Detesto admitir, mas é inevitável: sou cria do Márcio Chaer

Toda vez que eu ia tirar férias e avisava o Márcio, ele dizia que foi por falta de compromisso com o projeto que a União Soviética acabou. Uma vez decidi responder que, na verdade, foi por causa de canalhas sabotadores e que, mesmo assim, demoraram 80 anos para conseguir. Dali em diante, Márcio passou a me chamar de Piotr em todas as comunicações por escrito. Às vezes me apresentava para as pessoas dizendo “esse é o Pedro, nosso comunista”. Teve uma época que começou a me chamar de Pedro Canalha em público, para ver se alguém ria. Só parou quando fez isso com o ministro Celso de Mello e ouviu uma reprimenda.
ReproduçãoO dia a dia era assim: uma minicompetição para ver quem saía com a tirada mais sagaz, enquanto Márcio envidava seus melhores esforços para me constranger. Tipo quando eu emprestei o carregador de celular para ele durante uma viagem a Brasília, e ele mandou uma mensagem no grupo de WhatsApp da redação dizendo que esqueceu o aparelho “na tomada do lado da nossa cama”. Eu morava em Brasília, obviamente não me hospedei no hotel nem dividi quarto com ele — muito menos a cama. Mas a piada foi boa. Trabalhei com ele (para ele) por dez anos. Falei com ele quase todos os dias durante esses dez anos. Posso garantir: o mais sagaz da sala era sempre ele. O melhor jornalista, também.
Uma vez ele me pediu para noticiar um evento qualquer de algum advogado importante. Saíram informações erradas no texto. Ele foi até minha mesa para falar “parabéns, você conseguiu errar todas as informações do evento, data, hora e local. Eu também sei reconhecer esforço”. Durante uma época, minha mesa ficava ao lado da mesa do Maurício Cardoso, diretor-executivo do site e outro dos melhores jornalistas do mundo. Quando Márcio ia lá falar com ele, passava por mim e falava “olá, meu bem, errando muito hoje?” “Hoje, não”, eu respondia. “Ah, só o de sempre, então.”
Todas as justas homenagens que ele tem recebido por sua morte — trágica e absurda, como ele — citam, com razão, sua coragem. Mas era mais que isso. Era o conforto de quem estava certo de suas convicções. Márcio era um sedutor muito hábil em chamar atenção de todos e em deixar marcas por onde passasse e em quem encontrasse. Mas ele não falava o que as pessoas queriam ouvir, como é comum da vida brasiliense onde ele se criou como jornalista. Márcio seduzia porque falava o que queria.
Para qualquer um. Numa entrevista com um ex-presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo que não parava de se elogiar, Márcio disparou: “Beleza, esse é o adjetivo. Mas e de substantivo, não tem nada? Ficou aqui dois anos se olhando no espelho?” O espelho em questão havia pertencido à princesa Isabel e foi doado ao TJ. Outra vez, quando recebeu a conta de um almoço entre mim, ele e o jornalista Carlos Brickmann, alugou o garçom para discursar sobre como a exigência dos 10% eram a institucionalização do suborno (“você sabia que na Argentina eles chamam gorjeta de propina?”). O rapaz ficou ali olhando sem entender onde havia se metido, mas ouviu tudo. No final, Márcio pagou a conta com 20% de suborno.
SpaccaMárcio era, antes de tudo, um apegado à “identidade ideológica” que criou para a ConJur: o direito de defesa é sagrado e universal; quem atenta contra ele, atenta contra as convenções mais básicas da democracia e da civilização. Difícil discordar. Os discursos contra as cruzadas morais disfarçadas de combate à corrupção eram cotidianos. Assim como as críticas aos veículos e jornalistas que compravam pelo valor de face o discurso fácil empunhado pelos arautos da virtude que sempre achavam um jeito de se beneficiar de suas bandeiras republicanas. Idealistas que lucram com seus ideais, como diria o Millôr, para citar um antigo amigo do Márcio.
Conheci Márcio em 2011, aos 22 anos. Antes mesmo de se preocupar em aprender meu nome, ele me mandou a um restaurante entrevistar um advogado, enquanto ele sentaria à mesa ao lado para ouvir a conversa e me avaliar. De volta à redação, fez qualquer comentário sobre a entrevista e me mandou a agenda dele por e-mail. Era um arquivo monumental com os telefones da República inteira. Fiquei assustado com o desprendimento, mas veio a lição: “Uma boa agenda é fundamental, não existe jornalismo sem fonte. Mas não adianta nada uma agenda inerte, cheia de nomes de pessoas com quem você nunca falou. Pelo menos uma vez por semana você precisa ligar para alguém aí da agenda e inventar um assunto para falar com a pessoa. Garanto que você vai dar furo todo dia fazendo isso, tem muita notícia por aí.”
