosso (improvável) escolhido vai equacionar todos estes desafios. Aqui volta a lição do rising star Talarico: ele consegue se comunicar com todos, inclusive aqueles que não estão no seu campo ideológico, sem abrir mão de suas convicções, muito menos de sua fé.

Lula acaba de nos provar que é um verdadeiro fenômeno político. Mas esta mesma complexidade que o elegeu, feita de católicos e evangélicos, nordestinos e sulistas, ricos e pobres, exige mais do que um campo ideológico.

Quando o rei Salomão pediu a Deus ajuda para governar um povo numeroso, a resposta divina veio com o presente do discernimento. Se o presidente seguir os passos de Talarico, abandonando os extremos para convergir à tão sonhada “terceira via”, pode deixar uma marca ainda maior do que tudo o que nos provou até aqui. De improvável a escolhido, Lula agora tem a chance de juntar os cacos de uma nação fraturada. Afinal, como nos ensinou Ariano Suassuna, precisamos ser realistas esperançosos, enxergando a realidade sem filtros, mas nos recusando a sucumbir. E não é essa exatamente a essência do nosso presidente pernambucano? Que Deus seja contigo, presidente, e que o Senhor seja pelo Brasil.

[1] ABRANCHES, Sérgio Henrique Hudson de. Presidencialismo de coalizão: o dilema institucional brasileiro. Dados – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 31, n. 1, p. 5-34, 1988.

[2] MONTESQUIEU. De l’esprit des lois (1748), Livro XI, cap. IV: “Pour qu’on ne puisse abuser du pouvoir, il faut que, par la disposition des choses, le pouvoir arrête le pouvoir.” Citação em tradução livre.

[3] MADISON, James. O Federalista, n. 51 (6 fev. 1788): “If men were angels, no government would be necessary” e “Ambition must be made to counteract ambition”. Disponível em: https://billofrightsinstitute.org/founding-documents/primary-source-documents/the-federalist-papers/federalist-papers-no-51/. Acesso em: 26 out. 2026.

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