Tributário

A transmissão é a infraestrutura que sustenta o crescimento

JOTA·
A transmissão é a infraestrutura que sustenta o crescimento

A aprovação do Redata aumentou o apetite de investidores por data centers no Brasil, mas trouxe uma pergunta: haverá espaço na rede elétrica para tanta carga? A pergunta é legítima, e a resposta exige cuidado.

A transmissão é o segmento que materializa o Sistema Interligado Nacional (SIN). Ela conecta a energia gerada no Nordeste — hoje, em boa parte, renovável — aos grandes centros de consumo no Sudeste, Centro-Oeste e Sul, e aos novos polos que se formam. Com essa malha, regiões inteiras atraem indústria, serviços e, agora, data centers. Sem ela, o desenvolvimento não chega.

Os pedidos de conexão feitos por projetos de data centers chegaram a somar 80 GW, volume suficiente para quase dobrar o consumo nacional. Após a exigência de garantias financeiras, a fila caiu para cerca de 10 GW, dos quais uma fração já tem contrato de uso da rede assinado. O número mostra a dimensão do interesse; o filtro mostra que o mercado está se organizando.

O Brasil também tem energia sobrando. Em alguns horários e regiões, com o chamado curtailment, o sistema limita a geração de usinas renováveis por falta de espaço para escoar toda a produção. Só em 2025, os cortes somaram cerca de 33 milhões de MWh – a título de comparação, o volume corresponde a praticamente todo o consumo de energia do Rio Grande do Sul em 2025. É energia que existiu e não chegou a ninguém. Ordenar esse montante para uso sustentável é tarefa da expansão da rede.

Tratar a transmissão como gargalo ignora que o setor opera por planejamento de longo prazo. Em média, o processo leva sete anos desde a necessidade indicada no planejamento da expansão até a entrada efetiva da linha em operação. Nesse contexto, o Plano de Outorgas de Transmissão define as obras essenciais, e a EPE e o Ibama trabalham para integrar planejamento e licenciamento.

Existe, de fato, um desencontro de ritmos. Enquanto um empreendimento de transmissão tem esse período mais longo entre estudos e energização, a carga chega em outra velocidade. Um data center pode ficar de pé em um ano e meio. É esse descompasso que exige atenção, e o prazo de cinco anos de benefícios do Redata torna a coordenação ainda mais urgente.

A resposta está nessa coordenação. Planejar geração, transmissão e consumo de forma integrada. Sinalizar a demanda com antecedência e antecipar traçados antes que o projeto vire urgência. O pedido de conexão de hoje precisa virar obra no leilão de amanhã.

O investimento já está em curso. O Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE 2035) prevê cerca de R$ 120 bilhões em transmissão até 2035, com aproximadamente 30 mil km de novas linhas e 82 mil MVA de capacidade adicional em subestações. Por fim, o fato é que, onde há linha de transmissão, há crescimento.