Além das obras: como os planos de governo tratam a mobilidade sobre trilhos

A mobilidade urbana aparece com pesos diferentes nos planos de governo apresentados para as eleições de 2026. Entre as propostas para a Presidência da República e os governos estaduais, há programas que avançam sobre temas como financiamento, integração e expansão do transporte público, enquanto outros abordam os trilhos principalmente sob a perspectiva da infraestrutura ferroviária nacional.
O desafio das cidades, no entanto, vai além da construção de novas linhas. Ampliar a rede exige garantir recursos para manter os sistemas em operação, integrar diferentes modos de transporte e planejar a mobilidade para além dos limites de cada município. É também por essa razão que o nível de detalhamento dado ao tema nos planos se torna tão relevante.
Parte dos planos presidenciais incorpora essas questões às propostas para as cidades, com previsão de investimentos em sistemas de alta capacidade, como metrôs, trens e VLTs, além da modernização das redes existentes e da integração metropolitana. Há também propostas que avançam sobre o financiamento do transporte coletivo, com participação da União, novas fontes de recursos para o custeio do serviço e integração tarifária, física e operacional nas regiões metropolitanas.
A abordagem, porém, não é uniforme. Em alguns planos, a agenda ferroviária aparece principalmente vinculada a uma estratégia de infraestrutura e integração nacional, com metas para ampliação da malha e implantação de grandes projetos ferroviários, sem o mesmo detalhamento para os sistemas urbanos de passageiros, como metrôs, VLTs e trens metropolitanos.
Nos estados, o cenário também é diverso. Em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Distrito Federal, há propostas de expansão de linhas e modernização dos sistemas existentes. Alguns programas avançam sobre integração tarifária, governança metropolitana e mecanismos de financiamento, enquanto outros se concentram em obras específicas. A diferença de abordagem se reflete na forma como cada estado pretende tratar temas de longo prazo, como custeio, integração e renovação das redes.
Sistemas metroferroviários são projetos de longo prazo. Entre estudos, estruturação financeira, licenciamento, obras e início da operação, uma nova linha pode atravessar diferentes governos. Por isso, tão importante quanto definir de onde virão os recursos para construí-la é estabelecer como o serviço será mantido, como seu custeio será estruturado e de que forma o novo trecho se conectará ao restante da rede de transporte.
Esse planejamento se torna ainda mais relevante nas regiões metropolitanas. Uma viagem pode começar em um município, passar por outro e terminar em um terceiro, muitas vezes envolvendo diferentes operadores e modos de transporte. Para o passageiro, a integração precisa acontecer na prática: no trajeto, na tarifa, nos horários e na facilidade de conexão entre os sistemas.
O debate ganhou um novo elemento em 2026 com o marco legal do transporte público coletivo, que estabeleceu diretrizes para integração física, tarifária e operacional das redes e previu mecanismos para financiar tanto a infraestrutura quanto a operação dos serviços. O desafio dos próximos governos será transformar essas diretrizes em políticas públicas capazes de garantir continuidade, qualidade e expansão dos sistemas.
A entrega de uma linha de metrô, trem ou VLT não encerra um projeto de mobilidade. Ela inaugura um compromisso permanente com operação, manutenção e qualidade do serviço. Nos planos de governo, portanto, tão importante quanto dizer quais obras serão construídas é explicar como elas continuarão funcionando depois de prontas.