Ressentimento e transferência eleitoral: as bases do voto antipetista no Brasil

Diante do empate técnico entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) nas pesquisas de intenção de voto, multiplicam-se explicações que atribuem o crescimento do filho de Jair Bolsonaro a erros do PT. Este texto propõe outro ângulo: o cenário pode ser explicado pelo histórico de transferência eleitoral no Brasil, pela calcificação do eleitorado entre os polos assimétricos do petismo/lulismo e do antipetismo/bolsonarismo e pelo ressentimento político que move este último.
A literatura sobre geografia eleitoral indica que, até 2002, os votos de PT e PSDB eram relativamente dispersos; a partir de 2006, surgiu um padrão regional: o PT concentrou-se no Norte e Nordeste e em municípios menores, enquanto o PSDB se fortaleceu no Sudeste, Sul e Centro-Oeste, incluindo capitais e áreas metropolitanas.
O padrão se repetiu em 2010 e 2014, com maior polarização. Em 2018, os votos historicamente associados ao PSDB migraram para Bolsonaro; os mapas do PSDB até 2014 são regionalmente semelhantes aos de Bolsonaro em 2018 e 2022.
Cesar Zucco e David Samuels, em Partisans, antipartisans, and nonpartisans: voting behavior in Brazil, interpretam o comportamento eleitoral brasileiro a partir da oposição entre petismo e antipetismo, duas faces de uma partidarização assimétrica. De um lado, há uma identidade partidária positiva; de outro, uma rejeição forte, sem identidade positiva equivalente.
O antipetismo é, assim, um partidarismo negativo: a aversão ao PT estrutura escolhas mesmo sem identificação com outro partido, alimentando-se da reação conservadora a mudanças de valores e políticas sociais associadas ao PT, da associação do partido à corrupção, de críticas econômicas e do antipartidarismo difuso.
A partir de um survey com 10 mil entrevistas, que deu origem a O Brasil no espelho, Felipe Nunes argumenta que parte da sociedade, sobretudo a classe média branca do Sul e Sudeste, viveu os governos petistas como um período em que “outros” melhoraram de vida sem merecer. O ressentimento tornou-se, assim, marcador social associado ao antipetismo e reforçou a polarização afetiva. A ideia de que “outros furaram a fila” está nas bases sociais do bolsonarismo, ponta de lança do antipetismo.
O ressentimento ajuda a explicar por que o escândalo do Banco Master, embora conhecido, produz efeitos eleitorais limitados e assimétricos. Pesquisa Quaest realizada em setembro mostra que 74% dos entrevistados estavam informados sobre a crise no Supremo Tribunal Federal (STF), mas apenas 7% afirmam que o episódio poderia fazê-los mudar de voto.
O dado sugere que novas informações encontram o eleitorado pouco aberto a rever preferências. Em contexto de calcificação, os acontecimentos são interpretados por identidades e rejeições consolidadas; assim, a atribuição de responsabilidade segue a mesma lógica: 21% mencionaram o governo anterior e a família Bolsonaro, 16% citaram o STF e apenas 11% apontaram o governo Lula e políticos do PT. Entre eleitores de Lula, 46% associaram negativamente o escândalo à família Bolsonaro; entre bolsonaristas, 37% responsabilizaram o governo Lula e 22%, o STF.
O mesmo evento é, portanto, incorporado a narrativas opostas: menos informação capaz de deslocar preferências que confirmação de convicções anteriores. Para o eleitorado antipetista, denúncias contra uma liderança de seu campo podem ser relativizadas, deslocadas para adversários ou absorvidas como parte de uma disputa persecutória. A resiliência aparece nos números: no primeiro turno, Flávio passou de 31% para 33%, enquanto Lula avançou de 36% para 37%; no segundo, Bolsonaro aparece com 42% contra 41% de Lula, dentro da margem de erro. O escândalo é filtrado pela polarização afetiva: em vez de produzir deserção significativa, tende a reforçar a defesa do próprio grupo e a transferência da responsabilidade ao adversário.
Nossa hipótese é que o crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas de 2026 corresponde à transferência do voto antipetista, historicamente associado ao PSDB, para o bolsonarismo, que o absorveu em 2018.
A comparação entre a votação de Jair Bolsonaro em 2022 e as intenções de voto de Flávio em 2026 ilustra a transferência sucessória do antipetismo para o bolsonarismo familiar. Em 2022, Jair obteve 43,2% dos votos válidos no primeiro turno e 49,2% no segundo, quando foi derrotado por Lula. Seu desempenho consolidou a concentração no Sudeste, Sul e Centro-Oeste, em grande parte herdada do eleitorado tucano.
Quatro anos depois, a Quaest mostra Flávio com 33% no primeiro turno e 42% no segundo, em empate técnico com Lula, que tem 37% e 41%. Embora inferiores aos do pai, os números indicam uma base robusta e estável, capaz de manter a disputa acirrada mesmo sob escândalos e crises.
Esse desempenho sugere que o capital político de Jair Bolsonaro, especialmente sua capacidade de mobilizar o voto antipetista e estruturar identidades negativas, é transferido ao filho, herdeiro desse bloco. A diferença entre 2022 e 2026 também revela limites: Flávio ainda não iguala o pai, o que aponta para um núcleo duro bolsonarista e para um contingente mais volátil, sensível aos acontecimentos recentes.
É preciso observar 2026 em perspectiva, pois as pesquisas são fotografias de uma tendência; a eleição de 2018 representou a migração maciça do eleitorado tucano para Bolsonaro, e 2022 confirmou esse realinhamento. Em 2026, percentuais inferiores aos de Bolsonaro pai em 2022 são suficientes para manter uma disputa acirrada, sugerindo transferência do capital eleitoral antipetista e a existência de um núcleo bolsonarista imune a escândalos e crises.
Se o nosso diagnóstico estiver correto, 2026 será a consolidação de uma competição em que ressentimento e transferência sucessória permitem ao bolsonarismo reproduzir-se sob escândalos, investigações e crises institucionais. O risco é que, ao normalizar essa dinâmica, o sistema eleitoral passe a premiar não a capacidade de governar ou apresentar projetos, mas a habilidade de mobilizar rejeições, explorar ressentimentos e herdar lealdades construídas em torno de uma figura anterior.
A democracia não colapsa de modo espetacular; ajusta-se a um padrão em que a alternância se torna formal, enquanto o conteúdo da disputa permanece refém de identidades negativas e de um eleitorado que defende líderes menos por mérito que por oposição.