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Entre a bolha e a urna: debates se vencem também pela emoção

JOTA·
Entre a bolha e a urna: debates se vencem também pela emoção

Segundo o Datafolha, 2% dos eleitores disseram ter mudado de voto para presidente logo após o debate da Globo, em 23 de outubro, ou sua repercussão nas cerca de 30 horas seguintes, até o início da votação do segundo turno em que Lula (PT) se reelegeu impondo uma virada inédita contra o vencedor do primeiro turno, o agora senador autoexilado nos EUA Flávio Bolsonaro (PL).

Parece pouco, mas estamos falando de milhões de pessoas. Numa eleição apertada, é muita coisa. O problema de boa parte de quem analisa debates eleitorais é acreditar que eles são vencidos com argumentos. Não são. Ou, pelo menos, não apenas com argumentos: debate eleitoral é, sobretudo, emoção, percepção e memória.

Quem acompanha política profissionalmente costuma avaliar quem apresentou os melhores números, quem dominou determinado assunto, quem respondeu com mais precisão, quem demonstrou maior conhecimento técnico. Mas o eleitor comum não necessariamente assiste a um debate como quem acompanha uma banca de doutorado. Na verdade muitas vezes, nem assiste ao debate inteiro.

Ele vê um trecho no Instagram, recebe um vídeo no WhatsApp, assiste a um corte no TikTok, ouve um comentário de alguém no trabalho. E, mesmo quando acompanha o programa inteiro, dificilmente se lembrará de todas as propostas, estatísticas e explicações. Ele vai lembrar dos momentos que provocaram alguma reação emocional.

É aí que entra uma dimensão fundamental da comunicação política: não basta ter razão, é preciso entender o que fica na memória das pessoas. Flávio Bolsonaro poderia ter apresentado uma sequência impecável de argumentos, dominado os indicadores econômicos e respondido corretamente a todas as perguntas, mas o que acontece quando faz a provocação dos “nove dedos” e recebe uma resposta carregada de significado sobre a origem operária de Lula? O que acontece quando, como no debate anterior, na Band, o candidato de oposição tentou explorar o voto dos presos e Lula responde com uma referência ao próprio Jair Bolsonaro?

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Esses momentos têm uma capacidade de circulação que uma explicação sobre política fiscal ou uma discussão sobre indicadores de segurança pública dificilmente alcança. Aliás, a extrema-direita e seus “cortes” são exatamente isso: apelo à emoção que gera engajamento e votos.

Existe uma provocação, uma resposta, uma inversão de expectativas e uma reação. Não é necessário compreender o contexto inteiro para sentir o impacto. E isso é importante, já que a repercussão de um debate não depende apenas do que foi dito, mas de como cada momento é interpretado, recortado, compartilhado e reconstruído coletivamente. Assim, o debate termina na televisão, mas continua nas redes sociais. E, muitas vezes, é nessa segunda arena que se consolida a memória pública do confronto.

Isso não significa que propostas não importem ou que os eleitores sejam incapazes de avaliar argumentos, mas que a formação da opinião política não é um processo exclusivamente racional. Aliás, isso não é nenhuma novidade inventada pelas redes sociais, a política sempre teve uma dimensão teatral, simbólica e emocional. O que mudou foi a velocidade, a escala e a capacidade de transformar um instante em milhões de impressões.

Existe, é importante lembrar, uma diferença enorme entre ganhar um debate aos olhos de um analista e produzir o momento mais memorável daquele debate. As duas coisas podem coincidir, mas não são a mesma coisa. Há, ainda, outra questão importante: a internet tem uma capacidade extraordinária de mobilização, de criar narrativas, consolidar identidades políticas e transformar expressões em símbolos compartilhados por milhões de pessoas, mas existe uma diferença enorme entre a linguagem que funciona dentro de uma bolha digital e aquela que funciona diante de um público mais amplo.

