JOTA Principal | Guerra entre Mendonça e Moraes pelo Master extravasa à campanha presidencial

Em fevereiro de 2017, três dias antes de Michel Temer nomeá-lo ao Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes respondeu questionamentos sobre seu patrimônio e informou que os imóveis dele e da esposa, Viviane Barci, haviam sido “adquiridos com os vencimentos de promotor de Justiça, professor universitário e a venda de mais de 700 mil livros”.
“Tudo devidamente registrado no Imposto de Renda”, acrescentou ao repórter, em nota.
Quase uma década depois, Moraes enfrenta hoje as mais graves suspeitas já levantadas contra um magistrado do topo do Judiciário.
Os R$ 4 milhões que Moraes recebeu da JHSF entre 2010 e 2014, quando esteve à frente de seu escritório de advocacia, soam irrisórios diante dos R$ 131 milhões do contrato entre o Barci de Moraes e o Master. Hoje, sabe-se que o documento foi editado pelo próprio ministro antes de ser assinado, segundo a análise da Polícia Federal.
Dois adversários na eleição presidencial tiveram papel fundamental na trajetória de Alexandre de Moraes — o candidato a vice de Lula, Geraldo Alckmin, e o vice de Ronaldo Caiado, Gilberto Kassab.
Alckmin o levou à política, em 2002, quando Moraes deixou o Ministério Público de São Paulo, onde se notabilizou ao propor uma ação civil pública contra o ex-prefeito Paulo Maluf, para assumir a Secretaria de Justiça de São Paulo.
E, em 2007, Kassab transformou Moraes em um supersecretário da Prefeitura de São Paulo, à frente das pastas de Transporte e Serviços e das presidências da SPTrans e da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego).
Depois, como secretário de Segurança de Alckmin, virou alvo de petistas pela truculência da Polícia Militar. A carreira na política paulista o credenciou ao Ministério da Justiça de Temer, chamado de “golpista” por Lula e seus apoiadores.
Mas esses quase dez anos de Alexandre de Moraes como ministro do Supremo Tribunal Federal adicionaram complexidade à trama.
Os embates com o governo Jair Bolsonaro por meio do Inquérito das Fake News, a condução da eleição de 2022 à frente do Tribunal Superior Eleitoral e a condenação do ex-presidente Bolsonaro e de militares de alta patente por tentativa de golpe de Estado na 1ª Turma do STF alçaram Moraes a protagonista da República. Foi nesse período que emergiu o apelido Xandão.
A reação no Congresso à atuação dele também serviu para pôr às claras algumas relações políticas do ministro. Durante a discussão sobre o PL da Anistia, para reverter a condenação de Bolsonaro pelo 8 de Janeiro, a escolha do relator Paulinho da Força ocorreu pela proximidade do deputado com Moraes.
A relação entre Vorcaro e o ministro, que espera assumir a presidência do Supremo Tribunal Federal em setembro do ano que vem, foi intermediada ao menos em parte por Fábio Faria, ex-ministro do governo Bolsonaro, conforme mostrou a PF.
Há algumas semanas, Moraes intermediou um jantar entre Lula e Davi Alcolumbre, aliado na articulação contra a indicação ao STF do advogado-geral da União, Jorge Messias — escolhido pelo petista e rejeitado pelos senadores em uma votação com precedente apenas em priscas eras.
Ontem (1º) à noite, na saída do Senado, jornalistas questionaram o presidente da Casa o que ele achou sobre as revelações do relatório da PF: “Eu não achei nada, não devo achar nada”, disse Alcolumbre, antes de criticar a quantidade de pedidos de impeachment contra ministros: “Isso não é normal”.
Parlamentares da oposição protocolaram ontem (1º) um novo pedido de afastamento de Moraes, somando 67 pedidos à espera de despacho. Leia mais.
Dos candidatos à Presidência da República, Lula foi o único que não se pronunciou.
“Ali está comprovado que o Alexandre de Moraes era o advogado, de fato, do Vorcaro”, afirmou Flávio Bolsonaro — isso no mesmo dia em que reportagem da piauí revelou que os pagamentos do ex-banqueiro do Master para o filme Dark Horse ocorreram ao menos até setembro de 2025, quatro meses após o que o candidato do PL admitiu até agora.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, também citado nas mensagens divulgadas ontem (1º), se manifestou pela nulidade e extinção da investigação contra Moraes. Leia na nota 3.
Ao contrário do que fez em 2017, antes de ser indicado ao Supremo, Alexandre de Moraes até agora não deu explicações sobre seu crescimento patrimonial.
Boa leitura.
O PONTO CENTRAL
1. Silêncio
No Supremo Tribunal Federal, o dia foi de conversas entre ministros a portas fechadas, Fabio MuraKawa, Marianna Holanda, Flávia Maia e Mariah Aquino escrevem no JOTA PRO Poder.
- Após trechos do relatório da PF serem divulgados pela imprensa e Mendonça retirar o sigilo, começaram as articulações entre os ministros para definir o que seria feito.
- Era necessário mapear os estragos, avaliar as consequências de uma eventual investigação contra um ministro do STF e discutir o melhor momento para o plenário analisar a questão.
🔭 Panorama: Uma ala interpretou a ação de Mendonça como uma tentativa de investigar o colega sem autorização do plenário — leitura apresentada pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, no fim da noite.
- Para esse grupo, ao derrubar o sigilo, Mendonça levou o julgamento para a opinião pública e provocou desgaste na imagem de Moraes.
- Ao mesmo tempo, teria se protegido de eventuais acusações de perseguição.
- Essa ala avalia ainda que Mendonça jogou o tribunal no fogo em um momento em que o Supremo é pauta eleitoral.
- Para esses ministros, o episódio também deixou claro que Mendonça não é um ministro “técnico”, como vinha se rotulando, mas faz o jogo político.
Por outro lado, também houve a avaliação de que Mendonça não poderia blindar Moraes — e nem queria fazê-lo.
- Agora, cabe ao presidente do STF pautar a análise sobre a abertura ou não do inquérito e definir quem deverá conduzi-lo, caso seja autorizado: Mendonça ou um ministro definido por livre sorteio.
- Com a manifestação imediata da PGR, está nas mãos de Fachin o futuro de uma apuração inédita no STF — e suas consequências jurídicas e políticas.
O relatório da Polícia Federal contém diversas mensagens que registram encontros entre Vorcaro e Moraes ao longo de 2024 e 2025 — após a assinatura de um contrato entre o ex-banqueiro e o escritório da esposa do ministro.
- A investigação da PF aponta ainda que Vorcaro negociou a transferência de cotas de um jatinho e de um helicóptero como pagamento por um segundo contrato com o escritório de Viviane.
- “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você”, escreve o então banqueiro ao ministro em uma das mensagens. Leia mais.
- Em uma conversa no dia 15 de novembro de 2025, dois dias antes de ser detido, Vorcaro perguntou a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
Saiba tudo o que diz o relatório da PF e leia a íntegra do documento.
UMA MENSAGEM DA UBER
A necessidade de uma regulação ampla

