Constitucional

Por que Augusto Cury pode ganhar com a crise

JOTA·
Por que Augusto Cury pode ganhar com a crise

Há uma leitura de que a retirada do sigilo do relatório da PF citando o ministro do STF Alexandre de Moraes favorece diretamente Flávio Bolsonaro (PL). O efeito eleitoral imediato pode ser justamente o oposto.

A crise pode ajudar a oposição como campo, mas isso não significa que ajudará Flávio. A questão é quem consegue capturar melhor o sentimento antiestablishment.

Conheça o JOTA PRO Eleições, cobertura eleitoral especial do JOTA que oferece transparência e previsibilidade para empresas

Flávio não tem exclusividade sobre a agenda anti-Moraes. Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) também disputam esse eleitor. Há, porém, uma diferença importante: Flávio virou representante tradicional da oposição; Augusto Cury – do nanico Avante – pode representar uma ruptura com ela.

É aí que Cury entra. O candidato de fora da política vem crescendo justamente em um momento de maior desconfiança das instituições. No agregador do JOTA, Cury já tem 7%, enquanto Flávio caiu de 34% para 32%. Nas pesquisas mais recentes, Cury chegou a 10%-11%. 

O movimento sugere uma hipótese: a crise pode dar fôlego ao eleitorado antissistema sem necessariamente concentrar esse voto em Flávio.

Cury não precisa ser mais anti-Moraes do que Flávio para se beneficiar da crise. Seu ativo eleitoral é outro. Ele pode apresentar o episódio como mais uma evidência de que o problema está no próprio sistema, e que a saída passa por alguém de fora dele.

Esse é um espaço diferente daquele ocupado por Flávio. O bolsonarista disputa a eleição como candidato da oposição. Cury pode disputar como alternativa à polarização.

Para Flávio, isso é um problema. Ele precisa concentrar o voto oposicionista no primeiro turno. Mas Cury está ajudando a fragmentá-lo.

Para Lula, a maior fragmentação do voto no primeiro turno também é ruim: torna mais distante a possibilidade de uma vitória na primeira rodada.

É esse movimento que merece atenção.

Se Cury estiver capturando o eleitor antipolítica, a crise pode acabar fortalecendo mais o outsider do que o principal nome da oposição até aqui.

O paradoxo é que um episódio que parece feito sob medida para fortalecer a oposição a Moraes pode produzir outro efeito: fortalecer menos Flávio e mais quem consegue se apresentar como alternativa à própria política.

A crise pode ser boa para a oposição. Não necessariamente para Flávio.