Desafio das campanhas não é prometer tecnologia, é mostrar para que ela servirá

Tecnologia já não é uma promessa distante nos planos de governo – ela está presente no debate eleitoral, associada a infraestrutura digital, inteligência artificial, inovação, conectividade, educação, inclusão e ambiente de negócios. Uma análise das propostas que vêm sendo apresentadas pelas principais candidaturas à Presidência e aos governos estaduais mostra justamente isso: o digital deixou de ser uma pauta acessória e passou a ocupar espaço na discussão sobre o desenvolvimento do país.
A questão, portanto, não é mais saber se os candidatos estão olhando para a tecnologia. É saber se estão olhando para o que acontece depois dela.
Um país pode ampliar sua infraestrutura de conectividade, aumentar sua capacidade de processamento de dados, investir em inteligência artificial e formar profissionais para a economia digital. Tudo isso é necessário. Mas o cidadão não experimenta transformação digital porque um novo data center foi construído ou porque uma estratégia nacional de IA foi anunciada. Ele a experimenta quando consegue acessar um serviço de forma mais simples, quando um serviço público funciona melhor, quando uma empresa consegue reduzir custos ou acessar novos mercados, quando uma escola utiliza tecnologia para ampliar as possibilidades de aprendizagem.
É essa passagem da tecnologia como promessa para a tecnologia como resultado que precisa ganhar espaço no debate eleitoral.
As propostas analisadas mostram que os principais componentes de uma agenda digital estão identificados. Infraestrutura aparece relacionada à expansão da conectividade e à redução das desigualdades regionais. Tecnologias estratégicas, especialmente inteligência artificial e cibersegurança, ganham espaço.
Pesquisa, desenvolvimento e inovação são associados à competitividade e à soberania. Educação e capacitação entram como resposta à transformação do mercado de trabalho. Inclusão digital aparece ligada a conectividade, equipamentos e acesso a serviços. E o ambiente de negócios incorpora a digitalização como instrumento de produtividade e redução de burocracia.
Há também sinais de que a tecnologia já aparece conectada a agendas que, à primeira vista, parecem pertencer a outras áreas. Propostas que aproximam empreendedorismo, inovação e formação técnica da educação mostram que a transformação digital também depende da capacidade das pessoas de criar, utilizar e se beneficiar das novas tecnologias. Não se trata apenas de desenvolver ferramentas, mas de criar as condições para que elas produzam impacto econômico e mobilidade social.
O governo digital oferece um bom exemplo, com o Brasil avançando na digitalização de serviços e tendo construído plataformas capazes de concentrar uma parcela crescente da relação entre Estado e cidadão. Mas digitalizar uma etapa de um processo não significa necessariamente eliminar a burocracia: se o serviço não for redesenhado de ponta a ponta, a tecnologia pode apenas trocar uma fila física por uma fila virtual.
O mesmo raciocínio vale para a inteligência artificial, que ocupa hoje um espaço cada vez maior no debate público. A discussão sobre desenvolvimento, regulação, segurança e capacidade nacional é indispensável. Mas a sociedade também precisa saber onde essa tecnologia fará diferença: no atendimento de saúde, na educação, na segurança, na produtividade das empresas ou na prestação de serviços públicos. A pergunta não é se teremos IA. É o que faremos com ela, e é exatamente por isso que adoção e fomento fazem toda a diferença.
O Pix oferece uma referência muito mais concreta do que qualquer promessa tecnológica. Sua relevância não veio apenas da tecnologia envolvida, mas da capacidade de tornar pagamentos e transferências mais simples, rápidos e acessíveis, incorporando-se à rotina de milhões de brasileiros.
É essa mesma lógica que deveria orientar a próxima etapa do debate eleitoral.
O desafio de uma política digital não termina quando a infraestrutura está instalada, a plataforma é lançada ou a tecnologia é desenvolvida. É preciso transformar tudo isso em resultados concretos – para quem utiliza um serviço público, para quem empreende, para quem trabalha e para quem aprende.
Por isso, talvez seja necessário mudar a régua usada para avaliar a agenda digital das campanhas. Em vez de contar quantas vezes aparecem expressões como inteligência artificial, inovação ou transformação digital, deveríamos olhar para os problemas que cada proposta pretende resolver, as pessoas que pretende alcançar e os resultados que será capaz de produzir.
Tecnologia é meio e é transversal. O resultado é o que importa.