Com a indefinição jurídica no Supremo Tribunal Federal (STF) após o novo adiamento do julgamento sobre trabalho por aplicativos, as atenções se voltam para o Poder Legislativo. No segundo episódio de “Trabalho em Debate”, patrocinado pela Uber, o professor João Bachur (IDP) defende que o Congresso Nacional crie uma regulação ampla e uniforme para o trabalho intermediado por plataformas.
Ele propõe uma solução estrutural com inclusão previdenciária uniforme das plataformas para evitar regras obsoletas perante a rápida evolução tecnológica.
Assista à entrevista completa no YouTube ou ouça o episódio de podcast no Spotify.
2. Avalanche

A guerra entre Alexandre de Moraes e André Mendonça no Supremo Tribunal Federal extravasou para a campanha presidencial, MuraKawa, Holanda, Maia e Aquino prosseguem na análise.
Por que importa: A divulgação das conversas comprometedoras deu novo combustível ao discurso bolsonarista contra Moraes, ofereceu munição à campanha de Flávio Bolsonaro e acendeu um alerta no entorno de Lula.
- O temor do governo é que o desgaste de Moraes respingue eleitoralmente no presidente justamente quando ele tenta recolocar sua agenda no centro da disputa.
- As revelações, no entanto, deram um fôlego que a campanha bolsonarista ainda não havia encontrado.
A troca de mensagens entre Moraes e o ex-banqueiro ajudou a ressuscitar a agenda anti-STF e reanimou candidatos ao Senado.
- A campanha de Flávio já apostava na manifestação de 7 de setembro, na avenida Paulista, como instrumento para mobilizar a militância.
- Agora, o escândalo envolvendo o ministro tende a ocupar o centro do ato.
A campanha também pretende dar um passo além e tentar colar Moraes a Lula.
- Entre os argumentos que deverão ser usados está o papel do ministro como intermediário na reaproximação do presidente com Alcolumbre — numa tentativa de reforçar, junto ao eleitorado bolsonarista, a narrativa de proximidade entre o Planalto e o STF.
Para o Planalto, e sobretudo para a campanha petista, a ampla divulgação dos diálogos entre Moraes e Vorcaro aconteceu no pior momento possível.
- Fontes do governo e da campanha avaliam que o noticiário desta sexta-feira é ruim para o presidente em várias frentes.
- Para uma parcela relevante do eleitorado, existe uma associação entre Moraes e Lula no Supremo, reforçada pelo papel do ministro como algoz de Jair Bolsonaro no julgamento do 8 de Janeiro.
- Soma-se a isso um efeito mais difuso, mas politicamente perigoso — a sensação de corrupção generalizada no país tende a cobrar um preço maior de quem está no poder.
Cresce no entorno de Lula um sentimento de injustiça e de parcialidade de Mendonça.
- A queixa é de que há um desequilíbrio no andamento dos inquéritos do Dark Horse e de Lulinha, ao mesmo tempo em que ganham publicidade revelações do caso Master que atingem Moraes.
3. ‘Importante reforçar’