Notícia era a grande neurose dele
Parece óbvio para um jornalista, mas não é. Dessa neurose, vinham duas: inventar assunto para falar com autoridades — já ligou para o Obama hoje? Como você sabe que ele não vai te atender? E para a Dilma? — e atender o bendito telefone da redação, porque podia ser alguém passando notícia. Era irritante ver como ele tinha razão (com o telefone da redação, não com o Obama).
E assim foi. Eu não dava furo todo dia, por óbvio, mas alguma coisa eu devo ter feito direito, porque só fui sair de lá em 2020, depois de ter sido correspondente em Brasília e chefe de redação. Não que eu já tivesse ouvido o Márcio falar alguma coisa. Se eu me atrevesse a cometer um bom trabalho, ele me escrevia para perguntar quem escreveu o texto para mim, porque estava surpreendentemente bom. Uma vez entrevistei um juiz de São Paulo que era o campeão de citações pelos ministros do Supremo no julgamento do mensalão. Foi recorde de audiência na época. Márcio pediu que eu começasse a me preparar para o futuro, porque dificilmente seria “tão feliz de novo”.
Ele amava fazer esse tipo de comentário. Uma vez uma repórter de que ele não gostava estava com dificuldades de encontrar uma informação qualquer. “Então vai para casa e no caminho vê se encontra um jornalista que possa te ajudar”, Márcio disparou, na frente de todos. Meses depois, a repórter passou no Exame da Ordem e se demitiu. Mandou um e-mail que terminava com “até breve, quem sabe um dia eu volto?”. Márcio não perdeu a oportunidade: “Vocês viram a ameaça que a Fulana fez?”
Tinha umas mil frases prontas: “Um ovo não cabe numa caixa de fósforo”; “a pior coisa que existe é um burro com iniciativa”; “os canalhas também morrem”; “se só dá com o pé quebrado, vai com o pé quebrado mesmo”; “ninguém pode ser culpado por ser jovem”. Era o pensamento marciano, como passamos a chamar. Outros jornalistas que passaram por lá certamente lembrarão de outros exemplares.
Márcio gostava de esconder elogios no meio de uma lição: a única diferença entre você e o Fausto Macedo é que ele conta em uma frase o que você conta em dez parágrafos. Fausto era uma das grandes referências de bom repórter nessas conversas. Mônica Bergamo, também. Às vezes falava no Nassif. Mas acho que só. Ele amava menosprezar a importância dos outros, porque achava ridículos os salamaleques palacianos das autoridades de Brasília. Uma vez me apresentou para o presidente de um dos maiores bancos do país falando “esse é o Fulano, trabalha lá no banco”. Mas foi assim que ele me apresentou para tanta gente importante que hoje parece inacreditável um jornalista daquele tamanho confiar tanto num “menino recém-saído das fraldas”, como ele gostava de falar quando a gente brigava. Outro dia precisou ir ao escritório de um advogado enrolado com todo tipo de esquema possível porque a figura estava querendo anunciar na ConJur. Márcio me ligou: “Amanhã acorde cedo. Vou ter que ir no escritório do Beltrano e preciso de um cúmplice”.
Hoje eu acho que isso era mais generosidade do que confiança. Em 2012, conheci o ministro Moreira Alves e o convenci a me dar uma entrevista dali uns dias. Ele não falava com ninguém, odiava dar entrevista e não tinha nenhum respeito pelo trabalho da imprensa. “Bom, alguma coisa ele deve ter visto em você”, foi a reação do Márcio. Mas aí ele me deu uma pilha de coisas para ler e me preparar e para me inspirar na hora de escrever o texto, depois que a entrevista estivesse pronta. “Você vai comigo?”, pedi. “Claro que não, esse momento é seu.” Isso aconteceu algumas vezes depois, quando marquei entrevistas com outras figuras difíceis. Quando o ministro Teori Zavascki morreu num acidente aéreo, ele me pediu para escrever um texto do tipo “o Teori que eu conheci”. Eu não queria, havia falado com Teori um ou dois dias antes de ele morrer e estava abalado com a tragédia. Ele me convenceu falando que eu devia ser o jornalista que mais falava com o Teori do país, porque o ministro desprezava burrice e eu não podia ser acusado de ser burro. Escrevi o texto, óbvio.
No final da minha passagem pela ConJur, nossa convivência foi ficando difícil e a relação, amarga. Mas foi com ele que eu aprendi a ficar de costas para o discurso e procurar notícia na plateia. A coisa que ele mais odiava era me ver falando com colegas jornalistas em eventos e coquetéis. Jornalista de verdade não perde tempo falando com outro jornalista. O velório dele foi, como era de se esperar, lotado de amigos, de grandes jornalistas e de autoridades de todo tipo — além de todas as suas crias, que foram trabalhar na ConJur assim que saíram das fraldas e hoje estão aí pelo mundo. Márcio era quase sempre imprevisível. Não sei o que ele acharia de tanta homenagem. Mas acho que reclamaria de, num lugar tão cheio de fontes como o velório, a gente estar ali conversando entre a gente, e não circulando atrás de notícia.
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