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Governos querem Estado mais digital, falta o brasileiro ter acesso a ele

JOTA·
Governos querem Estado mais digital, falta o brasileiro ter acesso a ele

Os planos de governo dos cinco candidatos mais bem posicionados na pesquisa Quaest do último dia 5 de agosto convergem no objetivo de digitalizar o Estado, enquanto dão menos espaço às condições de acesso e uso dessa transformação.

A análise é do estudo Inovação e Tecnologia nas Eleições Presidenciais de 2026: análise dos planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral, do Reglab, que mapeou 177 propostas de agenda digital. Governo Digital é o eixo com mais propostas. Inclusão Digital soma 30, e letramento digital, dentro dele, fica com sete. Em 2022, a Gazeta do Povo já mostrava que Lula, Jair Bolsonaro, Ciro Gomes e Simone Tebet, candidatos de campos políticos opostos, tratavam a tecnologia como caminho para desburocratizar o governo.

O tema não é novo, mas o que os números mostram é um descompasso entre a oferta de serviços públicos digitais e a demanda dos usuários dos serviços públicos.

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Esse cenário já é visível quando analisamos o uso do gov.br através da pesquisa TIC Domicílios. 94% dos usuários da classe A acessaram a plataforma, contra apenas 35% da classe DE. Nesse último grupo, 12% precisaram de ajuda de terceiros para realizar o acesso. A escala alcançada pelos serviços digitais contrasta, portanto, com as condições de conectividade disponíveis para que a população consiga efetivamente utilizá-los.

Em pesquisa do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), 42,8% dos usuários de serviços públicos realizaram ao menos um serviço digital (pela internet) no último ano; entretanto, esse percentual variou consideravelmente entre os segmentos populacionais: pessoas com baixa escolaridade, idades mais avançadas e pessoas com deficiência tendem a utilizar menos os canais digitais. Ainda, mais da metade dos usuários de serviços públicos prefere utilizar canais presenciais, a despeito da disponibilidade de opções digitais.

Ao olharmos para os planos de governo analisados em 2026, este cenário de descompasso se mantém. O letramento digital aparece com menos frequência do que propostas ligadas à digitalização do Estado e à infraestrutura. Se os próximos governos pretendem ampliar a oferta de serviços e políticas por meios digitais, é importante olhar antes para os dados brasileiros sobre conectividade, habilidades e uso da internet para entender em que medida a população está, de fato, em condições de usufruir desses recursos.

Um exemplo nacional das dificuldades que podem surgir quando o descompasso entre digitalização, conectividade e letramento digital não é considerado é o caso do Programa Cidades Digitais, uma iniciativa federal voltada a modernizar a gestão pública e ampliar o acesso aos serviços essenciais por meio da tecnologia.

Aproximadamente 90% das cidades abandonaram as ferramentas implementadas pelo programa por conta da ausência de um estudo de demanda estruturado: os aplicativos não correspondiam às necessidades locais dos municípios, exigiam suporte técnico incompatível com a capacidade da maioria das prefeituras e não previam diretrizes de letramento digital para quem usaria as ferramentas.

A presente análise não invalida os potenciais ganhos da digitalização, mas mostra que eles dependem de como essas soluções são implementadas. Quando bem desenhados, serviços públicos digitais podem trazer pontos positivos, como reduzir filas, custos de deslocamento e tempo de espera.

De acordo com os dados da pesquisa do BID, por exemplo, o custo estimado de um serviço presencial para o cidadão é de R$ 59,74, comparado com R$ 6,64 para um serviço digital. O risco não está em digitalizar, mas em transformar o canal digital na porta principal e cada vez mais única de acesso a direitos, sem garantir antes que quem mais depende do Estado tenha não só conexão, como também as condições e as competências para usá-la. É a combinação dessas três camadas que decide se o abismo digital diminui ou apenas muda de forma.

A boa notícia é que o país já tem indicadores para monitorar a inclusão digital com precisão, como é o caso do índice de conectividade significativa do Cetic.br. Falta aos planos de governo transformar esses dados em metas. Um compromisso com a inclusão digital seria mais verificável se dissesse quantos brasileiros passarão a ter conectividade significativa e quantos conseguirão usar o gov.br sem ajuda de terceiros ao fim do mandato. Sem isso, digitalizar o Estado continua sendo uma promessa medida pelo que o governo oferece, e não pelo que a população consegue usar.


BANCO INTERAMERICANO DE DESENVOLVIMENTO (BID). Equidade e serviços digitais: um retrato do Brasil. Elaboração: Martina Bergues e Mariano Lafuente. Washington, D.C.: BID, 2025. Disponível em: https://publications.iadb.org/en/publications/portuguese/viewer/Equidade-e-servicos-digitais-um-retrato-do-Brasil.pdf. Acesso em: 23 setembro 2026.

CETIC.BR — CENTRO REGIONAL DE ESTUDOS PARA O DESENVOLVIMENTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO. TIC Domicílios 2025: pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nos domicílios brasileiros: principais resultados. São Paulo: Cetic.br/NIC.br, 9 dez. 2025. Disponível em: https://cetic.br/media/analises/tic_domicilios_2025_principais_resultados.pdf. Acesso em: 11 de setembro de 2026.

CGI.BR — COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL. Perto da universalização do acesso à Internet, Brasil ainda tem maioria da população com baixa conectividade significativa. Cetic.br, São Paulo, 15 abr. 2024. Disponível em: https://cgi.br/noticia/releases/perto-da-universalizacao-do-acesso-a-internet-brasil-ainda-tem-maioria-da-populacao-com-baixa-conectividade-significativa-revela-novo-estudo/. Acesso em: 11 de setembro de 2026.

CONVERGÊNCIA DIGITAL. Gov.br alcança a marca de 175 milhões de usuários. Convergência Digital, 24 mar. 2026. Disponível em: https://convergenciadigital.com.br/governo/gov-br-alcanca-a-marca-de-175-milhoes-de-usuarios/. Acesso em: 11 de setembro de 2026.

RAMOS, Pedro Henrique Soares Melo. O lugar da recepção na inclusão digital: perspectivas latino-americanas para uma conectividade crítica. Rec. eletrônico (226 f.). Tese (Doutorado) – Escola Superior de Propaganda e Marketing, PPGCOM – Programa de Pós-graduação em Comunicação e Práticas de Consumo, São Paulo, 2025.

RAMOS, Pedro; PICHININ, Thais; RIBEIRO, Natália. Inovação e Tecnologia nas Eleições Presidenciais de 2026: análise dos planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral. Agenda Digital Reglab n. 1. São Paulo: Reglab, 2026. Disponível em:https://reglab.com.br/eleicoes2026/. Acesso em: 11 de setembro de 2026.

SOARES, Olavo. Quais são as propostas dos presidenciáveis para desburocratização e governo digital. Gazeta do Povo, Curitiba, 1 out. 2022. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2022/quais-sao-as-propostas-dos-presidenciaveis-para-desburocratizacao-e-governo-digital/. Acesso em: 11 setembro 2026.