Crise no Supremo pesa sobre Lula e embala Flávio Bolsonaro no 7 de Setembro

O 7 de Setembro deste ano condensou uma mudança de momento na eleição 2026. Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tentou dar caráter institucional à data em Brasília, o senador Flávio Bolsonaro (PL) transformou a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) em combustível político na Avenida Paulista e saiu do feriado com a campanha mais animada. Isso não significa uma arrancada de Flávio, mas indica que a disputa entrou numa fase mais favorável ao candidato do PL e mais nebulosa para Lula.
A sucessão de episódios envolvendo Lulinha e, agora, Alexandre de Moraes piorou o ambiente para o presidente, reaqueceu o antipetismo e devolveu à direita uma agenda capaz de mobilizar sua base. O senador não despencou quando vieram à tona os áudios e suas relações com o banqueiro Daniel Vorcaro, assim como também não disparou com os problemas que passaram a atingir o adversário.
Na pesquisa Quaest divulgada nesta segunda-feira, Lula oscilou de 37% para 36% no primeiro turno, e Flávio, de 30% para 29%. A mudança mais importante está na relação de forças: em julho, Lula vencia um segundo turno por 45% a 37%; agora, os dois aparecem empatados em 41%. Flávio não virou um fenômeno. Mas conseguiu sobreviver aos próprios problemas enquanto Lula perdeu terreno.
A crise no Supremo caiu, nesse sentido, como uma luva para o candidato do PL. Alexandre de Moraes é o algoz de Jair Bolsonaro e um personagem que há anos mobiliza a militância da direita. Agora, pela primeira vez, Flávio consegue atacá-lo amparado por uma crise que nasceu dentro do próprio STF e envolve acusações entre ministros da Corte. Isso facilita ao senador encarnar o personagem antissistema sem precisar necessariamente repetir o discurso de ruptura do pai.
Também oferece um endereço político para uma insatisfação que vai muito além do Supremo. Há um mal-estar difuso com as instituições, com corrupção e privilégios e, ao mesmo tempo, com aspectos concretos da economia, como o preço dos alimentos, o consumo ainda pressionado e o endividamento das famílias. Flávio tenta juntar esses sentimentos diferentes sob uma mesma narrativa de que o sistema não funciona e precisa ser mudado.
Críticas concentradas em Moraes
Foi esse o espírito da manifestação desta segunda-feira na Avenida Paulista, o maior ato de rua de Flávio nesta campanha. O público estimado em 28,5 mil pessoas ficou abaixo dos atos bolsonaristas de 7 de Setembro de 2024 e 2025 e muito distante das grandes mobilizações promovidas quando Jair Bolsonaro estava em liberdade. Flávio, para o bem e para o mal, não é o pai. Como resumiu um aliado, o ato em São Paulo não furou a bolha, mas esquentou a militância.
A novidade mais relevante talvez tenha aparecido menos no tamanho do ato do que na calibragem dos discursos. Flávio disse que pretende “proteger o STF de Alexandre de Moraes” e recuperar a credibilidade do Judiciário. O pastor Silas Malafaia fez ataques duros ao ministro, mas teve o cuidado de dizer que seu objetivo não era desmoralizar o Supremo. A estratégia é colocar Moraes como alvo, não a instituição. Em vez de exortar a desobediência a decisões judiciais, como Jair Bolsonaro já fez em outros 7 de Setembro, Flávio tenta se apresentar como alguém capaz de corrigir o sistema por dentro.
É uma modulação importante para um candidato que ainda precisa avançar entre os independentes. Flávio não tem como abrir mão da energia do bolsonarismo, mas tampouco pode assustar o eleitor de centro que rejeita Lula e está disposto a considerar uma alternativa. Seu desafio é parecer suficientemente Bolsonaro para manter a base mobilizada e suficientemente diferente do pai para ser aceitável fora dela. A Paulista mostrou uma campanha tentando caminhar exatamente sobre essa linha.
Presidente do sistema
Para Lula, a assimetria é quase inversa. Flávio pode fazer campanha contra o sistema. Lula precisa presidir o sistema. No desfile de 7 de Setembro em Brasília, o presidente fez questão de exibir a face institucional do cargo. Teve ao seu lado o presidente do STF, Edson Fachin, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, o presidente da Câmara, Hugo Motta, o vice-presidente Geraldo Alckmin e boa parte do primeiro escalão do governo. Moraes e André Mendonça, protagonistas da crise no Supremo, não compareceram. O mote era soberania, acompanhado por temas como o combate à violência contra a mulher e a Copa do Mundo Feminina de 2027. No público, houve ainda gritos pelo fim da escala 6×1.
A imagem era presidencial e, em circunstâncias normais, seria positiva. Mas, em um momento em que parte relevante do eleitorado olha com desconfiança para as instituições, Lula é inevitavelmente identificado com elas. Está na cadeira de presidente, tem sua trajetória recente associada à defesa do Supremo depois do 8 de Janeiro e carrega uma relação política de proximidade com Moraes.
O presidente não teve participação na raiz do escândalo que agora atinge o ministro. Ainda assim, é muito mais difícil para o incumbente escapar do desgaste de uma crise do establishment do que para seu adversário.
Aprovação segue caindo
Os números da avaliação do governo mostram o tamanho do alerta. Entre as duas últimas rodadas da Quaest, a aprovação caiu de 45% para 43%, enquanto a desaprovação subiu de 48% para 50%. As oscilações estão dentro da margem de erro, mas ocorreram simultaneamente na direção negativa para Lula e abriram um saldo desfavorável de sete pontos a menos de um mês do primeiro turno. Mais preocupante para o Planalto é que o movimento ocorre justamente quando a campanha começa a aumentar a exposição do presidente, período em que o incumbente esperava melhorar sua avaliação.
Na véspera do feriado, Lula tentou usar a Presidência para falar de um terreno eleitoralmente mais confortável. Em pronunciamento em cadeia de rádio e televisão, adotou a soberania como eixo, falou de terras raras, minerais críticos, petróleo, desenvolvimento tecnológico e liberdade para o Brasil escolher com quem comercializar. Sem citar Donald Trump, voltou a mandar recados aos Estados Unidos e afirmou que o país não será “colônia de ninguém”. É uma narrativa coerente com a campanha que Lula vem construindo e permite ao presidente vestir o figurino de estadista diante de pressões externas.
O problema é que soberania não responde à pergunta que começa a angustiar sua campanha. Um influente aliado do presidente ouvido pelo JOTA chegou a dizer nesta segunda-feira que, “a preço de hoje, Flávio será o próximo presidente do Brasil”.
A frase traduz a mudança de humor num entorno que até pouco tempo enxergava a reeleição como caminho natural. A cúpula da campanha ainda discute como inverter a curva. Há uma percepção cada vez maior de que não basta defender o passado ou enumerar realizações. Lula precisa vender um futuro. E ainda não está claro qual será esse futuro.