O que é considerado genial, engraçado ou devastador entre os convertidos pode soar simplesmente ridículo, agressivo ou incompreensível para quem está fora daquele universo. O caso dos “nove dedos” é bastante ilustrativo: nas bolhas bolsonaristas, a expressão circula há anos como uma provocação, quase um código de pertencimento, mas, quando transportada para um debate televisionado, diante de milhões de pessoas que não compartilham necessariamente aquele repertório, a mesma expressão pode adquirir outro significado.

O que pretende ser uma humilhação do adversário pode acabar sendo interpretado como um ataque à sua condição de trabalhador, à sua origem social e até à deficiência física. Ademais, é um erro bastante comum confundir engajamento digital com capacidade de convencimento político. Por exemplo, uma publicação pode receber centenas de milhares de curtidas, provocar uma enxurrada de comentários e viralizar sem convencer absolutamente ninguém fora do grupo que já concordava com ela, ou seja, a internet é extraordinária para mobilizar os convertidos, mas mobilizar não é a mesma coisa que persuadir.

E eleições, sobretudo as mais disputadas, exigem alcançar justamente aqueles que não fazem parte da própria comunidade política. O problema é que as redes sociais criam ambientes nos quais determinados códigos, piadas e comportamentos são permanentemente reforçados, produzindo a ilusão de que todo mundo os compreende e compartilha e quando essa linguagem atravessa a fronteira da bolha e encontra o eleitorado real, o resultado pode ser completamente diferente do esperado. E o político que confunde popularidade dentro da própria bolha com comunicação eficaz fora dela corre o risco de descobrir, da pior maneira, que a viralização não é sinônimo de persuasão.

O próprio Datafolha mostrou uma divisão perfeita na avaliação do confronto da Globo: 36% disseram que Lula foi melhor e 36% apontaram Flávio. Isso deveria servir de alerta para quem transforma a própria impressão sobre um debate numa conclusão universal sobre a reação do eleitorado. O interessante é que, para o mesmo Datafolha, o total dos que efetivamente mudaram o voto seria de “apenas 2%,” o que de certa forma tornaria o debate irrelevante.

E é justamente por isso que debates eleitorais têm um poder que muitas vezes subestimamos. Não é à toa que candidatos à frente nas pesquisas frequentemente relutam em participar deles já que para quem lidera, o debate pode representar mais riscos do que oportunidades: uma frase infeliz, uma provocação mal calculada ou uma resposta desastrosa podem produzir um estrago que semanas de campanha cuidadosamente planejada não conseguem reparar. E, diferentemente de uma entrevista ou de uma peça publicitária, o debate envolve uma variável difícil de controlar: o adversário. Um deslize de poucos segundos pode se transformar no momento mais lembrado de toda a campanha.

Isso ganha uma dimensão ainda maior em eleições apertadas. Quando dois candidatos estão separados por uma margem pequena, uma mudança de 1% ou 2% do eleitorado pode ser suficiente para alterar o resultado. Evidentemente, nem todo debate produz esse efeito, e nem toda repercussão negativa se traduz em perda de votos.

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No entanto, o risco de perder eleitores existe e, assim, um pleito pode ser decidido não apenas por milhões de fatores acumulados ao longo de meses, mas também em virtude de alguns segundos de televisão. E é justamente essa imprevisibilidade que torna os debates tão importantes –e tão temidos por quem tem mais a perder.

No fim, talvez a pergunta mais interessante não seja simplesmente “quem ganhou o debate?”, mas “o que as pessoas vão lembrar desse debate daqui a dois dias?” Porque um argumento pode ser esquecido assim que o candidato termina de falar. Uma imagem, uma provocação infeliz ou uma resposta inesperada pode sobreviver durante todo o pouco período que resta de uma campanha.

Por isso, quem analisa debates olhando apenas para a qualidade dos argumentos corre o risco de compreender perfeitamente o que aconteceu no estúdio, mas muito pouco do que aconteceu na cabeça dos eleitores.