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, se manifestou pela nulidade e consequente extinção da investigação contra o ministro Alexandre de Moraes, Flávia Maia registra no JOTA.
- Para o PGR, compete ao plenário do STF, e não a um ministro isoladamente, deliberar sobre a investigação de integrantes da própria Corte.
- “Ao pedir que fossem examinados os elementos de investigação, não importando quem fosse a autoridade, o ministro relator impôs a investigação do ministro Alexandre de Moraes — o que realmente acabou por acontecer, em quase 190 páginas das 218 que compõem o estudo policial”, diz trecho do parecer.
- Segundo Gonet, mesmo que, “casualmente”, fosse encontrado algum indício de irregularidade, não caberia a Mendonça aprofundar as pesquisas sobre o colega.
Em uma das conversas divulgadas ontem (1º), Vorcaro questiona ao interlocutor identificado pela PF como Moraes: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”.
- O primeiro pedido do ex-banqueiro ao ministro para influenciar a PF e o PGR ocorreu em 30 de outubro de 2025, segundo o relatório.
- Vorcaro ressaltou que era “importante reforçar” a orientação para que “ninguém de baixo” fizesse “uma sacanagem” com o Master.
4. O discurso antissistema

É muito provável que a extensão das revelações contra Moraes seja grande e atinja todas as candidaturas presidenciais, em maior ou menor escala, de maneira positiva ou negativa, Beto Bombig analisa no JOTA.
- Em linhas gerais, o que surgiu até agora tende a favorecer o discurso eleitoral antissistema.
🔭 Panorama: A crise reforçará a sensação em parte do eleitorado de que está tudo podre em Brasília, um ambiente dominado por um sistema corrompido.
- Essa percepção tende a facilitar a assimilação do discurso dos “outsiders”, que soa como música nos ouvidos dos brasileiros insatisfeitos “com tudo que está aí”.
- A Corte está no epicentro do debate eleitoral e é alvo de críticas não apenas dos simpatizantes da direita, mas de parcela expressiva dos brasileiros que enxerga interferência excessiva do Judiciário na política.
5. O silêncio que precede

Antes da avalanche provocada pela retirada do sigilo no relatório da PF, ontem (1º), o Planalto ainda mantinha a expectativa de que Davi Alcolumbre levasse ao plenário a PEC pelo fim da escala 6×1, Fabio MuraKawa e Marianna Holanda escrevem no JOTA PRO Poder.
- Lula vinha manifestando a convicção de que ganharia esse presente depois da conversa na semana passada com o presidente do Senado e Hugo Motta, no Alvorada.
- A possibilidade de um quórum alto favoreceria a aprovação de uma PEC, se fosse a plenário.
- Mas senadores e até mesmo aliados de Alcolumbre ainda viam essa possibilidade com poucas chances.
Depois das revelações sobre o Master, então, a semana de esforço concentrado tende a ficar comprometida.
Aliás… O Senado aprovou a indicação de Rodrigo Pacheco para o cargo de ministro do Tribunal de Contas da União.
- Ele assume a vaga aberta após a renúncia do ministro Bruno Dantas.
- Uma indicação ao TCU costuma passar por sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos, como ocorreu com Dantas em 2014, mas Alcolumbre apresentou requerimento de urgência e levou a indicação diretamente ao plenário. Leia mais.
6. E ainda teve essa

O Tribunal Superior Eleitoral definiu os critérios para classificar como deepfake conteúdos produzidos com inteligência artificial, Flávia Maia escreve no JOTA.
- Por maioria, ficou estabelecido que a deepfake pressupõe conteúdo sintético produzido ou manipulado por meio de IA, dotado de grau de realismo ou verossimilhança e destinado a criar, reproduzir ou alterar imagem, voz ou manifestação de pessoa viva, falecida ou fictícia.
Venceu a posição acordada entre o relator, ministro Nunes Marques, e os ministros André Mendonça, Dias Toffoli e Antonio Carlos Ferreira.
- Ficaram vencidos os ministros Floriano de Azevedo Marques e Ricardo Villas Bôas Cueva.
- A ministra Estela Aranha concordou com parte da tese.
No caso concreto, a maioria dos ministros entendeu que o vídeo de Jair Bolsonaro não configurava propaganda eleitoral antecipada e, portanto, não era ilícito, afastando a aplicação de multa ao PL.
- Os magistrados acompanharam o entendimento do relator de que o vídeo foi reproduzido durante a convenção, um ato intrapartidário realizado antes do início da campanha.
- Contudo, Flávio Bolsonaro não pode veicular o vídeo na campanha.
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